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Exclusivo: Sylvinho revela como foi dirigir a Albânia e diz que quer trabalhar na Europa

Sylvinho comandou a Albânia até meio de 2026
Sylvinho comandou a Albânia até meio de 2026Meng Dingbo / Xinhua News / Profimedia

Ex-lateral do Corinthians, Arsenal e Barcelona, Sylvinho deixou o comando da seleção da Albânia em maio de 2026, após três anos e meio e uma histórica classificação para a Euro 2024.

Nesta segunda parte da entrevista exclusiva ao Flashscore, o técnico brasileiro explica como conquistou um vestiário em um país cuja língua não falava, e conta que pode voltar a trabalhar no Brasil, mas prefere assumir algum time europeu.

Confira aqui a parte 1 da entrevista com Sylvinho

• Depois de tanto tempo em uma seleção, você se vê voltando ao futebol de clubes? Qual é o plano para o próximo capítulo?

Técnica e pessoalmente, sinto que estou muito preparado para o próximo passo. Tenho um brasileiro, um argentino, um italiano e outras nacionalidades na minha comissão, então formamos um grupo muito internacional. Com os idiomas que falamos, podemos trabalhar em Portugal, na Espanha, na Inglaterra, em muitos outros países europeus, na América do Sul, nos Estados Unidos e em outros lugares.

Estou tranquilo, porque sei que aprendemos com tudo o que vivemos. Ainda sou jovem e há muitas coisas que ainda preciso aprender, mas a vida já me deu muito. Então me sinto preparado para trabalhar na Europa, no mundo árabe, no Brasil ou até no Japão. É claro que a Europa é a prioridade. É a meca do futebol, onde o jogo continua se desenvolvendo no mais alto nível.

Agora é esperar o momento certo. A oportunidade ideal vai aparecer. É um pouco como a vida. Você pode se preparar, mas também precisa esperar o momento certo.

Então, sim, sinto que estou muito preparado para um clube que tenha um projeto claro, queira se desenvolver, queira construir algo e tenha as condições para fazer isso. E gostaria de fazer isso na Europa.

• Flashscore: Você chegou ao Manchester City como jogador pouco antes de o clube se tornar uma grande potência. O que você se lembra daquela época e imaginava o que o City se tornaria?

É algo em que penso muito na vida. Estamos mais velhos agora e começamos a entender que um projeto sério não acontece em dois, três ou quatro anos. Leva tempo. E não era simplesmente uma questão de dinheiro. Eles estavam fazendo algo extraordinário, construindo algo em um nível muito alto.

Quando cheguei, foi porque Mark Hughes me convidou. A ideia era começar algo novo, e certamente eu não imaginava que se tornaria tão grande. Eles precisavam de pessoas experientes, que tivessem conquistado títulos e uma mentalidade vencedora. Então fui para lá.

O time estava crescendo e se adaptando, com jogadores locais, novos jogadores chegando e outra estrela sendo contratada. Depois, perto do fim de dezembro, os resultados não eram dos melhores, e foi quando Roberto Mancini chegou. Desenvolvemos uma amizade muito boa.

Duas ou três vezes por mês, ele me chamava ao escritório e dizia: 'Sylvio, o que está acontecendo? Por que está assim?'. Eu contava o que estava vendo com os jogadores. Lembro que estava muito frio e ele queria fazer dois treinos, então eu disse: 'Olha, as pessoas estão bravas. Está fazendo menos de dois graus!'

Terminamos aquela temporada em quinto, e o Tottenham ficou com a vaga na Champions League à nossa frente. Mas eu já conseguia ver que o projeto era sério. Depois, o tempo passou e Roberto conquistou a Premier League. Foi um sonho realizado. Os jogadores evoluíram, depois veio Pellegrini, se não me engano, e o clube continuou crescendo até Pep chegar.

Não era um projeto de três ou quatro anos em que, se você não ganhasse, simplesmente voltaria ao começo. Era algo muito mais sério, e eu percebi isso. É claro que a velocidade com que aconteceu foi outra questão. Na verdade, quando eu ainda estava no City com Roberto, por volta de abril ou maio daquela temporada, ele de repente me disse: 'Sylvio, e agora? Preciso contratar jogadores. Você não quer trabalhar comigo?'

Naquela época, eu já estava longe de casa havia tantos anos que pensava: 'Não sei. Talvez eu vá morar em Barcelona ou São Paulo. Meus pais estão lá. O tempo está passando'. Mas ele me entendeu perfeitamente. Não levou para o lado pessoal. Simplesmente disse: 'Ei, Sylvio, eu entendo você'.

Depois de uma carreira de 20 anos viajando pelo mundo, você começa a pensar onde quer morar, na sua esposa, nos seus filhos, nos seus pais. Em 2014, ele finalmente me chamou para trabalhar com ele na Inter de Milão.

Sylvinho trabalhando ao lado de Roberto Mancini na Inter.
Sylvinho trabalhando ao lado de Roberto Mancini na Inter.Maurizio Borsari / AFLO / Profimedia

• O que você aprendeu com Mancini sobre comandar um time?

Roberto é uma pessoa muito especial. É técnico, vencedor e alguém com grande dignidade e nobreza. Ele pode ficar bravo e sempre esteve sob muita pressão e atenção, mas, por trás disso, é uma pessoa muito nobre. Ele sempre cuida dos jogadores.

Por exemplo, ele podia discutir com um jogador durante o treino. Eles podiam discordar ou até ter um confronto, mas eu sabia que, na próxima vez que entrasse no vestiário, Roberto diria: 'Preciso de você'. E o jogador responderia: 'Tudo bem'. Ele podia discutir novamente com ele, mas no domingo ainda o colocaria no time, porque sabia que o jogador tinha qualidade suficiente. Esse era Roberto. Ele entendia muito bem seus times.

Ele também era muito bom em desenvolver jogadores jovens. Dizia: 'Esse jogador se encaixa. Esse jogador me oferece algo'. Talvez o jogador não estivesse oferecendo muito naquele momento, mas, três ou quatro meses depois, Roberto dizia: 'Agora ele oferece. Lembro do que você fez três meses atrás'.

Ele entendia que os jogadores têm personalidades diferentes, e você sentia a presença dele no vestiário.

Como técnicos, sempre dizemos que podemos aprender algo com todos com quem trabalhamos. Posso aprender algo com Arsene Wenger, Pep Guardiola, Frank Rijkaard ou Mancini. Mas, no fim das contas, sou Sylvinho, e autenticidade é autenticidade. Do Roberto, absorvo muito do que você vê no vestiário: a presença dele, a personalidade e a maneira como comanda os jogadores.

• Seu primeiro trabalho como técnico foi no Lyon, quando você também recebeu uma proposta da seleção brasileira sub-23. Alguma vez pensa que deveria ter escolhido a outra opção?

Sete anos depois, você me pergunta: você se arrependeu? Está me deixando louco! Mas vou responder: sim e não. O tempo passa, e o tempo é algo bonito. Muitas vezes, não gostamos do momento que estamos vivendo, mas, como técnico agora, entendo que os momentos difíceis também nos ensinam alguma coisa. Como jogador, você pode se machucar e não quer isso, mas entende que faz parte da vida. O tempo nos dá coisas e também nos ajuda a cicatrizar.

É verdade que o Lyon não foi a melhor experiência do mundo para mim. Mas não foi por causa do clube. O clube era excelente, e as pessoas de lá eram muito sérias e extraordinárias. Volto ao mesmo ponto: tudo precisa funcionar desde o topo da organização até o último jogador. Como técnicos, nem sempre é fácil encontrar o ambiente certo.

Sylvinho e Juninho trabalharam juntos no Lyon.
Sylvinho e Juninho trabalharam juntos no Lyon.Delmarty/ANDBZ/ABACA / Abaca Press / Profimedia

Veja nosso trabalho na Albânia. O presidente, Armando Duka, que também trabalha com a UEFA, foi muito claro quando nos chamou: 'Esta é a ideia. Queremos que vocês venham para cá e queremos o melhor de vocês, porque sei que podem fazer isso'. E nós dissemos: 'Perfeito, vamos lá'.

Jogamos a Euro em 2024 e terminamos em primeiro no nosso grupo das eliminatórias, à frente da Polônia e da República Tcheca. Depois, na campanha seguinte das eliminatórias, terminamos em segundo, atrás da Inglaterra, com a Sérvia também brigando pela segunda posição, e acabamos disputando uma repescagem contra a Polônia. Perdemos e ficamos fora da Copa do Mundo.

Mas, voltando à sua pergunta, não, não me arrependo da decisão. Um clube, uma cidade, um país, a Ligue 1, tudo isso é bonito. A expectativa é sempre fazer cada vez melhor. Mas, novamente, volto ao tempo. O tempo me ajudou a digerir tudo e entender muitas coisas.

Às vezes, você toma um bom café com alguém e essa pessoa diz: 'Ei, isso vai durar a vida inteira'. E eu respondo: 'Calma. Vamos ver se vai durar a vida inteira. Vamos tomar um segundo café e depois um terceiro'. Isso é a vida.

Fiquei muito feliz com a experiência, mesmo tendo sido difícil. E também é verdade que havia um projeto com a seleção brasileira sub-23.

• A Albânia foi a melhor experiência da sua carreira como técnico até agora?

Sim. Trabalhei na Copa do Mundo com o Brasil, mas era auxiliar. Foi uma experiência muito boa, mas é claro que eu não tinha tudo nas mãos. Na Albânia, todo o projeto e toda a responsabilidade eram meus. E a classificação foi especial. Perdemos para a Polônia no primeiro jogo e depois não perdemos mais.

Fomos muito fortes. Na verdade, os times que precisavam jogar contra nós não gostavam nem um pouco. Eles nos consideravam muito organizados, muito bons e muito difíceis de enfrentar. Sabíamos exatamente o que precisávamos fazer em campo. E, na Europa, depois da Copa do Mundo, acredito que a Euro seja o maior palco. É onde você quer estar.

Infelizmente, ou talvez felizmente, acabamos em um grupo muito difícil com Croácia, Espanha e Itália. Mas aproveitamos a experiência. Dissemos: 'Pessoal, vamos nessa'. Fizemos nosso melhor jogo contra a Croácia. Era uma partida que sentíamos que precisávamos vencer. Contra a Itália, não fomos tão bem. E então veio a Espanha. A experiência foi enorme e muito bonita ao mesmo tempo.

• Você era um brasileiro comandando uma seleção que não era a sua. Como criou conexão com os jogadores albaneses e fez com que acreditassem nas suas ideias?

Os jogadores constroem o trabalho e, no fim, tornam possível tudo o que estamos tentando fazer. Como técnico, e também como alguém que teve uma longa carreira como jogador, sei que, se um técnico diz: 'Você tem que fazer isso, isso e isso', mas você não vê aquilo acontecendo em campo, começa a pensar: 'Bom, vamos ver'. Mas, se o técnico lhe dá uma ideia e você entra em campo, cria duas chances e quase marca dois gols, começa a acreditar. Você diz: 'Tudo bem, talvez isso realmente funcione'.

Esse é o nosso trabalho como técnicos. Uma parte enorme do trabalho acontece nos bastidores. Você pode começar às seis, sete ou oito da manhã e trabalhar até as seis, sete ou oito da noite. Se houver um jogo às 20h30, pode estar trabalhando até as 22h30. Depois, precisa assistir à partida, analisá-la e se preparar para a próxima. Nos dias que antecedem um jogo, podem ser 15 ou 16 horas por dia. E, quando os jogadores veem esse trabalho, as imagens e os detalhes, começam a entender. Eles dizem: 'Ei, nós acreditamos nisso'. Isso foi muito importante para nós.

Sylvinho no comando da Albânia.
Sylvinho no comando da Albânia.Bradley Collyer, PA Images / Alamy / Profimedia

Mas não se tratava apenas de futebol. Vim com Doriva, que havia trabalhado comigo no Celta de Vigo, e Pablo Zabaleta, ex-jogador argentino do Manchester City. Juntos, desenvolvemos uma relação técnica e tática muito boa, mas também uma relação humana muito forte com os jogadores e as pessoas ao redor do time.

Chegamos a um país cuja língua não conhecíamos. Felizmente, muitas pessoas falavam italiano, e meu período trabalhando com Roberto Mancini na Inter também me ajudou com o idioma. E existem coisas que conectam as pessoas. Somos latinos, sul-americanos. Não sei exatamente como explicar, mas gostamos de contato, abraços, de sentar juntos e tomar um bom café.

Lembro de ter ido ao quarto andar do prédio da federação para tomar um café e visto um segurança lá. Ele foi muito educado e se afastou, mas eu disse: 'Não, sente-se'. Tomei meu café, sentei com ele por um tempo, conversamos e depois fui embora. Essas pequenas coisas importam. Fomos os primeiros membros da comissão técnica a morar em Tirana e trabalhar todos os dias na federação. O presidente sempre me dizia: 'A federação está aqui, então você precisa morar na cidade'. E eu ficava feliz em fazer isso e trabalhar perto do time.

Os jogadores notavam essas coisas. Eles me perguntavam: 'Como você consegue morar aqui em Tirana? Gosta daqui? Está confortável?'. E eu respondia: 'É claro. Estou em casa, estou com minha esposa. Talvez não esteja no Brasil, mas vivo bem'. Nossa relação com a federação e com a Albânia será eterna.

• Sua passagem pela Albânia terminou em maio de 2026. Você queria continuar ou os dois lados sentiram que o ciclo havia chegado ao fim?

Já havíamos conversado sobre isso com o presidente e sentimos que era o fim de um ciclo. A federação havia crescido muito, nós também havíamos crescido muito, e chegou um momento em que os dois lados sentiram que não havia mais nada a acrescentar. O presidente, Armando Duka, é uma pessoa muito inteligente. Foi um acordo muito bom entre as duas partes, e ele sabia do trabalho que havíamos feito ali todos os dias, um trabalho incansável.

Lembro de um sábado em que ele foi ver a comissão técnica e disse: 'Por favor, preciso de toda a comissão aqui na federação no sábado. Há algumas coisas para conversar'.

Nós dissemos: 'Mas não trabalhamos aos sábados'. E ele respondeu: 'Eu sei, mas preciso de quatro pessoas aqui para conversar'. Então nos sentávamos ao redor de uma mesa, e todos vinham felizes. Mais quatro horas de trabalho, sem problema. Era sempre assim.

Esse era o tipo de relação que tínhamos. Era uma relação bonita e, no fim das contas, foi o fim de um ciclo para os dois lados.

Frank Rijkaard e Joan Laporta apresentam Sylvinho como novo reforço.
Frank Rijkaard e Joan Laporta apresentam Sylvinho como novo reforço.CESAR RANGEL / AFP / AFP / Profimedia

• Seu antigo clube, o Arsenal, renasceu sob o comando de Mikel Arteta. Como você vê o que ele construiu lá?

Isso é o futebol. Tudo passa por diferentes estágios e ciclos. Agora sou técnico, então vejo as coisas de forma diferente. As pessoas costumam olhar para um clube e dizer: 'Mas por que não estão ganhando?'. Todo clube passa por períodos diferentes. Veja o Barcelona. Houve um período em que disputava três ou quatro finais da Champions League, e depois as coisas mudaram. O Real Madrid também teve seus próprios ciclos.

Quando comecei a trabalhar com Roberto Mancini em 2014, a Inter não era a mesma Inter que havia conquistado a tríplice coroa e todos aqueles títulos. Estava se reconstruindo. O Milan também passou por um longo período antes de conquistar outro Scudetto. Pode-se dizer o mesmo do Manchester United e de muitos outros grandes clubes.

É assim que vejo o Arsenal. Como técnico, você entende como é difícil, porque pessoas do mundo inteiro estão observando e esperando resultados. Mas construir um time leva tempo.

Quando trabalhava com a Albânia, assistíamos a muitos times diferentes. Olhávamos para a Inglaterra e a Espanha, e o Arsenal era uma das nossas referências. Como comissão técnica, estudávamos o clube porque havia muitas coisas que podíamos aproveitar da maneira como jogava. O estilo era bastante parecido com o nosso, e a forma como se movimentavam e se organizavam é algo que muitos técnicos observam.

Arteta conquistou a Premier League e a Copa da Inglaterra, além de ter levado o Arsenal de volta à Champions League. Dá para ver o quanto ele se dedica ao trabalho. Do primeiro minuto do dia até o último, isso aparece nas entrevistas, na forma como se comporta e na maneira como controla o time.

Mas, quando se fala de Mikel Arteta, também é preciso olhar para toda a estrutura. Como técnico, observo tudo desde o topo: o presidente, o diretor de futebol, o treinador e sua comissão, até o último jogador. As coisas funcionam em campo quando todos entendem a mesma ideia e trabalham pelo mesmo objetivo.

Muitas pessoas dizem: 'O Arsenal não ganhou no primeiro ano, não ganhou no segundo ano...'. Mas estava evoluindo. Terminou em segundo, e isso não é fácil.

Por isso, acredito que é preciso ter paciência. Se você está construindo algo e termina em segundo duas ou três vezes antes de finalmente vencer, isso ainda é um ótimo trabalho. Para mim, o Arsenal passou por aqueles anos por uma razão e conseguiu aproveitar o processo. Agora podemos ver os resultados desse trabalho.

 

 

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