A história do mortal proibido: como Ilja Malinin trouxe o movimento de volta às Olimpíadas

Depois de muitos anos, Malinin executou um mortal nos patins nas Olimpíadas
Depois de muitos anos, Malinin executou um mortal nos patins nas OlimpíadasRichard Ellis / UPI / Profimedia

Os patinadores artísticos talvez precisem reaprender o mortal para se manterem competitivos. Ilja Malinin resgatou um movimento banido há muito tempo, trazendo de volta o espetáculo das grandes apresentações no gelo para a arena. Ele aterrissou o mortal com um pé só, e graças a essa habilidade única, o time americano conquistou o ouro na prova por equipes.

Até Novak Djokovic ficou impressionado na área VIP, acompanhado de sua parceira, Jelena Ristic, no evento olímpico. O casal de estrelas do tênis não acreditou no que o patinador americano fez, nem na energia que transmitiu para a torcida. O mortal de Malinin nos patins pareceu muito natural.

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E, na verdade, não é um movimento novo. O conselho de patinação artística só recentemente voltou a permitir o movimento.

Nome tcheco por trás do primeiro mortal

Já fazem 50 anos desde que o mortal apareceu pela primeira vez nos Jogos Olímpicos. Um jovem discreto de 20 anos, Terry Kubicka, foi quem executou o movimento.

"Na verdade, não existia nenhuma regra proibindo. Mas depois que tudo acabou, a discussão era sobre como os juízes não pontuaram o movimento, porque não sabiam o que fazer com aquilo", lembrou Kubicka à revista Skate sobre o salto que realmente chamou atenção em 11 de fevereiro de 1976.

Mesmo sendo um saltador excepcional, o patinador terminou sem medalha, ficando apenas em 7º lugar. Na época, as medalhas iam para aqueles com um estilo mais refinado. E ele era um excêntrico.

"Uma vez ouvi um competidor dizendo que eu estava tentando transformar a patinação em circo. Mas ele mesmo era muito inovador e se destacava pelo próprio estilo", lembrou Kubicka sobre sua rivalidade com Toller Cranston.

O showman, cujo nome revela raízes tchecas, foi realmente o primeiro…Mas depois do salto em Innsbruck, veio a proibição.

"Disseram que era perigoso. Mas se você treina bem esse salto, não é muito mais perigoso do que os que as duplas fazem", afirmou Kubicka.

Desde então, os mortais só apareceram em exibições ou shows populares no gelo. Quem competia por medalhas era proibido de executar saltos com rotação no eixo horizontal. Mesmo assim, o mortal voltou a aparecer em festivais olímpicos sob os cinco anéis.

Revolta em Nagano

Enquanto os tchecos lembram de Nagano pelo sonho dourado do hóquei, os fãs da patinação artística recordam a coragem da francesa Surya Bonaly quando voltou ao gelo em Nagano, depois de um ano afastada das competições.

Depois de um período brilhante, vencendo campeonatos europeus e ficando três vezes com a prata no Mundial, ela rompeu o tendão de Aquiles e o título mundial escapou.

"Talvez se eu fosse branca, já teria vencido o título há muito tempo, mas quem sabe? Ser uma pessoa negra era algo incomum naquela época", escreveu em sua biografia.

Surya Bonaly foi ao Japão para sua última Olimpíada e causou um verdadeiro alvoroço. Em sua apresentação livre, ao som de um solo de violino das Quatro Estações de Vivaldi, ela executou um mortal aterrissando com um pé só. Exatamente como as regras da patinação exigiam.

Até então, todos aterrissavam o mortal com os dois pés, por isso o movimento era rejeitado. A ex-ginasta provou que era possível.

"No começo, fiquei quase envergonhada. Talvez me odeiem para sempre", pensou. Os juízes também não a recompensaram. Pelo contrário, ela foi penalizada pelo movimento proibido.

Mas também foi um ato de rebeldia. Bonaly sempre sentiu que era ignorada, acreditando que recebia notas mais baixas do que as concorrentes brancas, as chamadas princesas do gelo. O mortal em Nagano, feito por uma patinadora negra, virou símbolo de resistência, assim como o gesto de virar as costas para os juízes durante a avaliação.

"Mas eu não sou realmente uma rebelde. Talvez hoje eu valorize mais do que na época, e tenho orgulho de mim. Simplesmente fiz. Acho que fui pioneira", disse.

O 10° lugar final pouco importou, talvez só tenha ressaltado sua relação com a Federação Internacional de Patinação. Mas sua apresentação conquistou a torcida mais do que o ouro da hoje esquecida Tara Lipinski.

Quase três décadas se passaram desde a apresentação de Bonaly. E desde novembro de 2024, o mortal aterrissando com um pé só voltou a ser permitido.

Pontos só pela expressão artística?

Mas ainda há um detalhe. O salto não tem valor de pontos e não é elemento obrigatório. Porém, pode ser incluído como parte da coreografia no programa livre. E Ilja Malinin sabia disso. Como as disciplinas da patinação artística são avaliadas em duas categorias, ele pode ter conquistado mais pontos pela expressão artística na final por equipes de domingo do que o rival japonês Shun Sato.

"Foi divertido. A torcida estava gritando muito, completamente fora de controle. Senti a gratidão deles," contou.

Mas os desafios mais difíceis ainda estão esperando por Malinin. Graças à sua capacidade de executar um Axel quádruplo, ele é considerado favorito na prova individual. Porém, após o programa curto, está atrás de outro japonês, Yuma Kagiyama.

Independentemente de como terminem as provas de patinação artística nas Olimpíadas de Milão, está claro que os mortais terão seu espaço. O apelo das competições e a disputa pela atenção do público estão cada vez mais em pauta. E a torcida sempre reage diferente a um mortal…