Exclusivo: "Corinthians foi um sonho realizado na vida", diz Marcos Senna, ex-Espanha

Marcos Senna (à direita) fez história com a seleção espanhola
Marcos Senna (à direita) fez história com a seleção espanholaJOE KLAMAR / AFP

O ex-meia Marcos Senna falou ao Flashscore nesta semana para relembrar sua conquista da primeira Eurocopa da Espanha, contar o que espera da seleção comandada por Luis de la Fuente para a Copa, e como foi o "sonho" de jogar no Corinthians.

O brasileiro naturalizado espanhol faz uma retrospectiva de sua carreira em uma conversa descontraída, que aborda seus primeiros passos no Timão até a histórica campanha na Champions League com o Villarreal.

Confira a entrevista exclusiva:

• Vamos começar pelo Corinthians. Quanto aquele período foi importante para você como jovem jogador? Você fez parte de um clube que conquistou o Brasileirão em 99 e o Mundial de Clubes em 2000. Aquele ambiente moldou sua mentalidade para o resto da carreira?

E você esqueceu de mencionar o título do Paulista também. Bom, o Corinthians foi muito importante para mim. Acho que foi um sonho realizado na minha vida.

Obviamente, quando um jogador começa a carreira profissional, ele sonha em chegar a um grande clube. E o Corinthians foi o primeiro grande clube em que joguei. Para mim, era um sonho naquele momento, as coisas aconteceram exatamente como eu sonhava quando era criança.

Ganhei o Brasileirão assim que cheguei, o Mundial de Clubes, disputei uma final de Copa do Brasil, que perdemos no Morumbi e foi muito difícil para a gente; e, por fim, também conquistei um Paulista.

Faltou conquistar uma Libertadores com o Corinthians, mas senti que naquele período dei um passo muito importante na minha carreira e fiquei muito feliz. Para mim, o Corinthians está para sempre no meu coração.

• O que você mais lembra do vestiário daquele Corinthians?

Era um vestiário com muita liderança, muita gente experiente, muitos anos de futebol e capitães como Freddy Rincon.

Tinha Vampeta, Marcelinho, Dida, Luisão, Edílson... e eu, como jovem recém-chegado, só queria aprender com eles. Na verdade, aprendi muito com aquele time e naquele momento. Eram muitas personalidades fortes juntas. 

Obviamente, tem o lado ruim quando se perde, mas felizmente encontrei um vestiário vencedor, onde os grandes nomes ensinavam os mais jovens. Sinceramente, foram dois anos muito bons e bonitos, e vou guardar para sempre.

Virando ídolo no Villarreal

• Quando você saiu do Brasil para o Villarreal em 2002, enxergou como um risco ou já sentia que poderia ser o passo que mudaria sua vida?

Eu sonhava em ir para a Europa. Obviamente, antes de chegar ao profissional, quando jogava nas categorias de base no Brasil, meu sonho era virar profissional. Acho que hoje em dia os meninos já sonham em virar profissional e, logo em seguida, ir para a Europa.

Eu queria chegar lá e ficar. Mas aí chegou um momento em que vi uma geração de jogadores começando a ir para a Europa. Em todos os sentidos, era esperado — esportivo, profissional e financeiro. Queríamos ir bem no clube e ir para a Europa. Comigo não foi diferente.

A ida para o Villarreal, claro, não era o sonho naquele momento porque o Villarreal não era um nome forte, mas eu queria ir. E principalmente para a Espanha. Com o Corinthians, fui para Corunha em um torneio de verão, o Teresa Herrera. O Boca estava lá também, tinha o Superdepor e o Celta.

Era verão, tinha praia. E eu adorei porque naquela época já acompanhava a LaLiga. Pensei: 'Nossa! Se eu já queria vir, agora quero ainda mais.' É verdade que quando criança eu acompanhava muito o campeonato italiano, mas o espanhol começou a crescer e passou o italiano. Meu sonho era vir para cá, e se realizou.

• Você ficou 11 temporadas no Villarreal e virou um dos símbolos do clube até hoje. O que fez esse vínculo entre você e o clube ser tão forte?

Bom, isso também não era esperado, porque como falei, o Villarreal era um time pouco conhecido e ainda estava crescendo. E até nisso posso dizer que tive sorte, porque participei desse crescimento.

A ideia era vir para o Villarreal, fazer uma ou duas boas temporadas e depois dar um salto para outro clube europeu. Mas não foi assim. O Villarreal continuou crescendo. Fui me identificando cada vez mais com o clube e com a cidade, me adaptando à comida e ao clima.

Era muito parecido com meu país de origem. E eu me sentia muito importante no clube, e o clube também me fazia sentir importante. Sempre me valorizaram muito em todos os sentidos. E quando você se sente à vontade... fica muito fácil fazer o que você faz de melhor, jogar bem, com a família feliz.

Então, tudo se encaixou e fiquei 11 anos no Villarreal. Agora, como diretor de relações institucionais, já estou aqui há 10 anos.

• Quando você começou a sentir que estava construindo algo especial?

A partir de 2004, porque foi quando chegou um treinador chamado Manuel Pellegrini, chileno, que trouxe uma metodologia diferente. Ele nos deu muita confiança porque por dois ou três anos tínhamos uma mentalidade de sobrevivência, sempre pensando 'vamos chegar a tal número de pontos e estamos salvos do rebaixamento. Depois, pensamos no ano seguinte.

Mas quando o Pellegrini chegou, claro, o elenco foi reforçado, mas já no primeiro ano conseguimos chegar à Champions League. Foi uma temporada fantástica. O lema dele era: 'Vamos jogar e competir, claro, mas vamos nos divertir.

Todo mundo achava que o Villarreal nem ia se classificar. Ficamos em primeiro no grupo, que tinha o Manchester United, e chegamos à semifinal. A partir dali, a mentalidade mudou, foi quando pensamos que dava para sonhar mais alto. E o Villarreal começou a ganhar nome no mundo, deixou de ser promessa e virou realidade.

Hoje seguimos com os pés no chão porque sabemos que somos uma cidade de 50 mil habitantes, mas com ideias muito claras, respeitando a história de todos. Mas a nossa é: primeiro, vamos buscar os pontos para garantir a permanência na elite.

Inclusive, no clube temos um brinde quando garantimos a permanência e depois, com o que sobra, vamos para as competições europeias. Fazemos isso há muitos anos e acho que é um clube com ideias muito claras, e gosto disso. Estamos à vontade, é uma família.

• Daquela temporada em que chegaram à semifinal da Champions League, o que mais te marcou?

Não consigo destacar só uma coisa porque, no fim, cada jogo deixou sua marca em mim. O frio na barriga que você sente, e ao mesmo tempo, a ansiedade de poder entrar em campo e mostrar para todo mundo que somos desconhecidos e pequenos, mas olha, somos um bom time.

E, além disso, estávamos ganhando jogos e empatando, e quando perdíamos era 1 a 0 e com luta. Não lembro dos resultados daquela época, mas lembro que ficamos em primeiro no grupo.

Guardo com carinho que conseguimos a primeira vitória contra o Benfica com um gol meu, o primeiro na Champions League, e com vitória. Na nossa primeira Champions, marcar um gol importante e vencer por 1 a 0 em Lisboa, isso é para a história.

• Com o tempo você virou capitão do Villarreal. O que significou para você usar a braçadeira sendo um jogador vindo do Brasil?

Isso é muito interessante, porque me considero sempre um líder dentro de campo, não um líder de falar muito. Na Espanha, o jogador que está há mais tempo no clube é o capitão. E lembro que em 2006 virei o mais antigo do elenco.

Me sentia um pouco estranho com a braçadeira, mas ao mesmo tempo feliz por ser capitão. Não sabia muito como lidar. Mas, enfim, não tinha muito o que falar sobre isso.

Obviamente, como disse, tentei liderar dentro de campo, jogando bem e dando exemplo fora dele. E assim fui me acostumando, e quando vi, já estava falando um pouco, motivando os companheiros, comunicando... e acho que aprendi esse lado de liderança sendo capitão no Villarreal. Fui capitão por seis anos.

Da LaLiga para a MLS

• Depois de tanto tempo e história bonita na Espanha, como foi encerrar a carreira nos Estados Unidos?

Eu também tinha outro objetivo, que era ter uma experiência fora do Villarreal para encerrar a carreira em alta. E foi nos Estados Unidos, porque eu também não conhecia. Queria ter essa experiência, e também em Nova York.

Fiquei dois anos lá, uma experiência incrível para meus filhos e minha esposa. Acho que no futebol não poderia pedir mais do que recebi. Obviamente, quando você trabalha e planta, no fim colhe.

Foi assim minha carreira e me sinto mais do que privilegiado. Se você me perguntar: 'O que faltou na sua carreira?' Talvez na época, algo que vou revelar aqui, jogar no Milan. Por quê? Porque era o time da moda e tudo mais.

Mas fora isso, tudo que sonhei quando criança aconteceu. Jogar Libertadores, jogar uma final de Libertadores, uma semifinal de Champions League, Copa do Mundo, Euro... O que mais eu poderia pedir? Nada.

 

O Villarreal terminou em terceiro lugar na LaLiga na última temporada
O Villarreal terminou em terceiro lugar na LaLiga na última temporadaFlashscore

• Você escreveu uma linda história com a Espanha, mas nasceu no Brasil. Quanto essa trajetória te marcou pessoalmente?

Falando de forma egoísta, sinto muito orgulho pelos momentos difíceis que passei na vida, no sentido de nunca ter desistido mesmo passando por situações muito complicadas. Eu poderia escrever um livro, aliás estou terminando um agora; depois te conto (risos).

Saí da favela no Brasil e acabei conquistando um título europeu com um país que não era o meu de nascimento. Quando isso aconteceu, passou um filme na minha cabeça. E uma voz dizia: 'Marcos, tudo isso é fruto do seu esforço.'

Então, aproveite esse momento. Você chegou ao topo e merece.' Mas, claro, é seguir como sempre, até hoje, com os pés no chão, sempre respeitando o adversário e os outros.

Campeão europeu com La Roja

• Você fez parte da seleção em 2006, quando jogou uma Copa do Mundo, e dois anos depois foi campeão da Euro. O que mais mudou entre 2006 e 2008? Foi confiança, maturidade ou mentalidade com o Aragonés?

Acho que não foi confiança, acho que foi mais o sistema, porque em 2006 lembro de um time que também tinha jogadores muito bons e muita personalidade. Jogaram partidas, principalmente na fase de grupos, que parecia que iríamos longe e no fim caímos, como contra a França em 2006.

Depois, em 2007, passamos por uma fase muito difícil: as eliminatórias, em que conseguimos a classificação no minuto 90. Mas a mudança de sistema em 2008 funcionou.

O futebol, como sempre digo, é questão de dinâmica. E se você pega uma geração boa de jogadores e uma boa dinâmica, é difícil não ganhar. E foi o que aconteceu em 2008. Pegamos uma dinâmica muito boa, com jogadores excelentes, e conseguimos ganhar a Euro.

• Você foi eleito um dos melhores jogadores da Euro 2008. Olhando para trás, você vê aquele torneio como o auge da sua carreira?

Acho que sim, em termos de mídia, sim, mas também pela dificuldade e por jogar contra os melhores. Então, o nível de dificuldade é muito maior. E se pensar no domínio com que a Espanha jogou... Depois ficou conhecida como a Espanha do 'tiki-taka', que era um prazer ver jogar.

Onde quer que eu vá aqui na Espanha, as pessoas ainda me reconhecem. Muitos dizem que fui o melhor jogador da Euro, e só posso agradecer. Por isso considero, no geral, o título mais importante da minha carreira.

• Quais semelhanças e diferenças você vê entre a seleção atual e a que foi campeã em 2008?

Acho que são muito parecidas. A única diferença é que agora é 2026, mas tem uma geração muito boa de jogadores. Acho que esse ano chegam como favoritas. Obviamente, Copa do Mundo é outra história, mas é inevitável, né? São 28 jogos de invencibilidade, mas agora chega a hora da verdade.

Para ganhar um torneio como a Copa do Mundo, que infelizmente não conquistei, embora tenha chegado perto, ou um torneio como a Euro que ganhamos, você tem que estar lá e contar com muita sorte para que os jogadores-chave não se machuquem e cheguem em boa forma.

Tem que focar nos detalhes para vencer, porque os melhores estão lá e se preparam no mais alto nível, e a Espanha está nesse nível de geração. A partir daí, acho que podem ir muito longe e até ganhar.

• Quem você acha que são os principais rivais da Espanha nesta Copa?

Costumo dizer os tradicionais. Sempre vão estar lá. Às vezes tem uma surpresa, que pode acontecer também. Esse ano é uma Copa do Mundo com mais seleções. Mas acho que a França chega muito forte, de verdade.

Depois, Brasil e Argentina sempre vão estar lá porque são fortes e têm jogadores muito bons. A Argentina chega como atual campeã. Ainda tem o Messi.

Vejo também a Inglaterra, que nos últimos anos, tanto na Euro quanto na Copa, vem chegando forte também. E aí, como falei, pode ter uma surpresa, talvez a Croácia de novo, Bélgica, Holanda... e nem citei a Alemanha.

Espero que vença a Espanha ou o Brasil.

• Com qual jogador da seleção espanhola atual você mais se identifica?

Tenho um amigo que é empresário do Pedri e do Ferran, e sempre que vou assistir a um jogo, costumo ver os dois e conversar com eles. São com quem mais me identifico, principalmente o Ferran, que é meu vizinho.