Há jogadoras que marcam uma época. Outras atravessam gerações. A atacante Gabrielle Aboudi Onguene pertence ao segundo grupo. Quase duas décadas depois de estrear na Copa Africana das Nações Feminina, a atacante voltou a entrar em campo pelo torneio continental e alcançou um feito inédito: tornou-se a primeira atleta da história a disputar oito edições da competição.
A marca foi alcançada durante a vitória de Camarões por 2 a 1 sobre Mali, pela primeira rodada da fase de grupos, quando entrou em campo na reta final do duelo. O resultado deu à equipe a primeira vitória no torneio, iniciando campanha rumo ao mata-mata, enquanto a camisa 10 consolidava um recorde que dificilmente será igualado em um futuro próximo.

Mais do que a longevidade, o número resume a importância de Onguene para o futebol africano. Desde 2008, ela esteve presente em praticamente todos os momentos decisivos da seleção camaronesa, acompanhando a evolução da modalidade no país e ajudando a colocar as Leoas Indomáveis entre as protagonistas do continente.
Desenvolvimento que impulsionou Camarões
Quando Onguene disputou sua primeira Copa Africana, Camarões ainda buscava espaço entre as grandes seleções femininas da África. Desde então, o cenário mudou. A atacante participou diretamente do período mais vitorioso da equipe nacional, que passou a disputar regularmente fases decisivas continentais e conquistou espaço também em competições mundiais.
Com a camisa camaronesa, a atacante disputou duas Copas do Mundo, em 2015 e 2019, além dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. Em solo canadense, marcou um dos gols da histórica vitória por 2 a 1 sobre a Suíça, resultado que colocou Camarões, pela primeira vez, nas oitavas de final de um Mundial Feminino. Quatro anos depois, voltou a balançar as redes na Copa do Mundo, desta vez diante da Holanda.
Seu desempenho também foi reconhecido individualmente. Em 2016, foi eleita a melhor jogadora da Copa Africana das Nações, prêmio que simbolizou o auge de uma atleta que já era referência técnica e de liderança para sua seleção.

Destaque nos clubes
O protagonismo nunca ficou restrito à seleção. Depois de se destacar no futebol camaronês, Onguene construiu uma carreira sólida na Rússia, onde vestiu as camisas do Rossiyanka e, posteriormente, do CSKA Moscou.
No futebol russo, conquistou títulos nacionais, disputou competições europeias e tornou-se uma das principais estrangeiras da liga. Mesmo aos 37 anos, continua sendo peça importante da equipe.
Os números recentes mostram que a experiência segue acompanhada de competitividade. Pelo CSKA, marcou cinco gols em cinco partidas em 2024, anotou quatro gols em 15 jogos na temporada de 2025 e já disputou 10 partidas em 2026. Pela seleção, entrou em campo duas vezes na atual Copa Africana e havia marcado um gol em duas atuações por Camarões na temporada anterior.

Liderança e referência para a nova geração
A histórica oitava participação acontece em meio a uma campanha consistente das Leoas Indomáveis. Camarões venceu Gana por 1 a 0 e Mali por 2 a 1 nas duas primeiras rodadas da fase de grupos, chegando invicto à reta decisiva da primeira fase.
O bom momento reforça uma característica que acompanha a seleção há anos: competitividade. Nos compromissos mais recentes antes da Copa Africana, as camaronesas também derrotaram Benin por 3 a 1 em amistoso internacional e conquistaram uma vitória sobre a tradicional Nigéria, mostrando força diante de uma das maiores potências do continente.
Embora tenha deixado o protagonismo ofensivo para atletas mais jovens, Onguene continua exercendo um papel decisivo dentro do elenco. Sua presença representa experiência em um grupo que mistura juventude e rodagem internacional, algo cada vez mais valorizado em torneios curtos.

Legado além dos recordes
No futebol africano, poucos nomes conseguiram permanecer relevantes por tanto tempo quanto Gabrielle Aboudi Onguene. A oitava participação na Copa Africana não é apenas um recorde estatístico, mas a consequência de uma carreira construída com regularidade, capacidade de adaptação e desempenho em alto nível durante quase 20 anos.

Enquanto Camarões busca mais uma campanha de destaque e sonha com uma vaga na Copa do Mundo de 2027 no Brasil, sua capitã segue ampliando um legado raro. Afinal, mais do que disputar oito edições do principal torneio do continente, Onguene ajudou a transformar a própria história da seleção camaronesa e tornou-se uma das maiores personagens que o futebol feminino africano já produziu.
Copa Africana das Nações Feminina 2026
3ª rodada – Fase de Grupos
06/08 – 17h – Cabo Verde x Camarões (Estádio Larbi Zaouli, Casablanca, Marrocos)
