Tour sul-americana da ATP tenta sobreviver ao dinheiro saudita

Cerúndolo defendeu as competições sul-americanas do ATP
Cerúndolo defendeu as competições sul-americanas do ATPJUAN MABROMATA / AFP

Com a certeza de que a Arábia Saudita terá um Masters 1000 em fevereiro a partir de 2028, os torneios na América do Sul em quadras lentas tentam encontrar uma solução para a chegada árabe e evitar o desaparecimento de suas competições.

O Golden Swing, como é conhecida a tour da ATP na América Latina no início do ano há décadas, vê a sua posição ameaçada num calendário cada vez mais restrito, e no qual os tenistas procuram ter mais descansos.

A seguir, os fatores que colocam em risco a sobrevivência dos torneios sul-americanos de tênis:

Problema de calendário

As competições sul-americanas, como na Argentina, no Brasil e Chile, encontraram espaço após o Aberto da Austrália nas quatro semanas de fevereiro, antes dos primeiros Masters 1000 do ano, no cimento de Indian Wells e Miami.

O cenário mudou em outubro de 2025, quando a ATP anunciou o lançamento, a partir de 2028, de um novo Masters 1000, com sede na Arábia Saudita, para se tornar o 10º torneio dessa série.

A ATP anunciou-o como "uma nova era para o tênis mundial e uma importante transformação desportiva na Arábia Saudita". O que a ATP não esclareceu na época é como irá encaixar esta nova competição num calendário já sobrecarregado, embora tudo indique que fevereiro será o mês escolhido para a sua realização, o que afetará diretamente a tour sul-americana.

Mudança de superfície?

Durante muito tempo, a América do Sul se acostumou a abrir a temporada em quadras lentas, o que permitia a chegada de várias figuras especializadas em saibro, como Gustavo Kuerten, Rafael Nadal, David Ferrer ou a numerosa legião argentina. No entanto, essa situação mudou com o passar dos anos e agora há cada vez menos jogadores especialistas no saibro.

Neste contexto, há muito tempo que se avalia a possibilidade de mudar a superfície da tour latino-americana, o que Acapulco já fez há anos para se "aproximar" de Indian Wells e Miami.

"Temos de avaliar se procuramos um quadro com melhores jogadores, mesmo que isso implique sacrificar uma tradição", admitiu no ano passado Catalina Fillol, diretora do Chile Open.

Mais dinheiro e pontos para competir

Para tentar evitar que as grandes figuras saiam completamente para a Arábia Saudita, as competições sul-americanas precisam de torneios mais relevantes, o que implica atribuir mais pontos e distribuir mais dinheiro. Para cumprir esta premissa, é necessário subir de categoria.

Este é o pedido de Buenos Aires, que há anos pede para subir do nível ATP 250 para 500, para ficar igual ao Rio de Janeiro, enquanto o Chile também atua em nível 250. Já em 2025, a digressão "perdeu" o torneio 250 de Córdoba, na Argentina, absorvido por uma série de mudanças para reduzir o calendário.

"Se realmente querem fortalecer a tour, é preciso colocar dois ATP 500 seguidos. É isso que pedimos", disse Kristoff Puelinckx, fundador da Tennium, empresa proprietária do torneio de Buenos Aires, ao jornal La Nación.

"Sabemos que o torneio da Arábia não será obrigatório, mas os jogadores vão querer jogar lá porque vai dar muito dinheiro. Mas se (na América do Sul) você conseguir colocar dois ATP 500 juntos, são 1.000 pontos, é outra oferta", disse Puelinckx, que também organiza os eventos de Barcelona, Hamburgo e Bruxelas.

A visão dos jogadores

Nos últimos dias, vários tenistas defenderam a tour sul-americana, entre eles o argentino Francisco Cerúndolo, que no domingo se sagrou campeão do Aberto de Buenos Aires.

"Para ser um (torneio) 250, isto é um luxo. Vá lá, Andrea", disse o melhor tenista sul-americano (19º do mundo) na cerimônia de entrega de prêmios a Andrea Gaudenzi, o presidente da ATP que assistia de uma tribuna.

Gaudenzi, recentemente reeleito para liderar a ATP até 2028, também viajará ao Rio para conversar com os proprietários do torneio brasileiro, que começa nesta segunda-feira (16), em busca de diálogo e possíveis propostas.

Nesse sentido, não se descarta um possível convite da ATP para mudar a turnê para a última parte da temporada, após o Aberto dos Estados Unidos.

"A América do Sul merece uma digressão importante porque as pessoas adoram tênis. Espero que continue viva aqui nos próximos anos. Nos jogos da primeira rodada, estava cheio de gente, e isso não é fácil de encontrar", disse o italiano Matteo Berrettini, finalista de Wimbledon 2021, que jogou pela primeira vez na capital argentina.