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Gramado do Maracanã aguenta NFL? Entenda problemas por trás do campo

Maracanã receberá Cowboys e Ravens neste domingo (27), às 17h25 (de Brasília)
Maracanã receberá Cowboys e Ravens neste domingo (27), às 17h25 (de Brasília) MARLON COSTA / AGIF / AGIF VIA AFP

O Maracanã está acostumado a receber alguns dos jogos mais importantes da história do futebol. Já foi palco de decisões de Copa do Mundo, finais de Libertadores e partidas de Flamengo e Fluminense praticamente durante todo o ano. No domingo (27), porém, o estádio terá de responder a uma pergunta diferente: o seu gramado está preparado para receber um jogo da NFL?

A partida entre Dallas Cowboys e Baltimore Ravens, pela terceira rodada da temporada regular, será a primeira da liga no Rio de Janeiro. E o campo se tornou um dos assuntos da semana que antecede o confronto. 

Acompanhe Dallas Cowboys x Baltimore Ravens ao vivo no Flashscore

Não por causa de uma ameaça de cancelamento. A NFL manteve a partida, e Nick Pappas, diretor de gramados da liga, disse estar confiante de que a superfície estará em boas condições no domingo. Segundo ele, a NFL também montou um plano para minimizar os efeitos das condições climáticas recentes.

A questão é outra: por que um gramado que tantas vezes gera preocupação no futebol brasileiro pode oferecer condições adequadas para uma partida da NFL? A resposta passa pelas características das duas modalidades, pelo tipo de exigência imposto ao campo e pela forma como a liga norte-americana prepara e monitora a superfície para seus jogos.

Confira a tabela da NFL no Flashscore

1. O Maracanã recebe muitos jogos e quase não tem descanso

O primeiro ponto é o volume de utilização. O Maracanã é administrado pelo consórcio formado por Flamengo e Fluminense e tem uma rotina muito diferente da de um estádio convencional da NFL. A administração prevê mais de 70 partidas no estádio ao longo de 2026. Até setembro, já eram 58 jogos. 

O próprio CEO do Maracanã, Fred Nantes, argumentou que a comparação com outros estádios precisa levar em conta essa diferença de utilização. O estádio chega a receber partidas com intervalo curto entre elas, enquanto arenas de futebol americano normalmente têm uma quantidade muito menor de jogos de suas equipes principais.

As franquias da NFL realizam uma média de oito partidas em casa por temporada regular. E a janela da competição compreende de agosto ao início de fevereiro, quando acontece o Super Bowl. Ou seja, é um curto espaço de tempo tendo em vista a monstruosidade das datas do calendário do futebol brasileiro. 

No Maracanã, portanto, o gramado não precisa apenas estar em condições para um evento isolado. Ele precisa sobreviver a uma temporada inteira de futebol.

Flamengo e Bragantino disputaram o último jogo do Maracanã antes do NFL Rio Game
Flamengo e Bragantino disputaram o último jogo do Maracanã antes do NFL Rio GameVictor Guida / Maracanã

2. A bola oval e a bola redonda não exigem exatamente a mesma coisa

Existe uma aparente contradição nas críticas. Jogadores de futebol têm reclamado de buracos, irregularidades e dificuldade para controlar a bola no Maracanã. Agustín Rossi e Arrascaeta, do Flamengo, foram alguns dos atletas que criticaram publicamente as condições do campo nas últimas semanas. 

Para a NFL, porém, alguns desses problemas são avaliados de outra maneira. Nick Pappas explicou que o futebol americano e o futebol têm características diferentes e que a bola da NFL passa menos tempo em contato com o gramado. Isso não significa que os organizadores e administradores das franquias aceitem um campo ruim. Muito pelo contrário.

A liga precisa de uma superfície segura e consistente para atletas que correm, freiam, mudam de direção e sofrem impactos em alta velocidade. Por isso, a preocupação não desaparece, ela apenas envolve critérios diferentes daqueles observados por um jogador de futebol ao avaliar a qualidade do gramado.

3. O problema não é apenas a quantidade de jogos: é quando eles acontecem

O calendário de 2026 criou uma combinação particularmente complicada para o Maracanã. O estádio atravessou semanas de chuvas intensas, justamente em um período no qual a recuperação do gramado já era dificultada pela quantidade de partidas.

Dados apresentados pela administração indicaram aumento da proporção de jogos disputados sob chuva ou até 24 horas depois de uma precipitação: de 20% em 2025 para 46% em 2026. 

A umidade interfere diretamente na capacidade de manutenção e recuperação da grama. A incidência de sol também exerce influência importante nesse processo. A administração do estádio e os responsáveis pelo campo já apontaram que o inverno traz condições menos favoráveis ao desenvolvimento da chamada “Bermuda Celebration”, utilizada no Maracanã desde a Copa do Mundo de 2014, principalmente por questões relacionadas à sombra, à temperatura e à recuperação da vegetação.

Ou seja: não é simplesmente uma questão de "o Maracanã recebe muitos jogos". São muitos jogos, pouco intervalo, chuva, umidade e condições de crescimento menos favoráveis ao gramado.

4. A própria grama será trocada

Talvez esse seja o principal indicativo de que existe, de fato, um problema estrutural a ser resolvido. O Maracanã anunciou que trocará, ao final do Brasileirão, a atual Bermuda Celebration pela Celebration Hybrid. A nova variedade é apontada como mais resistente e com capacidade de recuperação mais rápida, além de maior tolerância a frio, seca e sombra. 

A mudança, portanto, não foi provocada exclusivamente pela chegada da NFL. O problema já existia no futebol brasileiro e se tornou mais evidente em 2026. Jogadores e treinadores vinham criticando o campo antes mesmo da transformação do Maracanã para receber Cowboys e Ravens. A NFL apenas chega em um momento particularmente delicado.

5. E o que a NFL está fazendo com o campo?

A liga assumiu a operação do Maracanã depois do jogo entre Flamengo e Red Bull Bragantino, realizado em 20 de setembro.

Desde então, uma equipe da NFL trabalha na preparação do estádio para a partida. A liga levou inclusive uma lona para proteger o gramado e planejou intervenções específicas para transformar o campo de futebol em uma superfície adequada ao futebol americano. 

A adaptação não se resume às linhas. O Maracanã precisou receber mudanças de estrutura, vestiários e áreas de apoio, além da instalação das traves e da preparação do campo para as dimensões e áreas de segurança exigidas pela NFL.

O diretor de operações da liga, Stephen Farago, explicou que uma área de escape maior foi necessária para atender às especificações do futebol americano. O campo, portanto, está passando por uma espécie de operação de transformação.

6. A NFL está preocupada ou não?

Aqui está a parte mais curiosa da história. Apesar de toda a repercussão das condições do gramado no Brasil, a NFL não trata atualmente o campo como um motivo para mudar o jogo de lugar.

Nick Pappas afirmou que não tinha suspeitas de que a partida não fosse realizada no Maracanã. A liga também declarou que possui um plano para garantir uma superfície adequada.

Do lado dos Cowboys, Stephen Jones, coproprietário, vice-presidente executivo, CEO e diretor de pessoal de jogadores da franquia texana, também afirmou que não estava preocupado porque a liga havia sinalizado que toda a preparação para o jogo estava acelerada. 

Isso não significa que o gramado esteja perfeito. Significa que a NFL entende que consegue trabalhar sobre as condições atuais e entregar uma superfície segura para o jogo.

7. O estranho é justamente a diferença de perspectiva

Para quem acompanha o futebol brasileiro, olhar para o gramado do Maracanã e ouvir reclamações de jogadores é suficiente para concluir que existe um problema.

Para a NFL, a análise é mais específica. A liga sabe que está chegando a um estádio extremamente utilizado, em um período de chuvas acima do habitual, com um gramado natural que já vinha sendo questionado. Ao mesmo tempo, tem uma equipe especializada, dias de preparação e critérios próprios para determinar se a superfície está apta para receber a partida.

Por isso, o gramado do Maracanã é menos uma história sobre "NFL contra Maracanã" e mais uma história sobre dois modelos esportivos que precisam se encontrar em um mesmo campo.

De um lado, um estádio que pode receber mais de 70 partidas em um ano e que precisa atender às necessidades de Flamengo, Fluminense e outras competições. Do outro, uma liga que chega ao Rio com uma operação própria e exige uma superfície adequada para atletas que praticam outro esporte.

O resultado dessa experiência será conhecido no domingo, às 17h25 (de Brasília), e o Flashscore estará lá para acompanhar tudo de perto. 

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