Ao ser substituído, Wesley chorava no banco de reservas. Mesmo antes dos exames, já parecia saber o que provavelmente iria acontecer. O jogador conhece o próprio corpo melhor do que ninguém.
A especialista explicou como um jogador pode lidar com uma situação desse tipo, superar o trauma e de que forma isso pode impactar o futuro de sua carreira.

Entendendo o luto
Para a psicóloga, a primeira abordagem diante de um cenário como esse passa pelo acolhimento e pela validação dos sentimentos do atleta.
"O acolhimento a um atleta que sofre esse corte deve ser feito com muito respeito e legitimando a dor dele, sem oferecer positividade ou tentativa de tirá-lo desse momento.", afirma.
Segundo a especialista, perder uma Copa do Mundo às vésperas da estreia pode desencadear reações emocionais semelhantes às observadas em processos de perda. Negação, revolta, tristeza e, posteriormente, aceitação podem fazer parte da trajetória psicológica do atleta.
Michelle ressalta ainda que o trabalho não se limita ao jogador. O suporte à família também ganha importância, já que o sofrimento das pessoas próximas pode acabar influenciando a recuperação emocional do atleta.

Superando a frustração
A frustração tende a ser ainda maior quando se trata de um jogador jovem que investiu anos de trabalho para alcançar justamente aquele momento. Afinal, num piscar de olhos, Wesley passou da expectativa de disputar sua primeira Copa do Mundo para a necessidade de iniciar um processo de recuperação.
Para a psicóloga, a juventude pode representar simultaneamente uma vantagem e um desafio. "O jogador, por ser muito jovem, tem a vantagem de ter tempo para ainda realizar objetivos e sonhos. Por outro lado, o perfil de cada atleta pode determinar o tipo de reação que cada um terá nessa situação."
Ela destaca que a própria trajetória do lateral pode funcionar como ferramenta para superar mais esse obstáculo. "O atleta, que lutou muito, passou por dificuldades e tem a resiliência na sua trajetória, pode usar esses recursos para lidar com mais essa situação."

Ao mesmo tempo, Michelle faz questão de diferenciar sofrimento emocional de fragilidade mental. "É importante ressaltar que o atleta tem o direito de estar triste, frustrado e ter sua fase de desânimo. Não é isso que determina um atleta mais ou menos forte mentalmente."
Segundo ela, os sinais de alerta surgem quando essas emoções passam a comprometer a rotina, os relacionamentos e a própria percepção de identidade e capacidade do atleta.
Volta aos gramados
A preocupação psicológica também acompanha o retorno aos gramados. O medo de uma nova contusão ou o trauma associado ao momento da lesão podem acompanhar o jogador durante os primeiros jogos após a volta. "A confiança só se ganha vivendo, se expondo às situações", explica Michelle.
Para ela, a participação ativa do atleta em todo o processo de reabilitação ajuda a reduzir inseguranças futuras. "Participar de forma ativa do processo de recuperação, com conhecimento da lesão, das etapas, com percepção da evolução e com as metas estabelecidas e alcançadas, pode favorecer maior nível de confiança."
Técnicas de diálogo interno, visualização mental e estratégias de enfrentamento também costumam fazer parte do trabalho psicológico durante esse período.
Impacto no grupo
Além do impacto individual, a lesão de Wesley também atinge o ambiente coletivo da Seleção. A própria CBF destacou que o lateral era um dos jogadores mais queridos do grupo, enquanto diversos companheiros manifestaram apoio nas redes sociais.
Na avaliação de Michelle, esse tipo de situação produz efeitos em duas direções. "Uma lesão é sempre temida pelos jogadores e esse tipo de situação gera, sim, uma tensão."
Ao mesmo tempo, a especialista observa que o episódio pode fortalecer os laços internos da equipe. "A representatividade do atleta pode fazer surgir um movimento de união e força no qual aquele atleta cortado, simbolicamente, estará presente."
Ela faz, porém, uma ressalva importante: enquanto o grupo presta apoio ao companheiro que deixou a delegação, também precisa abrir espaço para quem chega.
"É necessário abrir espaço para o novo companheiro que irá substituir o Wesley, afinal ele também precisa de apoio e ser bem recebido para formar a equipe real."
A Copa do Mundo de 2026 será realizada de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções, 104 jogos e será disputado em 16 estádios.
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