Quem acompanha de longe, pela televisão, pode até torcer o nariz. Na transmissão da emissora norte-americana Fox, por exemplo, o árbitro apita para a pausa e a tela imediatamente corta para os comerciais.
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Não se engane: essa dinâmica irritou até mesmo os jogadores.

"As pausas para hidratação são um pouco interessantes, porque eu estava obviamente assistindo a quase todos os jogos até hoje, e ir para os comerciais toda hora é um pouco (...) Bem, não é algo que eu goste", admitiu Van Dijk.
"Acho que para os telespectadores neutros na TV também não é legal. Se estiver muito quente, obviamente seria bom mantê-las (as pausas). Mas acho que você tem que analisar isso a cada jogo, separadamente, na minha opinião", acrescentou o zagueiro e capitão holandês.
Mas para quem está vivendo a atmosfera pulsante dentro dos estádios desta Copa do Mundo, a experiência de se parar o jogo por três minutos a cada tempo é completamente diferente.

O hydration break virou a engrenagem perfeita de um conceito que quem trabalha com marketing esportivo conhece bem: o sportainment, que nada mais é que a integração do esporte e do entretenimento para elevar a experiência do público.

"Mesmo se a sua seleção estiver perdendo, o clima do estádio durante a pausa não deixa a energia cair. Acaba virando um momento de confraternização, de celebrar estar ali, de agitar as bandeiras e se ver no telão", comenta o jornalista Fabricio Coronel, do portal El Universo, do Equador.

Tabuleiro tático: o futebol em quatro quartos
As paradas mudaram o jogo taticamente. Não se trata apenas de atletas bebendo água. Trata-se de um "tempo técnico" disfarçado.
Se antes um comandante precisava gritar desesperadamente na linha lateral ou esperar o intervalo para corrigir um posicionamento, hoje o hydration break divide a partida em quatro blocos estratégicos.
É a oportunidade de ouro para reajustar a marcação, dar um nó tático no adversário ou motivar o elenco. O jogo reinicia com outra intensidade.

O próprio Brasil beneficiou-se disso no empate com Marrocos. O time estava perdendo por 1 a 0, mas conseguiu igualar o placar seis minutos depois do Hydration Break, quando Vini Jr. deixou tudo igual em bela finalização.
"Você pode explicar um problema para os jogadores ou fazer um ajuste tático que pode ser muito importante", opinou o técnico Carlo Ancelotti, logo após o empate na estreia da Copa do Mundo.
Algo que Deschamps, campeão do mundo com a França, também compartilha.
"Essas pausas para hidratação de três minutos permitem que você traga os jogadores para perto, e isso dá a oportunidade de ajustar algumas coisas em relação aos 22 ou 23 minutos de jogo que acabaram de acontecer", disse o comandante francês em entrevista coletiva.

Ele não negou, todavia, que a parada pode prejudicar o time que está à frente no placar, outra polêmica levantada pelo Hydration Break.
"Com as altas temperaturas, é importante dar essa oportunidade extra ao treinador. Isso é uma coisa boa — é um fato —, mas nos leva a dividir o jogo e, se você estiver em uma posição forte, após essa pausa você tem que começar a jogar novamente. Mas nós nos adaptamos a isso, inclusive em nosso trabalho de preparação nós já prevíamos isso", prosseguiu.
"Não são dois tempos, são quatro quartos. É o que temos, foi o que foi decidido, então os jogadores e os treinadores se adaptam a essa nova realidade, mas você ganha a chance de falar (com o time) mais duas vezes", concluiu.

A americanização do entretenimento no estádio
Mas se os técnicos ganharam uma prancheta viva no meio do tempo, a FIFA e o público ganharam uma arena de entretenimento digna da NBA, NFL ou NHL.
Para o torcedor local, acostumado com esportes dinâmicos e cheios de interrupções comerciais, o futebol corrido sempre foi visto com certa desconfiança por supostamente 'prender pouco a atenção' ou não propiciar um certo respiro para uma escapada para a compra de um snack, por exemplo. A FIFA entendeu o recado e moldou o hydration break ao gosto da casa.

Quando o jogo para, o show business entra em campo:
Batalha de decibéis: Os telões gigantes ganham vida com ativações clássicas das arenas americanas. O público é desafiado em tempo real: quem canta mais alto? Torcida A ou Torcida B? O "barulhômetro" incendeia o estádio.
Presença dos mascotes: Animações interativas com os rostos dos torcedores, filtros com a bola oficial e aparições dinâmicas dos três mascotes desta Copa (representando Canadá, México e Estados Unidos) transformam o telão em um feed de diversão hiperativa.
Show de luzes conectado: Uma das ativações mais impressionantes acontece na palma da mão. Através de um link/QR Code oficial da FIFA, os torcedores liberam o acesso à lanterna do celular. Em segundos, o estádio inteiro pulsa e pisca em sincronia com o sistema de iluminação da arena, criando um espetáculo visual impressionante.

Essas são algumas das interações promovidas nos estádios. As pausas, inclusive, são embaladas por músicas que inflamam os torcedores, a exemplo do que se viu no estádio Azteca, no México, na abertura da Copa.
Dois mundos: a estratégia comercial x a experiência real
Há, evidentemente, uma clara dicotomia nessa nova realidade. O hydration break é uma máquina comercial poderosa. Abre uma janela de ouro para marcas e anunciantes, preenchendo um espaço que o futebol nunca teve, o que gera críticas dos puristas que assistem de casa e se deparam com um bloco de comerciais no meio do primeiro tempo.
O The Wall Street Journal, por exemplo, informou que a Fox americana estava vendendo inserções publicitárias de 30 segundos durante as pausas para hidratação por cerca de US$ 200 mil (pouco mais de R$ 1 milhão) nos jogos da primeira fase, e em torno de US$ 750 mil (quase R$ 4 milhões) nas partidas da seleção dos Estados Unidos.

Com espaço para quatro comerciais por parada, são oito inserções disponíveis por jogo. Ao longo das 104 partidas da Copa do Mundo, abre-se uma janela de 832 comerciais potenciais. Em uma estimativa conservadora de US$ 300 mil (R$ 1,5 milhão) por espaço — sem contar os picos de audiência com a seleção americana —, a emissora pode faturar US$ 249,6 milhões (cerca de R$ 1,3 bilhão) apenas com os anúncios nesses intervalos.
Toda essa engenharia financeira, no entanto, caminha lado a lado com o sucesso prático da medida nos estádios. A pausa humanizou o esporte sob o calor escaldante, deu contornos de xadrez tático ao trabalho dos treinadores e transformou o "tempo morto" em uma espécie de catarse coletiva nos estádios.
O futebol pode até ter nascido na Inglaterra, mas nesta Copa, ele aprendeu definitivamente a falar a língua do show business americano. E o público, pelo visto, comprou a ideia.

A Copa do Mundo de 2026 será realizada de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções, 104 jogos e será disputado em 16 estádios.
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