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Exclusivo: Petr Cech, ex-Chelsea, explica fracassos de Tuchel e da Rep. Tcheca na Copa

Cech visitando os escritórios do Flashscore em Praga
Cech visitando os escritórios do Flashscore em PragaFlashscore

O ex-goleiro do Chelsea e da República Tcheca, Petr Cech, falou com exclusividade ao Flashscore sobre a estratégia de Thomas Tuchel contra a Argentina e a campanha decepcionante da seleção tcheca na Copa.

Confira a entrevista com Cech, que disputou o Mundial de 2006:

• Flashscore: Você o conhece bem o Thomas Tuchel de seu tempo no Chelsea. A estratégia suicida dele contra a Argentina te surpreendeu?

Petr Cech: Com certeza ele não queria aquele estilo de jogo. Harry Kane mesmo admitiu que as instruções do banco eram: 'Vocês têm que continuar jogando, manter a atividade e buscar o segundo gol.' Mas o time não conseguiu. O treinador depois explicou que, quando o time não conseguiu sair da pressão, ele colocou mais um defensor, porque a Argentina estava jogando com quatro atacantes. 

Ele queria jogar com cinco atrás para ter vantagem defensiva. Mas não conseguiram avançar da segunda linha nem pressionar a bola e, no fim, isso acabou com eles.

Parece estranho quando um time como a Inglaterra se deixa ser pressionado daquele jeito. Por outro lado, acho que os jogadores não conseguiram lidar com o peso do momento e a reta final da partida escapou das mãos deles. Quando entraram naquele ciclo em que não conseguiam segurar a bola, isso sufocou completamente o time.

Tuchel foi detonado por sua postura contra a Argentina
Tuchel foi detonado por sua postura contra a ArgentinaReuters

• A República Tcheca chegou à Copa do Mundo pela 2ª vez na história, e havia um clima ótimo durante a repescagem. O que deu errado no Mundial?

Pode ser resultado de uma rotina mal planejada. Você fica isolado em um lugar por muito tempo com trinta pessoas e a comissão técnica. É preciso descansar a mente. Se você tem um regime que não permite desligar, e só fica entediado, preso no quarto, isso pesa muito. Outro fator é a possibilidade de exagerar na preparação nos treinos.

Preparar para um torneio é uma alquimia. Cada jogador chega em um estado de espírito diferente. Um ganhou um título e está empolgado, outro foi rebaixado, e outro está voltando de lesão.

Um jogou 50 partidas, outro cinco. O método 'tamanho único' não funciona aqui. Às vezes é preciso uma abordagem individual e uma distribuição cuidadosa da carga de trabalho. O trabalho dos treinadores é muito difícil nesse aspecto; envolve psicologia e gestão de pessoas. Nessa fase, não dá para treinar nada novo ou ensinar algo diferente.

O time precisa ter regras claras, um esquema tático definido, e os jogadores precisam saber exatamente o que se espera deles em campo. O objetivo é que entrem na partida no melhor estado mental possível. Se essa alquimia não dá certo, pode acabar mal.

Os jogadores têm seus hábitos nos clubes, mas a seleção é algo completamente diferente. Às vezes, a preparação é exagerada pelo excesso de vontade, porque todo mundo está animado, e depois de uma semana, o time já está cansado. Pela minha experiência, sei que só existem três possibilidades nessa situação: ou os jogadores estavam cansados mental e fisicamente, ou o ambiente não favoreceu e bateu o tédio, ou foi uma combinação de tudo junto.

Quando você convive com as pessoas vinte e quatro horas por dia, precisa de um bom ambiente e também de espaço para si mesmo, para poder descansar. Rotina e liberdade são fundamentais. Nenhum jogador encara um jogo de Copa do Mundo de qualquer jeito, mas se a preparação não funciona, isso custa resultados melhores ao time.

• Como torcedor, você ficou decepcionado com a decisão de Patrik Schick de se aposentar da seleção?

Fico mais triste porque, quando temos um dos melhores artilheiros da Bundesliga, acontece uma decisão dessas. Ultimamente, tem se debatido demais sobre o papel dele na seleção, se deveria jogar ou não. Me surpreende que não tenham encontrado uma forma de aproveitar todo o potencial dele, para que marcasse gols como faz no clube. Cada time e esquema tático é específico, mas se você tem um jogador desse nível, precisa encontrar um jeito de tirar o máximo dele.

• O caminho para um técnico estrangeiro na seleção tcheca está se desenhando. O que você acha disso? É uma decisão conceitual ou só uma reação ao momento?

A ideia de um técnico estrangeiro não me incomoda em nada. Os treinadores da República Tcheca que poderiam ser considerados têm contratos em vigor nos clubes, onde estão indo bem, e não acho que sairiam para a seleção neste momento da carreira. Mas, se quisermos um técnico estrangeiro, não pode ser só porque ele tem passaporte de fora. Tem que ser alguém que queira realmente fazer um bom trabalho aqui e tenha fome de sucesso.

Acima de tudo, ele precisa entender a diferença entre trabalhar em clube e em seleção, que são profissões bem diferentes. No clube, você tem os jogadores todos os dias, constrói os hábitos deles em cada treino e tudo é mais fácil.

Na seleção, você recebe jogadores com cargas e hábitos diferentes dos clubes. Lá, não dá mais para treinar nada novo. É questão de liderar pessoas, estabelecer regras claras e um sistema tático, para que todos saibam o que fazer. A principal tarefa do técnico é preparar os jogadores para entrarem em campo na melhor condição possível. Se ele conseguir isso, não faz diferença nenhuma o passaporte que tem. Ele precisa entender a mentalidade das pessoas e como funciona o nosso futebol.

• Você não pensa em se envolver na liderança do futebol tcheco ou do esporte no futuro?

Tenho muitas ideias, e vejo a solução em investir nos treinadores, criar um sistema claro e apoiar o esporte escolar. Alguém pode dizer que é fácil falar, mas não tenho poder para mudar essas coisas sozinho, sem a cooperação dos clubes, do Estado e dos ministérios.

Muitas vezes me perguntam por que não faço isso eu mesmo. Respondo que moro fora, e não dá para fazer esse tipo de trabalho à distância, pelo telefone. É preciso estar presente, conversar com as pessoas. Tomar decisões de um escritório, sem conhecer a situação real, muitas vezes faz mais mal do que bem. Enquanto não puder passar a maior parte do tempo na República Tcheca, não posso me envolver. Mas isso não me impede de ter uma opinião clara sobre o assunto.

• Quem você acha que vai vencer a final da Copa do Mundo entre Espanha e Argentina?

Pessoalmente, acho que a Espanha vai conseguir fazer o trabalho. Mas quando assisti à última meia hora da semifinal entre a Argentina e Inglaterra ontem, preciso dizer que a Argentina fez uma atuação fenomenal. Acredito que esse tipo de desempenho, e essa virada em uma semifinal de Copa do Mundo, realmente fez o sangue deles ferver. 

Então, certamente vão para a final com muita confiança. Outro ponto é que são os atuais campeões mundiais e têm a experiência de saber o que é preciso para vencer o torneio, o que pode ajudar na final. Por isso, vejo como 50/50. Mas se a Espanha repetir a atuação da semifinal contra a França, acho que deve vencer.