Tenista finlandês registra, em blog, saga para deixar Dubai no meio da guerra

Heliovaara descreveu os acontecimentos em Dubai
Heliovaara descreveu os acontecimentos em DubaiMarco BERTORELLO / AFP / AFP / Profimedia

Parece que tudo acabou por correr bem para os tenistas. Todos os que ficaram retidos em Dubai, alvo de ataques com mísseis, estão aparentemente em segurança. As grandes estrelas conseguiram sair do Golfo Pérsico em pequenos aviões. Outros, menos conhecidos, tentaram escapar da zona perigosa, por vezes acompanhados pelos seus filhos e famílias. O relato mais detalhado do que se passou nos Emirados Árabes Unidos foi publicado no seu blog pelo finlandês Harri Heliovaara, especialista em torneios de duplas.

"Disputamos o torneio com dignidade e vencemos, mas a situação no Oriente Médio está complicada há um dia e meio. Planejávamos voltar à Finlândia na noite de sábado (28), mas continuamos sem saber como isto vai terminar", escreveu o vencedor de dois Grand Slams no seu blog, no final do fim de semana, na sua primeira publicação.

Segundo ele, a comunicação por parte dos organizadores e da direção da ATP foi intensa desde o início, mas não resolveu nada. A final de duplas chegou a ser disputada enquanto mísseis sobrevoavam Dubai.

"Algumas horas antes do início da final, recebemos o primeiro briefing dos organizadores do torneio sobre a situação. Para além do supervisor, estava por lá o responsável de segurança da ATP e, do lado dos organizadores, o diretor do torneio, que tem ligações fortes à administração local", escreveu Heliovaara.

Nesse momento, grande parte do espaço aéreo dos países vizinhos já estava fechado. Desde domingo de manhã, não saiu nenhum avião de Dubai.

Na cidade ficaram 41 pessoas: jogadores, árbitros, fisioterapeutas, analistas de dados e outros membros da equipe organizadora. "Mas claro, também treinadores, outros elementos das equipes e familiares", acrescenta o finlandês. Como a espera se prolongava e a situação se tornava cada vez mais incerta, alguns começaram a tentar sair da cidade por conta própria.

Havia duas opções para chegar a um local seguro: por estrada até Omã ou à Arábia Saudita, onde o espaço aéreo continuava aberto. Mas de Dubai até Mascate, em Omã, são cinco horas de viagem, e até à Arábia Saudita são 10.

Um precisa ficar na fronteira

Heliovaara estava em Dubai com a sua mulher Sini e os dois filhos pequenos – uma menina de sete anos e um rapaz que em breve fará três. Também o acompanhava o seu parceiro britânico de duplas Henry Patten. Na segunda-feira, o pequeno grupo decidiu tentar atravessar a fronteira do emirado. A história que ele conta é daquelas que ninguém quer viver.

"Os organizadores do torneio nos ajudaram a encontrar transporte mas, desde o início, tudo correu mal. Em vez de um SUV prometido, apareceu um sedã, onde não cabíamos. Acabamos por partir com cerca de uma hora de atraso", descreve a primeira aventura.

"Quando chegamos à fronteira de Omã, logo no primeiro posto de controle, surgiram problemas. Diziam que os documentos do nosso carro não tinham a autorização correta para atravessar a fronteira com matrícula dos Emirados Árabes. Depois, enviaram outro carro, mas novamente não cabíamos todos. A empresa de transportes conseguiu rapidamente arranjar um transporte vindo de Omã para podermos continuar a viagem. De alguma forma, conseguimos convencer esse carro a vir nos buscar do lado dos EAU, evitando assim atravessar a fronteira a pé ou de ônibus como todos os outros viajantes", relata o finlandês.

Torneio nos Emirados foi cancelado

Quando parecia que a travessia da fronteira tinha sido conseguida, surgiram novos problemas. "Já tínhamos tudo pronto, mas os seguranças não nos deixaram passar. Para piorar, o carro que nos levou à fronteira já tinha ido embora. Tivemos de esperar mais uma hora até voltar, para podermos voltar a carregar tudo, instalar novamente as cadeiras de criança nos dois carros originais e regressar ao primeiro controle. Aí nos disseram que um de nós não podia sair do país, mas ninguém nos soube explicar o porquê."

Crianças corajosas

O tempo escasseava. Ficou claro que já não seria possível pegar o voo em Mascate. O grupo de Heliovaara decidiu então regressar ao hotel para recuperar energias.

"Não foi uma viagem agradável, especialmente porque acabamos por ficar sete horas num carro cheio, com muitas mudanças, precisando instalar cadeiras de criança várias vezes. Felizmente levamos lanche e as crianças portaram-se maravilhosamente bem. Mesmo assim, foi difícil", contou o aventureiro, que só começou a jogar tênis de alto nível depois dos 30 anos.

Vista do quarto de Harri Heliovaara em Dubai
Vista do quarto de Harri Heliovaara em DubaiInstagram / Harri Heliovaara

Do quarto de hotel no Dubai, toda a família observava como, de vez em quando, algum avião levantava voo e o espaço aéreo sobre o Golfo Pérsico começava lentamente a reabrir. A procura por uma saída dos Emirados era enorme.

Não era possível reservar voos, a Emirates e a Etihad anunciaram o cancelamento de todos os voos até quinta-feira, mas alguns voos de evacuação continuavam a ser realizados. "O ATP e os organizadores continuam a tentar nos colocar nesses voos, e claro que há muitas empresas tentando lucrar com a situação. Os preços são exorbitantes, chegam a dezenas de milhares de euros por lugar. Nós decidimos não apressar a saída, agora estamos à espera, em silêncio, de novas oportunidades que possam surgir com a ajuda do torneio e do ATP", escreveu Harri Heliovaara no seu blog.

Boas notícias 

Tal como o trio russo Medvedev, Zverev e Khachanov, Heliovaara também ponderou alugar um avião privado. Mas nem isso foi fácil. "Eles também ficaram retidos na viagem para Mascate, enfrentaram vários problemas", recordou.

No final, a sorte acabou por sorrir para o finlandês. Nesta quarta-feira (4), o aeroporto do Dubai voltou a operar alguns voos para a Europa. "Conseguimos bilhetes para um voo matinal para Milão. Agora estamos no aeroporto do Dubai e cruzamos os dedos para conseguir chegar em casa", escreveu ainda com alguma incerteza.

Na publicação seguinte, ele tranquilizou todos os seus familiares e amigos: "Conseguimos embarcar e, enquanto escrevo este texto, estamos no espaço aéreo italiano. Devemos chegar à Finlândia na noite de quarta-feira..."

Harri Heliovaara informa que está em segurança
Harri Heliovaara informa que está em segurançaInstagram / Harri Heliovaara