Dono de um currículo impecável — único campeão nacional nas cinco grandes ligas da Europa e maior vencedor da história da Champions League —, o italiano tem um peso gigantesco sob os ombros: um histórico estatístico que prega cautela. O sucesso avassalador no futebol de clubes garantirá ao italiano uma transição vitoriosa para o futebol de seleções?
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"É uma experiência nova, mas algo especial obviamente. É ter a responsabilidade e a honra de representar o país do futebol, a seleção mais laureada do mundo. Duas coisas: responsabilidade e honra. Eu quero aproveitar esse momento com alegria e felicidade porque é um momento muito bonito da minha história", disse Ancelotti, logo na primeira resposta da coletiva de véspera de estreia no Mundial, realizada em Nova Jersey nesta sexta-feira (12).

Treinar um clube e comandar uma seleção são profissões quase distintas. No dia a dia dos clubes, o técnico usufrui do benefício do tempo, da repetição tática diária e do poder de mercado para contratar as peças que faltam ao seu esquema. Nas seleções, o cenário muda drasticamente.
O comandante transforma-se em um selecionador, dispondo de poucos dias de treino ao longo do ano, precisando lidar com a escassez de opções em determinadas posições e gerindo a pressão cultural de uma nação inteira. Um medo calculado e que sempre foi exaltado por Ancelotti, até mesmo na sua vitoriosa trajetória no futebol de clubes.

"O medo é um componente importante da vida, porque se você não tem medo e encontra um leão, ele vai parecer um gato. O medo é uma parte fundamental, salva vidas. São momentos que você tem preocupações para que seu time possa fazer o melhor jogo possível. Eu de natureza sou muito otimista, acho que a equipe está bem preparada para o jogo de amanhã (neste sábado, contra Marrocos) e bem preparada para a Copa do Mundo", cravou o italiano.
Essa dinâmica de trabalho explica por que "supertreinadores" do futebol moderno, obcecados por processos diários e engrenagens milimétricas, como Pep Guardiola e Jürgen Klopp, ainda evitam ciclos por seleções. Até mesmo o lendário Alex Ferguson só teve uma breve e discreta experiência interina com a Escócia na Copa de 1986. Para técnicos que dependem de 300 dias de treino por ano para automatizar movimentos, o tiro curto de uma Copa do Mundo pode ser frustrante.

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Os reis dos dois mundos: a lição dos pioneiros
Olhando para a história do futebol, a lista de técnicos que decifraram esse enigma e atingiram sucesso — mesmo que isso não signifique glórias em Copas do Mundo — em ambas as prateleiras é seleta, mas oferece os espelhos perfeitos para a missão de Ancelotti:
Vicente del Bosque é o maior paralelo para o italiano. Del Bosque construiu um Real Madrid vencedor no início dos anos 2000, conquistando duas Champions League. Ao assumir a Espanha, conseguiu o feito raríssimo de manter o sarrafo alto, levando o país ao inédito título da Copa do Mundo de 2010 e ao bicampeonato da Eurocopa em 2012. Gestão de vestiário humana e controle de egos fizeram parte da receita de Del Bosque.

Outro exemplo é Marcello Lippi, uma lenda incontestável. Lippi dominou o futebol europeu na década de 1990 comandando a Juventus, onde venceu a Champions de 1996. Em 2006, levou toda a sua mentalidade competitiva para a Seleção Italiana, blindando o elenco em meio a crises políticas locais e conquistando o tetracampeonato mundial na Alemanha.

Luiz Felipe Scolari e Telê Santana (Brasil): No cenário nacional, Felipão alcançou a glória eterna com o Penta em 2002 e o vice-campeonato europeu com Portugal em 2004, após ter conquistado a América com o Grêmio e o Palmeiras. Já Telê Santana, o mestre do futebol-arte, marcou época na Seleção com equipes lendárias em 1982 e 1986, para depois empilhar títulos mundiais e continentais com o São Paulo na década de 1990.

Carlos Bilardo e Juan Carlos Lorenzo (Argentina): Bilardo foi bicampeão da Libertadores com o Estudiantes (como jogador, mas levando essa escola para a vida) e montou o esquema perfeito para consagrar a Argentina de Maradona na Copa de 1986. Nos anos 70, Juan Carlos Lorenzo dominou a América com o Boca Juniors bicampeão da Libertadores, após já ter comandado a seleção argentina em duas Copas do Mundo (1962 e 1966).

O peso da tradição: rompendo a barreira do pragmatismo
A história antiga também guarda os nomes de Rinus Michels (pai do "Futebol Total", campeão europeu com o Ajax e da Euro 1988 com a Holanda), Franz Beckenbauer e Helmut Schön, que souberam transpor a mentalidade vencedora dos gigantes alemães (como o Bayern de Munique) diretamente para o banco de reservas da seleção da Alemanha Ocidental, culminando no título mundial de 1974.

Historicamente, os treinadores de clubes que triunfaram em seleções não eram cientistas táticos engessados, mas sim grandes gestores de homens. Eles entendiam que, em um torneio de um mês, a psicologia, a liderança e a capacidade de acalmar ambientes inflamados valem mais do que quadros táticos complexos. Ancelotti parece já estar alinhado a este discurso.
"O trabalho de um treinador é um trabalho de adaptação, você tem que se adaptar a muitas coisas: às características dos jogadores, ao ambiente, à cultura da Seleção, à cultura do país. Tentei me adaptar rapidamente, acho que o trabalho feito nesse ano nos permite ser competitivos nessa Copa do Mundo", disse o mister aos jornalistas que se amontoaram na sala de imprensa do MetLife.
Se Ancelotti tentar transformar o Brasil em uma cópia engessada de um clube europeu, a tendência estatística aponta para o esgotamento. No entanto, se ele acionar a sua maior qualidade — a flexibilidade humana para potencializar talentos —, o italiano tem o cenário perfeito para provar que a sua mentalidade vencedora não conhece fronteiras, abrindo portas para que gigantes do futebol de clubes tenham a confiança necessária para transpor barreiras e assumam seleções nacionais. Seria Guardiola o próximo desta lista?

A Copa do Mundo de 2026 será realizada de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções, 104 jogos e será disputado em 16 estádios.
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