Pedrinho: "Sonho em jogar a Copa pelo Brasil, mas pensaria com carinho na Ucrânia"

Pedrinho tem ido bem nesta temporada no futebol ucraniano
Pedrinho tem ido bem nesta temporada no futebol ucranianoČTK / imago sportfotodienst / BARTEK ZIOLKOWSKI / CYFRASPORT

Em sua melhor fase na Europa, Pedrinho é o motor do Shakhtar Donetsk na temporada 25/26. Entre gols e assistências, o brasileiro vive uma realidade atípica: a de um jogador itinerante em meio a uma guerra.

Em entrevista exclusiva ao Flashscore, o meia-atacante revela os bastidores do trabalho com Arda Turan, comenta os rumores de uma convocação inédita para a seleção ucraniana e esclarece, de uma vez por todas, a verdade sobre o suposto interesse do Corinthians no seu retorno.

Pedrinho, seja muito bem-vindo. Está agora na Turquia para a preparação de inverno do Shakhtar. Como estão as condições por aí? Muito frio ou a chuva tem sido o maior desafio?

É um prazer falar com vocês. Graças a Deus, estamos aqui na Turquia fazendo uma pré-temporada. Não está tão frio, mas tem chovido bastante. Já é o meu terceiro ano fazendo pré-temporada aqui. É um lugar com campos de muita qualidade para treinarmos bem e voltarmos para a temporada da melhor maneira possível.

Você tem brilhado nesta temporada: 14 jogos, 5 gols e 5 assistências na liga, além de participações decisivas na Copa da Ucrânia e na Conference League. Acredita que está no auge da sua carreira?

Sim, realmente estou muito feliz com a temporada. Acho que tudo passa pela confiança, principalmente do treinador e da equipe. Assumi um papel importante e essa confiança me deixa à vontade para jogar e ajudar, seja com gols ou assistências. É a melhor metade de temporada que eu poderia esperar e espero continuar assim para conquistarmos títulos. Se eu estiver bem, a equipe também estará e vamos brigar por coisas grandes.

O Shakhtar está na luta direta pela liderança. O que tem sido decisivo? É o efeito Arda Turan no banco? Fala-se muito que o auge de um jogador é aos 28 anos, idade que você está prestes a atingir...

São vários fatores. Com a idade, ganhamos mais experiência. O nosso time é muito jovem e talentoso, mas precisava dessa maturidade. Mesmo com 27 anos, tento passar essa experiência para eles. Sobre o Arda Turan, ele atingiu o topo como jogador e isso agrega muito. Ele e a comissão técnica exigem o máximo de nós, tanto física quanto tecnicamente. Ele tem esse espírito vencedor e está sempre em cima de nós para não relaxarmos, seja no campeonato ucraniano ou na Conference League.

O Arda Turan é um treinador muito jovem (38 anos) e parou de jogar há pouco tempo. Como é ter como referência alguém que viveu o topo no Barcelona e no Atlético de Madrid?

Ajuda muito. Ele cobra detalhes que outros não veem porque ele sentiu isso no campo. Ele conversa muito comigo por ter sido meia também; sabe onde posso evoluir. Ele viveu o estilo de posse de bola do Barcelona e as transições do Atlético, então essa bagagem influencia sua energia dele. É um cara muito enérgico que nos mantém em alto nível.

Números de Pedrinho
Números de PedrinhoFlashscore

O Shakhtar tem atualmente 11 brasileiros no elenco. É quase um time inteiro. Como é viver essa "cultura brasileira" estando tão longe de casa?

Para nós é crucial. Moramos muito longe, num lugar frio e com situações difíceis. Ter brasileiros ao lado muda tudo. A nossa cultura é alegre, estamos sempre brincando e isso faz com que os jovens que chegam se adaptem muito rápido. Jogar fora não é fácil — muda o estilo de jogo, a alimentação, a língua. Quando eu cheguei, também havia muitos brasileiros e isso facilitou o meu trabalho com o De Zerbi na época.

Um desses jovens que tem brilhado é o Kauã Elias. Vê nele potencial para ser um centroavante de topo mundial no futuro?

Com certeza. Ele é muito jovem, mas já veio com uma certa experiência do Fluminense. Conseguimos ver a qualidade técnica dele. Ele tem nos ajudado bastante e terá um futuro brilhante e vitorioso na carreira.

A situação na Ucrânia é muito complexa. O Shakhtar é hoje um time itinerante: treina em Kiev, joga em Lviv e viaja pela Europa para a Conference League. Como é viver essa rotina?

Não é fácil. Só quem vive aqui sabe o quão complicado é. Isso afeta o campo porque não temos uma casa fixa; estamos um dia num lugar, outro dia noutro. A logística é pesada: às vezes são 6 horas de ônibus até Lviv, depois mais 7 até a Polônia para um jogo europeu. O Arda Turan é inteligente e roda muito a equipe por causa disso. Priorizamos o campeonato ucraniano, que nos dá acesso à Champions, mas torcemos muito para que essa guerra acabe.

E em relação à sua família? Eles estão com você na Ucrânia?

Durante um ano fiquei sozinho por receio. É difícil viajar para a Polônia e saber que os filhos estão na Ucrânia correndo riscos. Mas depois de um ano, trouxe a minha esposa, filhos, irmã e tia. Meus pais também vieram, mas acabaram indo embora porque estavam com medo. Agora em fevereiro, quando nos reapresentarmos na Ucrânia, terei de rever a logística para saber quando será seguro eles estarem lá novamente. Moramos num apartamento em Lviv, enquanto outros brasileiros preferem ficar no resort que o clube disponibiliza com toda a estrutura.

Surgiu recentemente a notícia de que o técnico ucraniano, Serhiy Rebrov, teria interesse em naturalizá-lo para jogar, já em março, contra a Suécia, pela repescagem para a Copa do Mundo. O que há de verdade nisso?

Para ser sincero, soube disso pela internet. Ninguém da comissão técnica falou comigo diretamente. Ouvi boatos através dos meus empresários, mas nada oficial. Acordei assustado com tantas notícias. Não depende só de mim, há muitas coisas que influenciam. Vou esperar para ver se o interesse é real antes de tomar qualquer decisão.

Mas, no campo teórico, se o convite chegasse amanhã, aceitaria defender a Ucrânia?

Teria de pensar no que é melhor para a minha carreira e para a minha família. Jogar uma Copa do Mundo é um sonho. Eu sempre sonhei com a Seleção Brasileira, mas sentaria com a minha família e analisaria se seria algo positivo para o meu crescimento. A seleção ucraniana está perto de disputar o Mundial. Se for algo que agregue, pensaria com carinho. Mas, claro, o sonho principal de infância será sempre a Seleção Brasileira.

Você fez parte daquela seleção sub-23 com nomes como Bruno Guimarães, Antony, Matheus Cunha e Gabriel Martinelli. Manténs contato com eles?

Sim, era um baita time! Tenho contato com eles até hoje. O Matheus Cunha e o Antony são como irmãos para mim. Fui convocado para quase tudo, só faltei às Olimpíadas por causa de uma lesão, o que foi uma tristeza enorme porque tinha a confiança do Jardine. Fico muito feliz de ver o sucesso deles hoje; o Cunha é um dos melhores com quem já joguei.

Em 2020, você saiu do Brasil para o Benfica por 18 milhões de euros, na época do retorno de Jorge Jesus. Olhando para trás, o que faltou para brilhar em Portugal?

Foi uma mudança que exigiu adaptação e eu era muito jovem. O elenco era brilhante (Darwin Nuñez, Everton Cebolinha, Otamendi), e eu não tive tantas oportunidades quanto gostaria. Além disso, foi o auge da pandemia, sem torcida no estádio. Levo como aprendizado. Fiquei feliz pela experiência de jogar num clube gigante como o Benfica, mas infelizmente não foi a temporada dos meus sonhos.

E como foi a relação com Jorge Jesus? 

O Jorge Jesus é muito exigente e explosivo, como todos sabem. Mas é também muito inteligente e conquistou muita coisa. Aprendi com ele, apesar do pouco tempo de jogo. Quando surgiu a oportunidade de vir para o Shakhtar, não pensei duas vezes.

No Benfica, o goleiro Trubin (ex-Shakhtar) tem sido destaque. Você ficou surpreso com o nível dele?

Não me surpreendeu porque conheço a qualidade dele. Ele sempre foi um goleiro de "fazer milagres". Mesmo muito jovem aqui no Shakhtar, já era um goleiro de jogo grande. Sabíamos que ele estaria lá para nos salvar.

Para terminar: houve rumores de um interesse do Corinthians no teu retorno no ano passado. Chegou a haver alguma proposta concreta?

Não houve interesse concreto. Tenho um carinho e uma gratidão enorme pelo Corinthians, foi o clube que me lançou e onde fui muito feliz. Se houvesse o interesse, eu teria um desejo muito grande de voltar para ajudar. Mas foram apenas especulações e boatos de internet; ninguém me procurou diretamente.