Lionel Messi não foi apenas um personagem que cobri ao longo de doze anos; ele foi o relógio que cronometrou a minha própria maturação como jornalista.
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Primeiro encontro
Minha história com o maior palco do futebol mundial começou em uma tarde de junho de 2014, na tribuna de imprensa do Mineirão. Eu estreava na cobertura de uma Copa do Mundo quando Argentina e Irã caminhavam para um empate que parecia inevitável.

Até que, nos acréscimos, a bola correu da direita para a esquerda e encontrou a canhota de Messi. O chute colocado, de fora da área, explodiu na rede — e também na minha memória. Aquele foi o meu primeiro texto de jogo em Copas. Ali, no calor da pressão e da urgência do fechamento, entendi pela primeira vez o que significava ver um gênio operar a poucos metros de distância.
Naquela mesma Copa, vi Messi vice-campeão no Maracanã. Vi o craque receber o prêmio de melhor jogador do torneio, com o olhar perdido, quase sem graça, como se soubesse que a glória havia escapado para a Alemanha e que talvez outro jogador fosse mais merecedor daquela honraria. Vi também a aura de um homem que parecia carregar nos ombros o peso desmedido de uma nação inteira.

Nos anos seguintes, acompanhei de perto o peregrinar desse mito. Vi Messi treinar na serenidade da Cidade do Galo e na Toca da Raposa, espiei frestas nos muros ao redor do Independência em busca de um relance de sua passagem e testemunhei, no Mineirão, a derrota da Argentina para o Brasil na semifinal da Copa América de 2019.

Entre quedas e redenções
Foi naquela queda que algo mudou. Depois de quase renascer da aposentadoria anunciada em 2016, Messi e a Argentina finalmente encontraram o caminho da redenção. O título da Copa América de 2021, no Maracanã, parecia fechar uma ferida que durante anos permaneceu aberta.

Acompanhar Messi foi, também, assistir a uma aula sobre resiliência. Estive atento quando o mundo desabou sobre ele em 2018, na Rússia, depois do pênalti defendido pelo goleiro da Islândia. E vibrei à distância, nos Estados Unidos, em 2022, enquanto escrevia a crônica do título no Catar — talvez o maior jogo da história do futebol —, quando seus companheiros finalmente puderam compreender a dimensão do privilégio de correr ao lado dele e por ele.

E, então, voltei a vê-lo em 2026. Na semifinal monumental contra a Inglaterra, presenciei Scaloni deslocá-lo para a ponta direita em uma aula tática inesquecível. Messi já não precisava correr durante 90 minutos. Ele administrava o tempo. Enquanto os ingleses ensaiavam o discurso de levar o futebol de volta para casa, o futebol permanecia exatamente onde esteve durante as últimas duas décadas: colado ao pé esquerdo do camisa 10, novamente eleito o melhor em campo.

A final deste ano trouxe o cansaço físico de quem havia atravessado batalhas épicas para conduzir seu país a mais uma decisão. O apagão na partida decisiva, porém, não diminuiu em nada o seu tamanho. A imagem de Messi na zona mista sempre foi a de um homem sereno, quase tímido, em contraste brutal com a dimensão de sua própria lenda. Ele nunca precisou gritar para ser líder. Sua obsessão pela camisa albiceleste falava por si.

Privilégio de acompanhar
Enquanto testemunho sua despedida definitiva da seleção argentina, percebo que também se encerra um capítulo muito particular da minha trajetória no jornalismo. Acompanhei quatro Copas do Mundo. Vi a Argentina disputar três finais e estive no estádio em duas delas. Não vi Pelé. Não vi Maradona. Mas tive a honra de ver Lionel Messi ao vivo, de perto, nos dias de tempestade e nos dias de Olimpo.
É impossível não pensar no tempo. O menino que chegou ao futebol argentino como promessa transformou-se em lenda diante dos meus olhos. E, enquanto eu mudava de redação, acumulava coberturas, aprendia a escrever melhor, errava, acertava e amadurecia, Messi continuava ali, como uma espécie de ponto de referência. Cada Copa trazia um novo Messi — e, de alguma maneira, um novo jornalista dentro de mim.

Fim de uma era
Messi pode não ter superado a majestade de Pelé, mas fez algo igualmente extraordinário: ensinou ao mundo que a grandeza não está apenas em vencer sempre, mas também em continuar tentando quando a derrota parece definitiva. Por anos, ele caiu diante da Argentina, levantou-se, voltou a tentar e finalmente entregou ao seu país aquilo que parecia destinado a lhe escapar.
O futebol continua rodando, novos nomes surgirão nas redações e nos gramados, mas o privilégio de ter contado a história de Lionel Messi do Mineirão ao Monumental é algo que o tempo não poderá apagar.

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