Depois de mais de 41 anos, São Paulo volta a ter um técnico negro

Roger Machado em sua primeira entrevista no São Paulo
Roger Machado em sua primeira entrevista no São PauloRubens Chiri / São Paulo FC

Rejeitado nas redes sociais por questões principalmente técnicas antes mesmo de estrear, Roger Machado, o primeiro treinador negro do São Paulo em mais de 41 anos, terá seu primeiro teste dentro e fora de campo nesta quinta-feira, às 20h, no Canindé.

Além da performance dentro das quatro linhas, resta observar qual será o apoio vindo das arquibancadas no jogo entre São Paulo e Chapecoense.

Um intervalo de 41 anos, 8 meses e 24 dias. Depois de mais de quatro décadas, o São Paulo volta a ter um treinador negro — nesse período, Carlos Gruezo, auxiliar de Luis Zubeldía e também negro, atuou apenas como interino na função.

O caso de Roger Machado no futebol brasileiro é significativo porque expõe o descompasso entre o tamanho da população negra do país e o número de treinadores dessa origem que chegam à elite do futebol nacional. A própria Seleção Brasileira, por exemplo, nunca teve um treinador negro dirigindo o time em uma Copa do Mundo.

Roger Machado em seu primeiro treino no CT da Barra Funda
Roger Machado em seu primeiro treino no CT da Barra FundaCrédito: Anuar Sayed / São Paulo FC

Uma pesquisa concluída em 2024 na Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP) pelo pesquisador Donald Verônico Alves da Silva reforça esse desequilíbrio racial no comando técnico do futebol brasileiro.

O estudo, baseado em um processo de heteroidentificação que avaliou mais de mil profissionais — entre treinadores, jogadores e auxiliares da Série A do Campeonato Brasileiro — indica que pessoas negras aparecem muito menos do que seria esperado à luz da composição da população do país.

Segundo dados do IBGE de 2022, 45,3% dos brasileiros se declaram pardos e 10,2% pretos, enquanto 43,5% se identificam como brancos. Ainda assim, a análise mostra que em 2023 nenhum técnico negro comandava equipes da elite nacional, e apenas cerca de 17% dos auxiliares técnicos foram identificados como pretos ou pardos.

Antes de Roger no São Paulo — que enfrenta forte rejeição de parte da torcida nas redes sociais principalmente por seu retrospecto de poucos títulos e por suas posições políticas assumidamente de esquerda — o último treinador negro do clube havia sido Otacílio Pires de Camargo (1939-2019), o Cilinho.

Ele chegou ao São Paulo em 1984 sem ser unanimidade. Apesar de bons trabalhos no interior paulista, especialmente em Guarani e Ponte Preta, parte da torcida e da imprensa esperava um técnico mais consagrado para comandar o clube naquele momento.

Comparação do desempenho de Crespo e Roger
Comparação do desempenho de Crespo e RogerStats Perform/Opta

Nos anos 80, Cilinho

O São Paulo vinha de anos irregulares, e a aposta em Cilinho foi recebida com desconfiança. O apelido “Cilinho Michels”, numa comparação irônica com o técnico holandês Rinus Michels, chegou a circular entre torcedores e cronistas.

O próprio treinador tratou o episódio com bom humor. Na época, a torcida sonhava com nomes como Telê Santana, que estava na Arábia Saudita, ou até com César Luis Menotti. “Vim para dar um jeito neste time. Prefiro que falem comigo depois do Campeonato Paulista”, avisou o novo técnico são-paulino.

Logo nos primeiros meses, porém, o treinador mudou o perfil da equipe. Cilinho apostou fortemente nos jovens formados na base e passou a dar espaço a jogadores como Müller e Silas. O time ganhou um estilo ofensivo e técnico, e o treinador ficou conhecido por seu método didático nos treinos, o que lhe rendeu o apelido de “professor”.

Tênis ou futebol?

Entre os métodos que mais chamavam atenção estava um exercício curioso: em alguns treinamentos, Cilinho fazia os jogadores trocarem passes, dominarem e conduzirem uma bola de tênis. A lógica era simples: se o atleta conseguisse controlar uma bola pequena e rápida, teria muito mais facilidade com a bola oficial. O recurso era usado principalmente com os mais jovens, para desenvolver controle, agilidade e precisão.

Com o tempo, os resultados transformaram a desconfiança inicial em reconhecimento. O São Paulo conquistou o Campeonato Paulista em 1985 e 1987, consolidando o trabalho do treinador.

Para muitos torcedores e historiadores do clube, o período de Cilinho ajudou a formar a base técnica e mental que prepararia o terreno para a fase vitoriosa do início dos anos 1990, quando o time seria comandado, enfim, por Telê Santana. A primeira passagem dele se encerrou em 1986. Ele voltaria em 1987 e ficaria até 1989

Antes de Cilinho, os técnicos negros do São Paulo estão ainda mais no passado. O pioneiro, Arthur Friedenreich, que comandou o clube em 1936, é muito mais conhecido como jogador — o primeiro grande nome do São Paulo e do futebol brasileiro antes da era das Copas do Mundo.

Registros não oficiais indicam que ele teria marcado 1.329 gols somando partidas oficiais e amistosos. Filho de pai com ascendência alemã e mãe negra brasileira, destacou-se em uma época em que o futebol ainda era fortemente marcado pelo elitismo racial. Friedenreich morreu em 1969, aos 77 anos.

São Paulo, com Roger, chega a cinco técnicos negros na sua história
São Paulo, com Roger, chega a cinco técnicos negros na sua históriaStats Perform

Diamante Negro

Outro grande nome foi Leônidas da Silva (1913-2004). Depois de brilhar nas Copas de 1934 e 1938 com a Seleção Brasileira e se tornar ídolo do São Paulo nos anos 1940 — sua estreia no clube, no Pacaembu, foi assistida por cerca de 70 mil pessoas — ele treinou o time entre 1951 e 1955. Como jogador tricolor, o Diamante Negro conquistou os Campeonatos Paulistas de 1943, 1945, 1946, 1948 e 1949 e atuou até os 37 anos.

Já nos anos 1960, Sylvio Pirillo comandou o São Paulo entre 1967 e 1968, em um período de vacas magras para o clube por causa dos altos custos da construção do Estádio do Morumbi.

Pirillo, que como jogador teve passagens marcantes por clubes como Internacional, Flamengo e Botafogo, também teve um capítulo importante na história da Seleção: em 1957, foi o primeiro técnico a convocar Pelé, para a disputa de uma edição da Copa Roca, torneio entre Brasil e Argentina.

Além de Gruezo, outros técnicos negros passaram pelo comando do São Paulo de forma interina ao longo da história: Ariston de Oliveira (1951), Caxambu (1957, 1961 e 1962), Bebeto de Oliveira (1984) e Zé Carlos Serrão (1986 e 1987).

Qualquer comparação entre Roger e os outros técnicos negros que passaram pelo São Paulo, em tempos onde o futebol era outro e não havia redes sociais, será injusta. Apenas os próximos dias e meses, além dos resultados, vão dizer como será esse capítulo da história do clube.