Exclusivo: Deschamps deverá assumir outra seleção após França, diz Desailly

Lenda da França, Marcel Desailly hoje trabalha na FIFA
Lenda da França, Marcel Desailly hoje trabalha na FIFAAlex MARTIN / AFP / AFP / Profimedia

Agora embaixador da FIFA, o ídolo francês Desailly revelou que os Estados Unidos "não são tão loucos" pela Copa de 2026 e que o técnico Didier Deschamps deve assumir outra seleção após deixar a seleção francesa.

O ex-zagueiro do Chelsea e Milan falou com exclusividade a Tolga Akdeniz, editor do Flashscore, às vésperas do inicío da campanha da França no Mundial.

Confira a entrevista com Marcel Desailly, natural de Gana, mas que fez 116 partidas pela França, conquistando a Copa de 1998 e a Eurocopa em 2000:

Desailly (D) com a taça da Copa do Mundo em 1998
Desailly (D) com a taça da Copa do Mundo em 1998PHOTOPQR/LA PROVENCE TEAMSHOOT / Newscom / Profimedia

• Vimos você em ação antes da Copa do Mundo como embaixador em sua função na FIFA. Quais são suas expectativas para esta Copa do Mundo em um continente onde o futebol não é o esporte principal?

Tenho muito orgulho de ser embaixador da FIFA porque ainda há muito a ser feito. Mesmo que o futebol seja o melhor esporte do mundo, ainda temos muito mercado para conquistar: Índia, China, Nova Zelândia, Austrália, América, Canadá, Tailândia. Não somos o esporte número um nesses lugares. 

Você tem quatro ou cinco esportes que estão à nossa frente, sabe, nos EUA. Tem basquete, futebol americano, basquete de novo, beisebol. Outro: hóquei, entende? Então é isso. É bom voltar pela primeira vez desde 1994. Ficamos longe dos EUA, e existe uma diferença real entre a percepção que temos e a realidade local.

A gente acredita que a Copa do Mundo é tudo. Mas, olhando mais a fundo, dá para perceber que nos EUA, a loucura pela Copa não é tão grande assim. Todos os estádios estão cheios, mas, no fundo, nas cidades dos Estados Unidos, não é aquela loucura toda.

Eles fizeram um bom trabalho. Criaram um novo sistema para vender ingressos online e permitir a revenda, então isso deu um impulso, sabe, um pouco no aspecto de receita. Mas existe uma missão real para Canadá e EUA de aumentar o interesse pelo futebol. Então, ter 48 seleções agora no sistema é bom e ruim ao mesmo tempo.

Dá acesso a mais jogos, para chamar mais atenção das pessoas. Você precisa saber que eu tenho um dado. O dado é que a exposição de cada partida da Copa do Mundo nos EUA, Canadá e México será equivalente ao Super Bowl nos EUA. Entende? Então é isso. Vai ser super exposto mundialmente, e estamos ansiosos por isso.

• Onde você colocaria a França entre os favoritos ao título neste momento?

Você viu o amistoso contra o Brasil. Você viu e sentiu que existe uma diferença de nível entre as seleções. E agora, com o Neymar de volta, talvez o Brasil suba de patamar. Mas a primeira impressão que todos temos é que a França tem um elenco incrível. Quando você olha para os jogadores que estão no time, não tem outra seleção que possa dizer que tem tantos jogadores poderosos assim.

A Espanha pode estar melhor. A Argentina é a atual campeã. Mas se o Didier (Deschamps) conseguir trazer uma organização tática para o time, a França vai ser novamente uma das melhores. Pode ter a surpresa de Portugal. Eu acredito que Portugal vai ser a surpresa do torneio, sabe? Porque, se você olhar bem, o tipo de jogador que eles têm é impressionante, em outro nível.

Eu realmente acredito que a individualidade que temos é excelente. E você não tem um problema com (Kylian) Mbappé. Todo mundo aceita que ele é o líder da seleção francesa, mesmo tendo (Ousmane) Dembélé, que é vencedor da Bola de Ouro. Então, depende. A França tem que jogar, Senegal... eles são os campeões da Copa Africana de Nações. Nunca podemos considerar que Marrocos é o vencedor.

A forma como você começa o primeiro jogo vai definir o resto do torneio, provavelmente porque não é um grupo fácil. Tem (Erling) Haaland, que está com a Noruega do outro lado. Se você começa mal e precisa jogar, tem a sorte de pegar o Iraque no segundo jogo.

Mas nunca se sabe, pode ficar pressionado para o segundo. Mas, felizmente, agora essa Copa do Mundo tem 48 seleções. Então, também tem a chance do melhor terceiro colocado passar com facilidade. Então, não tem medo. Você me pergunta, não tem medo. Existe a possibilidade da França vencer, mas pelo menos chegar à semifinal.

Estatísticas de Mbappé na LaLiga nesta temporada
Estatísticas de Mbappé na LaLiga nesta temporadaOscar Manuel Sanchez/ZUMA Press Wire / Shutterstock Editorial / Profimedia / Opta by StatsPerform

• Há muitos rumores sobre Zinedine Zidane possivelmente assumir a França após a Copa do Mundo. Você vê a chegada dele como uma continuidade do trabalho do Deschamps ou ele vai tentar algo diferente?

Acho que o Zidane fez um trabalho muito, muito bom no Real Madrid. Mas ele não teve uma oportunidade real de expressar sua filosofia. Acho que ele aproveitou o que o (Rafa) Benítez deixou antes dele, com os jogadores que trouxe para o time. Felizmente, ele trouxe seu próprio entendimento do jogo, e funcionou muito bem.

Na seleção, acredito que ele vai tentar muito e apagar a filosofia que o Didier implantou para colocar a dele. Tenho certeza que quatro ou cinco jogadores que são titulares com o Didier vão sair para dar espaço a uma filosofia diferente. Não foi anunciado oficialmente que será ele, mas parece que há uma grande chance.

Principalmente pelo fato de que o Zidane nunca quis assumir nenhum clube. O Chelsea ofereceu cheque em branco para ele treinar lá. Manchester United fez o mesmo quando estava com problemas. Times turcos também. Então, isso mostra que o Zidane realmente valoriza seu estilo de vida, entende?

Então ele precisa do espaço dele. E a seleção vai dar a ele o poder de voltar ao sistema. E, ao mesmo tempo, permitir que ele continue tendo uma boa qualidade de vida.

• Além das questões pessoais, que futuro você imagina para seu amigo Deschamps? Gostaria de vê-lo novamente à frente de um clube ou seleção

Acho que ele vai para outra seleção. Não vejo o Didier no dia a dia de um clube. Sabe, temos a mesma idade. Eu nasci em setembro, ele em outubro. Não vejo ele assumindo um clube. Ele vai, com certeza, pegar uma seleção.

• Você foi capitão da França no fiasco de 2002. Aquela derrota na estreia contra Senegal foi uma grande zebra e marcou o resto do torneio. Acha que esse jogo ainda estará na cabeça dos jogadores antes do duelo na Copa do Mundo, ou isso já ficou no passado?

Muitos dos garotos que estão no time hoje nem tinham nascido. Então, só a mídia e as pessoas ao redor podem lembrar disso, mas acho que eles são mais fortes do que isso, sinceramente. Eles vão lidar bem, mais do que pensar que é uma maldição e que vão repetir o resultado da França em 2002.

Havia outros fatores. Jogamos a partida de abertura. Éramos os atuais campeões mundiais, sabe. Também tínhamos vencido a Euro. Então, estávamos pressionados. A maioria de nós tinha 32 ou 31 anos. Não dá para comparar.

O jogo é o mesmo, mas é outra geração. Os senegaleses, com certeza, vão usar toda a alegria daquela vitória. Mas, do lado francês, é uma abordagem diferente. Mesmo que Senegal seja campeão africano, ainda acredito que isso não mexe com a cabeça desses jogadores.

É curioso, porque em 2002, quando fomos enfrentar Senegal, tínhamos os três melhores atacantes. (David) Trezeguet era artilheiro na Itália, Thierry Henry artilheiro na Inglaterra e Djibril Cissé artilheiro na França. Mas é isso.

• Como vê o desempenho de Costa do Marfim, Senegal  eGana, que contratou Carlos Queiroz pouco antes da Copa?

Eu gostava do técnico anterior (Otto Addo). Ele não teve sorte porque o time não foi bem nos amistosos. Mas acredito que o Queiroz vai trazer seu toque pessoal. Eu falo do sistema. Em Gana e em muitos outros países, o sistema é que às vezes o técnico precisa se adaptar ao que a diretoria e a administração pedem, entende?

Então o Queiroz vai lidar com sua própria sensibilidade. Ele entende de futebol. Tem experiência no futebol. Tem experiência real no futebol europeu ao longo dos anos. Então ele vai cortar um pouco dos egos. Na África, temos um problema com egos. Os jogadores mais velhos que estão no time, que já não rendem mais, mas continuam lá, e você não consegue tirá-los.

Tem jogadores muito bons que são titulares na Premier League e em outras ligas. Então espero que Gana esteja junto com Marrocos, Senegal e Costa do Marfim como surpresas desta Copa do Mundo. Temos 10 seleções africanas na Copa.

Então Gana pode ser uma das surpresas se começar muito bem, com confiança e uma boa filosofia do Queiroz, e eliminar tudo isso que falei antes: os egos e o problema dos jogadores mais velhos, aqueles que às vezes atrasam o desenvolvimento dos outros.

A Copa do Mundo de 2026 será realizada de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções, 104 jogos e será disputado em 16 estádios.

 

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• Semenyo fez uma temporada excelente na Inglaterra e parece pronto para assumir o papel de líder dos Black Stars. O que você espera dele na Copa do Mundo?

Ele é aquele jogador que, quando você está enfrentando dificuldades, com uma jogada, uma arrancada, pode manter Gana no jogo. É isso que esperamos dele. Ser disciplinado. Não se aproveitar porque você é jogador do Manchester City, é uma estrela, chega em Gana e se sente maior que a entidade e o time.

Então ele realmente precisa chegar com humildade e ser esse jogador decisivo que pode fazer a diferença. A questão é que ele precisa manter a disciplina, mesmo sendo jogador do Manchester City e uma das estrelas. Precisamos que ele seja um dos principais jogadores que, quando o time estiver em dificuldade, possa elevar o nível.

Eles não se classificaram para a Copa Africana de Nações, então a expectativa em Gana é muito alta, e também para os jogadores, que estão ansiosos para participar de uma competição internacional.

Semenyo deve ser peça-chave para Gana
Semenyo deve ser peça-chave para GanaNick Potts / PA Images / Profimedia

• Em 2007, você disse que queria comandar a seleção de Gana um dia. Isso nunca aconteceu, e você acabou não virando treinador. Tem algum arrependimento por isso?

Não, sinto que sou muito útil para o esporte e o futebol pelo que faço fora de campo. Sim, eu poderia treinar um time, 25 jogadores, meu nome nos jornais, mas acredito que o que faço hoje na minha vida – quase assumi a seleção de Gana, mas algumas escolhas de estilo de vida me impediram de aceitar o cargo.

Na minha terra natal, eu não queria que... no fim, você acaba sendo demitido. Você começa bem, mas no final sempre tem uma queda. Então não quis passar por isso na minha vida. 

Sou útil ao futebol dando minha experiência. Sou licenciado UEFA Pro. Trabalho na TV, o que me permite compartilhar minha experiência com a torcida, minha ONG, minha academia, a promoção que faço pelo mundo para aumentar o interesse pelo futebol.

O pequeno empreendedor que sou aqui em Gana, onde gerencio muita gente nos meus negócios.

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