Entenda por que o ranking da ATP engana no Rio Open

Entenda por que o ranking da ATP engana no Rio Open
Entenda por que o ranking da ATP engana no Rio OpenProfimedia

“Não tenho palavras para descrever tudo o que vivi aqui desde a primeira partida, me senti em casa com o apoio do público”, afirmou Carlos Alcaraz após vencer seu primeiro ATP 500 da carreira. O ano era 2022, e o garoto de 18 anos ficaria ligado, para sempre, à terra batida do Brasil.

É fato que o espanhol ficou muito maior do que o Rio Open. Mas o torneio brasileiro — o melhor do seu nível na América do Sul — se consolidou ao longo dos anos não pela presença maciça dos maiores nomes do ranking da ATP, e sim pela qualidade técnica das partidas disputadas no saibro, um piso que nem sempre seduz a elite do circuito.

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Tanto que, informalmente, se existisse um ranking oficial exclusivo da terra batida, muitos dos jogadores presentes na chave principal do torneio carioca apareceriam em posições bem mais altas do que ocupam hoje no ranking geral.

Em 2026, por exemplo, o Rio Open não terá jogadores do atual top 10 da ATP, pois Lorenzo Musetti (5º) desistiu por lesão. O italiano teve um desempenho expressivo na superfície em 2025, com 19 vitórias e 4 derrotas, e figurou entre os jogadores mais eficientes do circuito no barro.

O argentino Francisco Cerúndolo, 19º do mundo aos 27 anos, também carrega um currículo no saibro que relativiza seu ranking geral. Só em 2025, foram 21 vitórias e 9 derrotas na superfície — desempenho comparável ao de nomes estabelecidos do circuito.

Já tendo vencido jogadores do top 10 no barro, Cerúndolo é um exemplo clássico de como, no Rio, uma boa combinação de chave e semana inspirada podem colocá-lo entre os reais candidatos ao título, sobretudo em um torneio em que, não raramente, quartas de final e semifinais se mostram mais intrincadas do que a decisão.

Modelos avançados de estatística por superfície ajudam a explicar esse fenômeno. Indicadores como o Surface Advantage Index apontam que o italiano Luciano Darderi apresenta um dos maiores ganhos relativos de desempenho no saibro em comparação com outras superfícies, com um boost estatístico superior a 140 pontos.

Aos 23 anos, Darderi integra a chave principal do Rio Open como mais um nome cujo rendimento no barro supera, com folga, a percepção criada pelo ranking ATP tradicional.

As duas conquistas recentes de Sebastián Báez, campeão em 2024 e 2025, reforçam essa identidade do torneio. Aos 25 anos, o argentino não chegou ao Rio como favorito absoluto em nenhuma das campanhas, mas confirmou como o “miolo” da chave carioca — repleto de especialistas no saibro — funciona como uma peneira técnica severa.

Quem atravessa bem essa zona intermediária do torneio frequentemente se credencia a derrubar nomes mais badalados. Foi o que aconteceu em 2024, quando o argentino Francisco Comesaña eliminou Alexander Zverev nas quartas de final, antes de cair na semifinal diante do francês Alexandre Müller, vice-campeão daquela edição.

Comparação com outros torneios

Essa lógica fica ainda mais clara quando o Rio Open é comparado a outros torneios do mesmo período no calendário. No ATP 250 de Buenos Aires, disputado no saibro, o ranking geral costuma se alinhar de forma mais previsível aos resultados: a superfície é mais rápida, as condições climáticas são menos extremas e os favoritos tendem a confirmar com maior regularidade.

Já no ATP de Acapulco, jogado em piso duro, o ranking ATP funciona quase como um mapa fiel do torneio, com pouca margem para distorções ou surpresas profundas.

No Rio, não. O calor, a umidade e o saibro mais pesado criam um ambiente em que especialistas ganham protagonismo e o ranking “descola” da realidade técnica. É esse desajuste que transforma o torneio carioca em um território fértil para narrativas improváveis.

Como resume Lui Carvalho, diretor do evento, o Rio Open é “a oportunidade de descobrir novas histórias, novos personagens e continuar desenvolvendo o tênis no Brasil”.

Além, claro, de observar com lupa enredos que podem se tornar ainda mais vibrantes — seja com o brasileiro João Fonseca ou com Matteo Berrettini em busca da forma que o levou à final de Wimbledon (apesar do contraste entre grama e saibro).

Matteo Berrettini é uma das atrações do Rio Open 2026
Matteo Berrettini é uma das atrações do Rio Open 2026Rio Open/Fotojump