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Bairro que revelou Lamine Yamal vibra com Espanha e sonha com título da Copa do Mundo

Em Rocafonda, o bairro vibra com “a seleção de Lamine Yamal” e sonha com um título na Copa do Mundo
Em Rocafonda, o bairro vibra com “a seleção de Lamine Yamal” e sonha com um título na Copa do MundoAnna Carreau

Do campo society desgastado às varandas enfeitadas com bandeiras da Espanha, todo o bairro de Rocafonda prende a respiração. Para a nova geração que treina todas as noites sob o mural da estrela local, Lamine Yamal é muito mais do que um atacante genial: ele é um exemplo a ser seguido e um símbolo de orgulho para esse bairro popular de Mataró, em Barcelona. A marginalizada comunidade, durante 90 minutos, vai sonhar em ver seu CEP brilhando no topo do mundo.

"No bairro de Lamine Yamal, a gente não consegue fechar o mês". A frase está gravada direto no concreto, nos degraus ao lado do campo society onde os jovens de Rocafonda se reúnem todas as noites.

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Este é um lembrete para todos que vêm tirar foto em frente ao mural de Lamine Yamal Nasraoui Ebana, seu nome completo. A frase faz companhia a esse campo com duas traves sem rede, gramado desgastado por jogos intermináveis e grades que tentam evitar que a bola escape para a rua. 

No bairro de Lamine Yamal, a gente não consegue fechar o mês
No bairro de Lamine Yamal, a gente não consegue fechar o mêsAnna Carreau

Todo fim de tarde, o ritual se repete: assim que o sol começa a baixar, os times se revezam com tempo limitado para cada um, a arbitragem é feita pelos próprios jogadores, com surpreendentemente pouca discussão. Um pouco mais longe, os menores treinam inventando gols no próprio alambrado. A bola deles sempre acaba parando no campo dos maiores, e ninguém reclama. Como quando um morador atravessa o jogo com o carrinho de compras para chegar em casa. O futebol é prioridade, mas a vida do bairro não pode parar.

"Uma referência para não se perder"

É nesse campo que Salim, de 9 anos, espera pacientemente sua vez de jogar. Com uma camisa rosa falsa do Barça com o nome de Lamine Yamal nas costas, ele, que tinha só 6 anos quando o craque local estreou pelo Barcelona, resume: "É um jogador que vinha aqui, treinava, jogava com os amigos e sempre aprendia, ficava melhor. Agora chegou entre os grandes".

Ronnie não esconde o orgulho de treinar todas as noites sob o olhar de Lamine Yamal: "A gente olha para o mural todo dia. É uma inspiração: ver ele jogando nos campos do nosso bairro e depois numa final de Copa do Mundo representa muito para a gente, nos deixa muito orgulhosos". Aarón, de 10 anos, explica timidamente: "É o melhor jogador do mundo. É um ídolo para seguir".

Os jovens de Rocafonda vêm jogar todos os dias sob a imagem de Lamine Yamal
Os jovens de Rocafonda vêm jogar todos os dias sob a imagem de Lamine YamalAnna Carreau

Sentada nesses degraus brancos que delimitam a área de jogo, sua mãe Elisabeth observa de canto de olho, recém-saída do trabalho, como faz todo dia: "Aqui, todas as crianças, e principalmente muitos pais de origem africana, sonham que seus filhos sejam como ele. (...) A gente espera que ele continue sendo um exemplo para o futuro, uma referência para não se perder, porque as crianças querem imitar tudo dele. Meu filho quer ter tudo o que ele tem".

Lamine Yamal faz questão de manter, pelo menos simbolicamente, o vínculo com Rocafonda, onde ele e os pais se mudaram depois que ele nasceu. Um bairro "marginalizado e estigmatizado", onde mais de 11 mil moradores de 35 nacionalidades diferentes vivem espremidos em prédios de cinco ou seis andares, sem serem realmente considerados pelo poder público. A cada gol, o atacante faz com os dedos três números: 3-0-4, 304, referência ao CEP (08304) desse bairro de Mataró, cidade de 130 mil habitantes ao norte de Barcelona. Para esta Copa, ele até lançou uma faixa na cabeça com a inscrição "Rocafonda".

A comemoração 304 de Lamine Yamal após seu gol contra a Arábia Saudita na Copa do Mundo
A comemoração 304 de Lamine Yamal após seu gol contra a Arábia Saudita na Copa do MundoReuters

"Ele faz isso pelo país, mas também pelo pessoal do bairro. Ele representa a gente, que somos poucos, e faz de nós grandes. Agora todo mundo conhece o bairro. Antes diziam que aqui tinha muita criminalidade, mas agora as pessoas veem a realidade, vêm fazer reportagens e entrevistas", destaca Moha, de 14 anos, com uma maturidade impressionante. Ele não usa a camisa do ídolo local, prefere a de Neymar no Santos, ídolo de Lamine Yamal, mas os mais novos quase todos vestem o uniforme azul e grená do Barça com o número 10, herdado pelo jovem de 19 anos nesta temporada.

Prévia de Espanha x Argentina
Flashscore

"Ele fazia coisas que ninguém mais fazia"

Uma trajetória completamente insana para Ayoub, de 20 anos, só um ano mais novo que Lamine Yamal, com quem passou muitas horas nesse asfalto quente de sol forte: "Quando ele vinha, nos fins de semana, a gente sempre jogava junto. Já dava para ver a qualidade que ele tinha, não dava para fazer nada contra ele. Desde pequeno, a gente já sentia que ele ia jogar no Barça. Mas não imaginava que seria tão rápido. Ele fazia coisas que ninguém mais fazia, não era normal. Não dava para parar ele". Ele lembra também de ter enfrentado Pau Cubarsí, quando jogava pelo clube de Rocafonda, e guarda a mesma sensação de espanto: "Ele tinha 15, 16 anos e jogava como se tivesse 28. Isso é algo que quase nunca se vê".

O mural em homenagem a Lamine Yamal, ao lado do nome
O mural em homenagem a Lamine Yamal, ao lado do nomeAnna Carreau

Ele não vê o amigo há três anos, sabendo que é quase impossível para quem virou estrela mundial voltar ao bairro de origem, onde ainda moram o tio e a avó. Hoje, Ayoub se contenta em brilhar sob o olhar de Lamine Yamal: "Desde que colocaram esse mural, vi todo mundo que vinha jogar bola aqui, ou só passar, tirar foto na frente. Muita gente vem no fim de semana para jogar contra o time do bairro e sai com as fotos". O que Lamine construiu, para ele, vai além dos títulos: "Ter um ídolo como ele é importante para os jovens que crescem aqui. É um exemplo claro do que a gente pode se tornar, um cara do bairro que virou estrela mundial".

Os mais jovens quase todos vestem camisa personalizada
Os mais jovens quase todos vestem camisa personalizadaAnna Carreau

Em Rocafonda, mais do que em qualquer outro lugar da Catalunha, todo mundo vibra com “a seleção de Lamine Yamal”, como brinca o prefeito de Mataró nas redes sociais. Nas janelas e sacadas, a bandeira da Espanha aparece, em apoio à Roja, mas também como afirmação de uma identidade espanhola que alguns líderes de extrema-direita gostariam de tirar desse bairro popular”. "Nós, que conhecemos ele aqui do bairro, sabemos que ele sempre quis representar a Espanha, apesar das dúvidas que alguns levantaram", lembra Ayoub.

"Se fala mais de Rocafonda do que de Mataró"

Esse orgulho de pertencimento vai muito além dos limites de Rocafonda. A poucos metros do campo, Carolina toma um Fanta em um bar do bairro onde os mais velhos se reúnem para aproveitar o ar-condicionado.

"Agora, quando a gente viaja, diz que é de Rocafonda, o bairro de Lamine Yamal, e todo mundo conhece", conta ela. "Se fala mais de Rocafonda do que de Mataró". Um orgulho que também aparece nas salas do colégio, como conta seu marido Xavi, professor de latim em Rocafonda: "Muitas vezes os alunos vêm de camisa de futebol. Todos vêm de camisa, seja do Barça ou da seleção, todos, 100%, têm o nome de Lamine Yamal estampado". "Principalmente a branca", destaca ele, em referência ao uniforme reserva da Roja.

Uma bandeira da Espanha pendurada na sacada de um apartamento em Rocafonda
Uma bandeira da Espanha pendurada na sacada de um apartamento em RocafondaAnna Carreau

Mas essa nova visibilidade não apaga o que Rocafonda perdeu nos últimos 20 anos. "Era um bairro que tinha de tudo, agora perdeu muitos comércios, muitas coisas", lembra Carolina. Xavi completa o quadro com um lado menos glorioso, citando tiros e episódios de violência que marcaram algumas áreas do bairro, principalmente na rua Pablo Picasso, apontada por vários moradores como a mais delicada. Os moradores se mobilizaram com um abaixo-assinado pedindo "mais presença policial, mais investimentos" e acreditam que a popularidade trazida por Lamine Yamal permite que eles "tenham mais voz".

Em Rocafonda, política é um assunto tabu, a vida já é difícil o suficiente para se envolver nas brigas consideradas “pessoais” dos políticos ou na questão do independentismo catalão, quase ausente por aqui. 56% da população local se absteve nas últimas eleições para o parlamento da Catalunha, enquanto a abstenção geral em Mataró não passa de 44%. "Se fala muito de Lamine Yamal, mas economicamente ainda não há muitos resultados visíveis. Ainda não vimos investimento direto dele no clube de Rocafonda ou em outro lugar. Mas talvez isso aconteça", avalia Xavi.

Licenças caras demais, sem carro, sem luz

Essa realidade econômica, Elisabeth, mãe de Aarón, sente na pele todo fim de semana. Ela não conseguiu matricular o filho de novo no CF Rocafonda, o clube do bairro: sem carro, não tinha como levá-lo para os jogos da região nos fins de semana. Por isso, Aaron hoje joga no time de futsal da escola, onde as partidas são só entre clubes de Mataró, acessíveis de ônibus.

Ela conta também que no CF Rocafonda, algumas crianças são excluídas dos treinos durante a temporada quando os pais não pagam a mensalidade. "Acho que isso não é certo, porque não são as crianças que têm que se preocupar com os problemas financeiros dos pais. Não é justo que elas paguem por isso". Ela lembra que, com a fama crescente de Lamine Yamal, os pais do bairro já temiam uma coisa: "Vão aumentar de novo o preço da mensalidade". E foi o que aconteceu.

O campo com traves sem rede, sem lona para proteger do sol ou luzes para jogar à noite
O campo com traves sem rede, sem lona para proteger do sol ou luzes para jogar à noiteAnna Carreau

Elisabeth também espera, de forma bem concreta, mais do poder público: "A prefeitura deveria dar mais oportunidades para as crianças, um campo coberto de verdade, para que possam jogar mesmo quando está muito quente como agora. Porque hoje os clubes são caros. Aqui, às vezes, nem luz tem à noite. A gente vê os refletores ali, mas eles não funcionam".

Elisabeth se identifica muito com a relação que Lamine Yamal tem com a mãe. "Como mãe solo, fico muito orgulhosa de ver ele falando tão bem da mãe dele", conta. "O pai dele também respeita, mas é principalmente pela mãe que ele tem esse reconhecimento, por todo esforço que ela fez". Ela entende perfeitamente também a dificuldade de pagar a mensalidade, que a mãe dele deve ter passado, e espera que sua situação toque o coração de quem está perto dele.

As instalações do CF Rocafonda aos pés do campo society onde está o mural de Lamine Yamal
As instalações do CF Rocafonda aos pés do campo society onde está o mural de Lamine YamalAnna Carreau

Ela também sonha que um dia um Campus Lamine Yamal ou uma iniciativa parecida seja criada em Rocafonda, ou, mais modestamente, que ele financie um ônibus para que as crianças cujos pais não têm carro possam continuar jogando no clube do bairro. Mas ela é realista: Lamine "não deve nada" ao bairro, ele "não é obrigado a nada", e ela não quer de jeito nenhum aumentar a pressão que ele já sente no dia a dia. Para ela, o futebol é, acima de tudo, uma forma de ocupar os jovens de Rocafonda, permitir que sonhem em ser como ele e mantê-los longe de tentações perigosas.

"Se ele ganhar a Copa, espero que volte a Rocafonda ou faça algo pelo bairro"

Ayoub traz a conversa para uma realidade maior do que só o clube de futebol: a de um bairro onde todo mundo acorda todo dia para tentar sobreviver. "É um bairro exposto ao risco de pobreza, um bairro onde as pessoas acordam todo dia para buscar o pão. É um pouco como as periferias da França", resume.

 "Por isso, ao se tornar famoso, ao ganhar destaque, Lamine muda a imagem do bairro: deixa de ser um bairro marginalizado, pobre, para ser o bairro do melhor jogador do mundo". Uma transformação de imagem, segundo ele, mas que ainda não substitui os investimentos que Rocafonda precisa para os moradores mais vulneráveis.

Mesmo assim, existe uma expectativa comum, quase unânime, para domingo. No Parc Central de Mataró, um telão será instalado para transmitir a final para todo o bairro. "Espero que a Espanha ganhe, que ele faça um gol para Rocafonda e comemore com o gesto do 304. O clima aqui em torno da Copa está muito intenso, tem muita pressão", se anima Mahamadou, que aos 15 anos diz ainda ter "esperança", mas já não "acredita muito" em seguir um caminho parecido com o do ídolo local.

E além do troféu, um desejo mais íntimo circula entre todos: ver Lamine Yamal voltar, nem que seja só por uma aparição, para comemorar com os seus. A última vez que Rocafonda viu ele no bairro foi para uma propaganda da Kings League. Na época, a notícia da presença dele se espalhou rápido, mobilizando uma segurança nunca vista. Na ausência dele, o bar do tio, chamado "Bar familia LY 304", virou o ponto de encontro de todos os fãs da estrela de Rocafonda. Um bar que, aliás, está fechado nesta semana de julho: Abdul, como todos os outros membros da família Nasraoui Ebana, foi para os Estados Unidos para acompanhar a final da Copa do Mundo.

O bar do tio de Lamine Yamal em Rocafonda
O bar do tio de Lamine Yamal em RocafondaAnna Carreau

Alguns querem acreditar que, em caso de título, Lamine Yamal pode aparecer na cidade no próximo dia 25 de julho, data em que Mataró tradicionalmente inicia sua Festa Maior. "Se ele ganhar a Copa, espero que volte a Rocafonda ou faça algo pelo bairro", deseja Ayoub. Enquanto isso, nos degraus do campo society sem rede nas traves, a frase gravada no concreto lembra uma realidade que nem um gol na final, nem um gesto com os dedos vai apagar. Mas, por uma noite, em Rocafonda, bastam três dedos, um zero, quatro dedos. 304. Como uma promessa cumprida ao bairro que ele colocou no mapa do mundo.

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