O duelo contra o Japão evoca uma das relações bilaterais mais profundas, ricas e pop do nosso cotidiano, onde a distância geográfica desaparece diante de uma infância moldada na base do Kamehameha e da paixão pelas quatro linhas.
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Para entender a força desse confronto, é preciso olhar para as arquibancadas e para as nossas próprias ruas. O Brasil abriga a maior população de origem japonesa fora do Japão. Segundo dados oficiais, são cerca de 2 milhões de nikkeis (japoneses e seus descendentes) vivendo em solo brasileiro, com o estado de São Paulo como grande coração dessa história.

Mais do que números, essa presença moldou a identidade cultural do país. O tradicional bairro da Liberdade, na capital paulista, transformou-se no maior reduto da cultura japonesa no mundo fora do arquipélago.
O comércio, os festivais e a gastronomia da Liberdade provam que o brasileiro adotou o Japão como parte de sua própria identidade — muito antes da invasão do K-Pop coreano e dos doramas. O Flashscore te convida a uma viagem no tempo.

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Geração Manchete entra em campo
Nos anos 80 e 90, a invasão asiática no Brasil foi puramente nipônica. E tudo começou por causa de uma crise financeira e de uma sacada genial.
A TV Manchete não foi a pioneira absoluta — nos anos 60 e 70, heróis como National Kid e Ultraman passaram em canais como Tupi e Globo —, mas foi ela quem criou o "Boom". Em 1988, o empresário nipo-brasileiro Toshihiko Egashira comprou os direitos de O Fantástico Jaspion e Changeman.
Ele ofereceu às grandes emissoras, que recusaram. A Manchete, quase falida, aceitou exibir de graça em um sistema de troca por comerciais.
O sucesso foi avassalador. Mas por que deu tão certo?
Ao contrário dos desenhos americanos da época (He-Man, Superamigos), que eram repetitivos, as séries japonesas tinham continuidade. Se você perdesse o episódio de ontem, não entendia o de hoje.
Os heróis japoneses choravam, sangravam e, às vezes, morriam de verdade. Havia um senso de perigo real que fascinava as crianças.
As explosões, faíscas e robôs gigantes gravados nas famosas pedreiras do Japão trouxeram um nível de ação nunca antes visto na TV aberta brasileira, gerando uma febre bilionária de licenciamento de brinquedos.
Escalação de elite
Se os imigrantes plantaram a semente no início do século XX, a cultura pop japonesa colonizou de vez o imaginário brasileiro. O jogo de hoje parece a reunião dos maiores heróis da nossa infância.
A era de ouro dos Tokusatsus (séries de heróis com efeitos especiais) e dos animes criou laços indestrutíveis:
O Comando de Ataque: Jaspion, Changeman, Flashman e o Incrível Ninja Jiraiya abriram as portas do país.
A Armadura Sagrada: Logo depois, Os Cavaleiros do Zodíaco pararam o Brasil em 1994, ensinando o brasileiro o que significava "elevar o cosmo".

Goku é do Povo: Dragon Ball e Pokémon viraram febre nacional. Mais tarde, Naruto garantiu que as novas gerações continuassem correndo com os braços para trás.

Neymar e o Goku cravado no corpo
Neymar já foi desenhado por Yoichi Takahashi, o criador de Super Campeões. Takahashi fez artes oficiais do astro brasileiro com o traço clássico do anime.

O camisa 10 brasileiro selou de vez a sua conexão com a cultura pop nipônica ao fechar as costas com tatuagens de super-heróis. Bem no meio de suas costas, há uma imagem enorme e detalhada do Goku em sua versão Super Sayajin.

Será que a profecia de Tsubasa se cumprirá?
Se a realidade demorou a proporcionar esse jogo em um mata-mata de Copa do Mundo — já que em 2018 o Japão quase cruzou nosso caminho na Rússia, mas caiu para a Bélgica —, a ficção já havia escrito esse roteiro de forma cirúrgica.

O lendário anime Captain Tsubasa (o eterno Super Campeões) é a maior prova de amor do Japão ao futebol brasileiro. Na trama, o protagonista Oliver Tsubasa viaja ao Brasil para jogar nas categorias de base e no profissional do São Paulo Futebol Clube (rebatizado de Brancos no anime), sob a tutela do mentor Roberto Hongo.
E como termina a grande saga da vida de Tsubasa? No arco Rising Sun do mangá, o Japão enfrenta justamente a Seleção Brasileira na finalíssima dos Jogos Olímpicos de Madri.
No roteiro do criador Yoichi Takahashi, após uma batalha épica que vai para a prorrogação, o Japão vence o Brasil por 3 a 2 com um gol de bicicleta de Oliver Tsubasa. Nos desculpe, Takahashi. Desta vez não vai dar certo... Ao menos é isso que o torcedor brasileiro espera.
Espelho de Zico e a obsessão por Tóquio / Yokohama
Se no desenho eles nos venceram, na vida real o futebol japonês cresceu olhando para o Brasil como o grande mestre. A criação da J-League foi impulsionada por Zico, transformado em "Deus do Futebol" em Kashima.

Para os clubes brasileiros, cruzar o mundo rumo a Tóquio ou Yokohama sempre foi o ápice da glória. O solo japonês coroou o Flamengo de Zico em 81, o Grêmio de Renato Gaúcho em 83, o São Paulo de Telê Santana no bicampeonato de 92/93, e a própria Seleção Brasileira no Pentacampeonato em 2002.
Ayrton Senna e o Japão
Se os gramados uniram os dois países, as pistas de Fórmula 1 selaram uma paixão mítica. Ayrton Senna era tratado como um verdadeiro semideus no Japão, uma idolatria impulsionada por sua parceria histórica com os motores da gigante japonesa Honda.
O circuito de Suzuka, palco onde Senna garantiu seus três títulos mundiais (1988, 1990 e 1991), tornou-se solo sagrado para o automobilismo nacional.
Até hoje, mais de três décadas depois, o carisma e o legado de Senna permanecem vivos na memória dos japoneses, servindo como uma das pontes afetivas mais bonitas e indestrutíveis entre o Brasil e a Terra do Sol Nascente.
O Japão sempre foi o palco dos nossos sonhos mais felizes. Que não seja, desta vez, dos nossos pesadelos...
A Copa do Mundo de 2026 será realizada de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções, 104 jogos e será disputado em 16 estádios.
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