A eletrizante vitória por 2 a 1 sobre a Inglaterra — mais uma virada para a conta desta seleção, sacramentada com um gol de Lautaro Martínez aos 47 minutos do segundo tempo — transformou a sala de imprensa em um cenário de pura contemplação. No centro de tudo, um homem que parecia enxergar além do óbvio: Lionel Scaloni.
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Se em campo o jogo parece ter se resolvido em um estalar de dedos, com uma reação avassaladora construída em cerca de sete minutos, a atmosfera na coletiva pós-jogo exalava o êxtase dos argentinos.
Havia uma sensação coletiva de que o impossível se tornou rotina sob o comando deste treinador. Diante dos microfones, a figura de Scaloni não era a de um comandante eufórico ou desafiador, mas a de alguém em estado de profunda serenidade, observando a obra que esculpiu nos últimos anos.
Por que "Epopeia"?
Durante a entrevista, o treinador foi questionado sobre como definiria mais aquela partida com contornos heroicos, já que o confronto anterior contra o Egito também havia sido definido como "épico". Enquanto Scaloni tateava as palavras em busca de uma termo adequado, um jornalista argentino arriscou: "Foi uma epopeia".
Com um sorriso leve, o técnico rebateu: "Epopeia pode ser uma boa palavra, mas foi você quem disse, não eu (risos)". A escolha não poderia ser mais cirúrgica.

O que Scaloni promoveu na seleção argentina é, de fato, uma epopeia moderna. Ele assumiu o cargo em 2018 em um cenário de terra arrasada. O pós-Rússia era um caos de bastidores na gestão de Jorge Sampaoli, onde rumores apontavam que lideranças como Mascherano ditavam as regras.
A Argentina vivia no limbo, trocando de técnicos constantemente — incluindo a passagem passional de Diego Maradona —, sem nunca conseguir encaixar o futebol ou pacificar o vestiário.
Scaloni não apenas resgatou o comprometimento e o alto nível dos atletas, como solucionou o maior enigma do futebol sul-americano recente: construiu um ecossistema tático perfeito, a famosa Scaloneta, que funciona em total harmonia e em função da genialidade de Lionel Messi.

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Diplomacia e o lado humano
Para além dos esquemas táticos e das alterações quase sempre cirúrgicas — que mostram uma capacidade de leitura de jogo tremenda —, o grande trunfo de Scaloni é a sua gestão humana. Ele é uma figura que impõe autoridade sem precisar levantar a voz. Quem já teve a oportunidade de vivenciar os bastidores da imprensa internacional e conversar com ele, sabe o quão solícito, tranquilo e acessível ele se mantém.
Há, inclusive, um forte traço diplomático em sua postura, especialmente no que diz respeito à rivalidade histórica com o Brasil. Scaloni nunca escondeu sua admiração pelo futebol brasileiro e por seus grandes craques.
Em mais de uma ocasião, o treinador chegou a declarar que, caso a Argentina fosse eliminada de um torneio, torceria abertamente pelo Brasil. Esse carisma desarmou qualquer hostilidade e o transformou em uma figura respeitada globalmente.
O clímax: o abraço coletivo
O ápice daquela coletiva de imprensa não veio de uma declaração bombástica, mas de um gesto de afeto puro. Antes de formular sua pergunta, um jornalista traduziu o sentimento de um país: "O desejo de cada jornalista aqui, e de toda a população argentina, era poder te dar um abraço".
O protocolo caiu por terra minutos depois. Assim que a entrevista foi encerrada, o repórter caminhou em direção a Scaloni e o abraçou. Em poucos segundos, outros profissionais de imprensa repetiram o gesto.

Uma cena raríssima no futebol profissional. Ali, naquele abraço coletivo, estava o agradecimento de uma nação que passou décadas sofrendo com jejuns e traumas, e que encontrou em um jovem treinador contestado o seu salvador. Para os argentinos, Scaloni assumiu os traços de um Messias tático.
À beira da imortalidade
Desde que caiu na semifinal da Copa América de 2019 para o Brasil, Scaloni basicamente transformou em ouro tudo o que disputou. Esta final contra a Espanha de Luis de la Fuente será a sua quinta decisão consecutiva no comando da Albiceleste (Copa América 2021, Finalíssima 2022, Copa do Mundo 2022, Copa América 2024 e, agora, a Copa do Mundo 2026).

A história do futebol argentino é pavimentada por gigantes. César Luis Menotti deu ao país a primeira estrela em 1978. Carlos Bilardo comandou a consagração de 1986. Dois estilos diferentes, dois técnicos históricos. Mas nenhum deles conseguiu o bicampeonato consecutivo.
Se vencer neste domingo (19), Lionel Scaloni se tornará, de forma isolada e sem margem para debates, o maior treinador da história da seleção argentina. O herói reservado, que prefere a calmaria à tempestade, está a apenas 90 minutos de colocar o ponto final na epopeia mais bonita do futebol moderno.

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