Como destravar o ataque do Brasil? A resposta está no meio-campo

Carlos Ancelotti observa o treino do Brasil
Carlos Ancelotti observa o treino do BrasilMAURO PIMENTEL/AFP

O termo "assustou", usado pelo lateral Danilo para explicar principalmente os primeiros 30 minutos da estreia do Brasil contra Marrocos, ganha ainda mais força quando a produção ofensiva do meio-campo da Seleção é comparada à das outras campeãs do mundo presentes na Copa.

A análise dos indicadores de passe e progressão mostra que, embora o Brasil tenha conseguido levar a bola ao campo ofensivo, encontrou dificuldades para transformar a posse em oportunidades de alto perigo, sobretudo pela baixa criatividade do setor de criação. Em contraste, Alemanha, Inglaterra e França foram mais eficientes em todas as etapas da construção das jogadas.

Confira a tabela da Copa

O primeiro aspecto diz respeito à progressão da posse. No indicador que mede o avanço médio da equipe com a bola, o Brasil registrou 4,99, abaixo da França (6,48), da Alemanha (5,76) e da Argentina (5,57).

Lucas Paquetá em disputa de bola contra Marrocos
Lucas Paquetá em disputa de bola contra MarrocosANGELA WEISS/AFP

Apenas a Inglaterra apresentou índice inferior (2,10), o que indica um estilo diferente de construção, baseado menos em conduções e mais na circulação rápida da bola por passes ou lançamentos longos. Se o Brasil avançou relativamente pouco com a bola dominada, a troca de passes compensou essa limitação?

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A resposta é apenas parcialmente positiva. A Seleção realizou 54 passes para o último terço do campo, número inferior aos da Alemanha (79) e da França (60). Embora tenha chegado com frequência razoável à faixa ofensiva, essa progressão raramente se transformou em ações realmente perigosas.

Chegar à área não foi suficiente

A limitação ofensiva fica ainda mais evidente ao observar os passes para dentro da área adversária. O Brasil fez 21, contra 39 da Alemanha, 25 da Inglaterra e 18 da França. Embora o volume brasileiro tenha sido semelhante ao de franceses e ingleses, a equipe não conseguiu converter essas chegadas em oportunidades claras de finalização, o que indica dificuldades tanto na ocupação dos espaços quanto na qualidade do último passe.

Lucas Paquetá tocou de lado contra Marrocos
Lucas Paquetá tocou de lado contra MarrocosStats Perform/Opta

A diferença aparece de forma ainda mais clara na criação de oportunidades. O Brasil produziu 10 chances, número próximo ao da França (9), mas inferior ao da Inglaterra (15) e, principalmente, ao da Alemanha (21). A grande diferença, porém, está na qualidade dessas oportunidades: nenhuma foi classificada como "grande chance" — situação em que o atacante finaliza em condições claras de marcar. A Alemanha criou cinco grandes chances, enquanto Inglaterra e França produziram quatro cada.

Casemiro mostrou pouco ritmo contra o Marrocos
Casemiro mostrou pouco ritmo contra o MarrocosANGELA WEISS/AFP

Quando se observa a eficiência na criação ofensiva, a superioridade das demais seleções fica evidente. A Alemanha transformou 23,8% de suas oportunidades em grandes chances (5 de 21). A França teve o melhor desempenho, com 44,4% (4 de 9), enquanto a Inglaterra registrou 26,7% (4 de 15). O Brasil terminou com 0%, evidenciando que, apesar de construir um número razoável de ataques, não conseguiu gerar sequer uma situação clara de gol. 

Os adversários de cada um também não podem ignorados. A Alemanha goleou Curaçao por 7 x 1. Enquanto a França bateu Senegal por 3 x 1, enquanto a Inglaterra passou pela Croácia, um adversário mais qualificado que Marrocos, por 4 x 2.

O gargalo está na criação

Os números ajudam a explicar a diferença de desempenho entre as campeãs do mundo que venceram com folga na estreia. A Alemanha marcou sete gols, a Inglaterra fez quatro, França e Argentina anotaram três cada, enquanto o Brasil balançou as redes apenas uma vez.

Brasil e Argentina, com 0 grandes chances, não aparecem na lista
Brasil e Argentina, com 0 grandes chances, não aparecem na listaStats Perform/Opta

Os indicadores revelam uma sequência lógica: as seleções europeias conseguiram progredir a posse, chegar ao último terço, transformar essa presença ofensiva em chances qualificadas e, por fim, converter essas oportunidades em gols. O Brasil interrompeu essa cadeia justamente na etapa mais importante: a transição entre chegar ao ataque e criar oportunidades realmente perigosas.

Os dados sugerem que o principal ajuste do Brasil para a sequência da Copa passa pelo meio-campo. A equipe consegue transportar a bola e alcançar o campo ofensivo, mas ainda precisa transformar essa posse em jogadas realmente perigosas. As principais candidatas ao título conseguem fazer exatamente essa transição: encontram mais passes decisivos, rompem a marcação adversária e criam grandes chances. Há uma única exceção. A Argentina não crio nenhuma chance clara, mas Lionel Messi fez a diferença, conseguindo gols que fogem das estatísticas triviais. 

A Copa do Mundo de 2026 será realizada de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções, 104 jogos e será disputado em 16 estádios.

 

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