Maniche afirmou que seu ex-treinador terá sucesso no possível retorno ao Real Madrid, abriu o jogo sobre sua fracassada passagem prelo Chelsea e sobre o momento atual da seleção portuguesa.
Confira a entrevista:
• Você é um dos poucos jogadores que tiveram o privilégio de atuar por Benfica, Porto e Sporting. Olhando para trás, o que significou para você jogar em cada um desses clubes?
Acima de tudo, foi motivo de orgulho e um privilégio representar os três maiores clubes de Portugal. Cada um tem sua própria história, tamanho, cultura e DNA, e vivi contextos completamente diferentes em cada um deles.
"No Benfica, foi onde cresci e fiz toda minha formação de base. Foi o clube que me deu a base para tudo que conquistei depois. Houve um período mais turbulento no final, é verdade, mas estive lá desde os nove anos até me tornar capitão do time principal. Então, tenho um respeito enorme por essa instituição.
"Depois veio o Porto, fruto das circunstâncias e das mudanças que o futebol inevitavelmente traz. E foi lá que vivi o auge da minha carreira. No Porto, você encontra o que tanto se fala de mística. É algo difícil de explicar, porque você sente mais do que consegue descrever. Foi no FC Porto que conquistei os títulos mais importantes da minha carreira: a Copa da UEFA, a Champions League, a Copa Intercontinental e, claro, vários títulos nacionais. Só posso ser grato por terem me recebido em um momento difícil. O Porto representa tudo que sonhei em alcançar como jogador.

O que fazia aquele grupo de Mourinho no Porto tão especial?
A mentalidade. O comprometimento. A vontade. A ambição de vencer. Éramos todos jogadores ambiciosos que ainda não tinham conquistado nada de relevante. O próprio José Mourinho estava começando a carreira como técnico. Havia uma fome enorme de vencer. E também muita qualidade. Basta ver o que aconteceu depois: praticamente todos os jogadores foram para grandes clubes europeus. Mas não basta só juntar qualidade.
É preciso construir um grupo forte. Em todo vestiário existem egos que podem prejudicar o coletivo, mas naquele grupo isso nunca aconteceu. Os jogadores menos utilizados tinham o mesmo comprometimento dos titulares e, quando eram chamados, davam conta do recado. Criamos uma família. Abraçamos a mentalidade do clube, da cidade e da torcida. Isso fez a diferença.

• Mourinho volta a ser especulado no Real Madrid. Você acha que ele seria o nome certo para o clube neste momento?
É difícil recusar um clube como o Real Madrid. Esse interesse não me surpreende. Existe uma relação forte entre Florentino Pérez e José Mourinho. Quando Mourinho chegou ao Real Madrid, o Barcelona dominava o futebol europeu e ele conseguiu tornar o clube competitivo novamente. Mas não é só isso. José Mourinho continua sendo um técnico extremamente competente e muito direto. Ele consegue trazer os jogadores para o lado dele. E esse interesse não é por acaso. Existe uma narrativa de que ele parou de vencer ou não se adaptou ao futebol moderno, mas discordo totalmente.
Mourinho é um treinador de projetos. Basta olhar o histórico dele. No FC Porto, Chelsea, Inter de Milão, Real Madrid, Manchester United ou Roma, ele sempre chegou em situações desafiadoras e conseguiu montar times competitivos e conquistar vários títulos. Os únicos lugares onde não venceu foram o Tottenham e o Fenerbahçe. Ele tem coragem para encarar desafios difíceis, gosta de se testar e segue sendo uma referência mundial em liderança de grupo. Tem toda capacidade para trazer títulos ao Real Madrid.
• Sua passagem pelo Chelsea não foi como você esperava. O que aconteceu?
Não gosto de arrumar desculpas e não me sinto um campeão completo. A responsabilidade é sempre minha, seja quando as coisas dão certo ou errado. Quando cheguei ao Chelsea, vinha de uma cirurgia no púbis e não estava cem por cento fisicamente. Além disso, encontrei jogadores como Lampard, Essien, Makelélé e Gudjohnsen no auge da carreira.
Chegar em um time desse tamanho, no meio da temporada, sem estar na melhor forma física, tornou tudo mais difícil. Não deu certo como eu gostaria, mas tenho muito orgulho de ter representado um dos maiores clubes do mundo.
• O que o Chelsea atual precisa para voltar a ser dominante?
Estabilidade. O Chelsea viveu muitos anos em um ciclo de mudanças constantes: jogadores, técnicos, diretores. É difícil criar uma identidade quando tudo muda tão rápido. Bons jogadores e bons técnicos ainda estão lá, mas o que falta é continuidade e um pouco de tranquilidade. Eles precisam de um projeto sólido que permita construir um time ao longo de vários anos. Sem estabilidade, é muito difícil alcançar sucesso consistente.

• Cristiano Ronaldo está se preparando para disputar mais uma Copa do Mundo. Qual deve ser o papel dele nesse time?
Para mim, o Cristiano Ronaldo tem que jogar. Enquanto ele tiver vontade e ambição de representar a seleção, deve continuar fazendo isso. Ele é um jogador único. É verdade que já não tem o mesmo vigor físico de 20 anos atrás, mas ainda obriga os adversários a ficarem atentos o tempo todo e cria espaço para os companheiros. Temos que respeitar, e acho que muitas vezes falta honestidade intelectual quando falam dele. Ele segue sendo uma referência e ainda é importante para a seleção. Não vejo outro atacante melhor do que ele. Depois, cabe ao técnico gerir o time da melhor forma.
• Além do Cristiano, qual jogador da seleção você mais gosta de ver jogar?
Temos um dos melhores goleiros do mundo, Diogo Costa. Temos dois laterais fantásticos, o Cancelo e o Nuno Mendes. Depois, temos um meio-campo extraordinário com Vitinha, Joao Neves e Bruno Fernandes. Mas se eu tivesse que escolher um para jogar ao meu lado, seria o Vitinha. Joguei no meio-campo e adoro ver jogadores com essa qualidade.

• Portugal tem hoje o melhor meio-campo do mundo?
Eu diria que está entre os melhores do mundo. Mas jogar em clubes é uma coisa, jogar na seleção é outra. Tudo depende de como o técnico consegue tirar o melhor dos jogadores. Na minha opinião, com jogadores desse nível, não adianta complicar. Tem que deixar jogar, se divertir e mostrar o que fazem toda semana nos clubes. Acredito que Portugal pode fazer uma grande Copa do Mundo.
• O que seria uma Copa do Mundo excelente para Portugal?
Portugal é favorito, mas não é o principal candidato. Ainda coloco à frente seleções que já ganharam a Copa, como Brasil, Argentina, França, Espanha ou Alemanha. Mesmo assim, temos qualidade para sonhar. Se você me perguntar o que seria uma Copa excelente, eu diria repetir o que fizemos em 2006: chegar à semifinal.
Acompanhe a estreia de Portugal na Copa do Mundo com o Flashscore
