Dizem que a ausência faz o coração sentir saudade, e acho que é verdade, porque eu realmente estava ansioso pelo Grande Prêmio de Miami este ano.
Mesmo com o traçado sendo um dos menos empolgantes e o cenário sendo literalmente um estacionamento, talvez seja minha corrida menos favorita do calendário, mas depois de uma pausa de um mês, que trouxe mudanças em regulamentos polêmicos e várias equipes preparando atualizações importantes para seus carros, eu não via a hora da ação começar.
No geral, a corrida correspondeu às expectativas. As mudanças no regulamento deixaram as disputas menos artificiais, diminuindo a importância da gestão de energia, e as atualizações proporcionaram uma briga entre quatro equipes na ponta durante boa parte do fim de semana.
Antonelli está colocando Russell contra a parede
A grande manchete ao final da passagem da Fórmula 1 pela Flórida foi que Kimi Antonelli conquistou a terceira pole position seguida, a terceira vitória consecutiva e abriu 20 pontos de vantagem na liderança do Mundial. Pouca gente acreditaria se alguém dissesse que as coisas aconteceriam assim depois da primeira etapa da temporada, principalmente George Russell.
2026 era para ser o ano de Russell. O ano em que ele provaria para todo mundo o que sempre teve certeza: que está no mesmo nível de Max Verstappen como um dos melhores da Fórmula 1. Só que, com apenas quatro corridas, ele está sendo completamente ofuscado pelo adolescente do outro lado da garagem.
A sorte não esteve ao lado dele na China e no Japão, mas Antonelli venceu em Miami totalmente por mérito, e com boa vantagem. Enquanto o italiano liderou tanto o treino classificatório quanto a corrida, o britânico não conseguiu terminar entre os três primeiros em nenhuma das duas, sem ter azar para justificar. Simplesmente não foi rápido o suficiente.
Ele minimizou o desempenho ruim, dizendo que o circuito de Miami sempre foi um desafio para ele, mas venceu Antonelli tanto na sprint quanto na corrida principal no ano passado, então é difícil negar que a diferença entre ele e o companheiro diminuiu bastante.
Com 28 anos, Russell ainda tem tempo para retomar o controle, assim como Lando Norris fez em situação parecida com Oscar Piastri na temporada passada, mas superar um companheiro mais jovem, sem o peso das expectativas, é um desafio novo que não imaginava enfrentar neste ano. A busca pelo título mundial em 2026 já está se mostrando mais difícil do que ele esperava.
McLaren acerta nas atualizações mais uma vez
A missão de Russell vai ficar ainda mais complicada porque a McLaren parece estar repetindo a receita que a levou ao topo do grid: acertando em cheio no desenvolvimento durante a temporada.
Os atuais campeões estavam em penúltimo lugar após três etapas em 2023, mas graças às atualizações, terminaram o ano com nove pódios. Começaram 2024 bem atrás de Red Bull e Ferrari, mas, novamente com atualizações, fecharam a temporada como campeões de construtores. Agora, tudo indica que vão repetir a ascensão em 2026.
O carro teve problemas de desempenho e confiabilidade nas duas primeiras etapas, com Piastri sem conseguir largar em nenhuma delas e Norris terminando a única que disputou bem distante dos líderes, em quinto, quase um minuto atrás do vencedor. Menos de dois meses depois, em Miami, terminaram em 1º e 2º na sprint, e em 2º e 3º na corrida principal.
O carro mostrou evolução até em relação à 3ª etapa, no Japão, mesmo não ficando longe da vitória por lá, já que liderou parte da prova. Não há dúvidas de que as atualizações feitas na última semana melhoraram muito o desempenho, a ponto de agora parecerem mais rápidos que a Ferrari.
Mais novidades estão previstas para a próxima etapa, em Montreal, e se o histórico servir de referência, Norris e Piastri podem entrar de vez na briga pelo título.
Alpine vira alvo no mercado
Mais atrás no grid em Miami, a Alpine deixou ainda mais claro que é o time mais forte do pelotão intermediário em 2026, justamente quando está atraindo interesse de grandes nomes da Fórmula 1.
Há tempos se fala sobre a possibilidade de outro grupo comprar uma fatia importante do time da Renault, e tanto o chefe da Mercedes, Toto Wolff, quanto o ex-chefe da Red Bull, Christian Horner, estão interessados em fazer esse movimento. Depois do desempenho em Miami, esse interesse só deve aumentar.
Como sempre, Pierre Gasly tirou o máximo do carro, mas Franco Colapinto também conseguiu, e o resultado foi os dois pilotos chegando ao Q3 tanto na sprint quanto na corrida principal, ambos pontuando na sprint e Colapinto somando seis pontos no domingo. Assim, ocupam o 5º lugar no campeonato, apenas sete pontos atrás da Red Bull.
Já estiveram nessa posição antes, mas sempre foram prejudicados pelo motor Renault, que nunca foi rápido ou confiável o suficiente para permitir que realmente brigassem com os líderes. Agora, isso mudou: a montadora francesa deixou de fornecer motores e o time passou a usar a melhor unidade de potência do grid, da Mercedes.
Somando a experiência e os recursos disponíveis na base de Enstone – presente na F1 desde 1981 – e o fato de que, se terminarem o ano entre os cinco primeiros, estarão bem financeiramente, fica fácil entender por que Wolff quer transformar a equipe em uma espécie de filial da Mercedes e por que Horner gostaria de assumir um papel de liderança na operação.

