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Argentina se prepara para longa e difícil transição após a despedida de Messi

Lionel Messi anunciou sua aposentadoria do futebol internacional
Lionel Messi anunciou sua aposentadoria do futebol internacionalIMAGN IMAGES via Reuters / Brett Davis

O adeus definitivo de Lionel Messi na seleção parecia iminente, mas o anúncio oficial caiu como uma bomba na Argentina nesta segunda-feira (31).

A lamentação esteve em todos os jornais da Argentina. Mesmo que já fosse esperado após a derrota na final da Copa do Mundo contra a Espanha e a morte de seu pai, Jorge, Messi supreendeu com seu anúncio.

O medo do que vem pela frente é enorme, assim como as expectativas que ele criou durante os anos em que vestiu a camisa da Argentina. Foram 21 anos, para ser exato. 21 anos com 125 gols em 207 jogos, números que parecem de outro planeta.

Ele saiu do país ainda adolescente, mas sempre se manteve ligado à sua terra natal mesmo 13 mil km longe. Messi foi o símbolo da seleção por duas décadas.

Mensagem de Messi para a torcida da Argentina
Mensagem de Messi para a torcida da Argentina@leomessi via Instagram/Handout via REUTERS

Ele foi o único a desafiar a supremacia técnica de Diego Armando Maradona, cuja sombra pesou sobre ele por tanto tempo. Não por acaso, sua sequência de títulos com a seleção começou após a morte do Pibe de Oro, que, lá de cima, parecia abençoá-lo nas duas conquistas da Copa América e no título mundial no Catar.

Naquele último torneio, a imagem icônica da vitória sempre será a defesa de Emiliano Martinez contra Randal Kolo Muani no último minuto. Mas é claro que, sem a camisa 10, o time de Scaloni jamais teria chegado a esse objetivo.

Período de incerteza começa

Agora, começa um período de incerteza para a Argentina. Como destaca o jornalista Andres Burgo, a Seleção só disputou as Copas de 1998 e 2002 sem Maradona ou Messi, em quase 45 anos (10 de 12 Copas do Mundo), sempre contando com um jogador em um nível inalcançável para qualquer outro.

A singularidade de Maradona já era impossível de igualar em termos de carisma e liderança. Messi, porém, compensou a falta de perfil de líder com uma regularidade impressionante, focando em jogar seu futebol livremente, sem precisar imitar seu ilustre antecessor no discurso. Se, nos primeiros anos, ele precisou convencer um país inteiro de sua dedicação à camisa da Albiceleste, aos poucos foi abraçado e cuidado como um filho pródigo.

Temporadas recentes de Messi nas ligas nacionais
Temporadas recentes de Messi nas ligas nacionaisFlashscore

Depois da estreia em Copas do Mundo em 2006, ele viveu o torneio de 2010 com Maradona como técnico como um divisor de águas. Suas atuações abaixo do esperado na África do Sul o obrigaram a entregar algo a mais.

E as três finais perdidas – Copa do Mundo de 2014 e Copas América de 2015 e 2016 – primeiro o deixaram amargurado (sua aposentadoria temporária da seleção aos 29 anos foi quase um ato de rebeldia juvenil), depois o fizeram perceber que precisava liderar com seu futebol, e não com qualidades humanas que não tinha.

A Copa desastrosa na Rússia, porém, permitiu que a Argentina virasse a página, com seu xará Lionel Scaloni assumindo o comando. Humilde e inteligente, o ex-jogador do Deportivo La Coruña e da Lazio montou um verdadeiro exército ao redor de Messi. Todo companheiro atravessaria o fogo por ele, e as conquistas ininterruptas de 2021 a 2024 finalmente forjaram a lenda tão aguardada.

Sem herdeiros para o trono?

O evento global na América do Norte ao mesmo tempo prolongou e diluiu a lenda. Porque, apesar dos números incríveis – oito gols e quatro assistências –, a despedida parecia inevitável. Aos 39 anos, ninguém podia esperar milagres fisicamente, mas sua superioridade técnica ainda o levava longe.

As duas assistências na semifinal contra a Inglaterra marcaram sua despedida, porque diante da Espanha, Messi foi engolido por um furacão. E aqueles poucos lampejos não foram suficientes nem para acender uma pequena chama.

Passageiro passa por mural de Lionel Messi em Buenos Aires, Argentina
Passageiro passa por mural de Lionel Messi em Buenos Aires, ArgentinaReuters / Agustin Marcarian

Sua galeria de troféus é digna de um campeão que provavelmente não veremos atuando nesse nível por muitos anos, mesmo que, nas últimas temporadas, sua passagem pelo PSG e a ida para os Estados Unidos tenham permitido que ele administrasse melhor sua energia e focasse na seleção, onde ainda tinha contas a acertar.

A realidade, porém, é que depois dele, a Argentina vai buscar outro camisa 10 para assumir a responsabilidade e a pressão. E, por enquanto, não há talentos de outro mundo à vista.

Nico Paz tem 22 anos e é titular no Como, enquanto Franco Mastantuono até agora decepcionou e busca redenção na Fiorentina. Claudio Echeverri foi destaque há dois anos, mas no ano passado acabou rebaixado para a segunda divisão com o Girona na Espanha.

Não há motivo para pressa ou para criar expectativas irreais, porque não vai surgir outro Messi, assim como não apareceu outro Maradona, que foi contra tudo e todos e se tornou o maior sem jogar em um clube gigante.

Mas talento não falta na Argentina. Porque lá, as crianças ainda jogam futebol nas ruas. Apesar de uma crise econômica que está dizimando a classe média e esmagando os menos favorecidos.

Enquanto o entusiasmo não for sufocado pelo negócio, de La Quiaca a Ushuaia, dos Andes ao Atlântico, é justo continuar sonhando.