Hinos nacionais: Quem inventou e por quê? Qual o efeito nos jogadores da Copa?

Técnico argentino Lionel Scaloni canta a plenos pulmões
Técnico argentino Lionel Scaloni canta a plenos pulmões REUTERS/Agustin Marcarian

A canção patriótica mais antiga da Copa do Mundo vem do século XVI, mas a moda só foi pegar na virada do século XIX para o XX. Qual o efeito dos hinos nos jogadores de futebol? E o que estas canções revelam sobre seus países?

Confira a seguir a origem, as curiosidades e a psicologia por trás dos hinos nacionais. 

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Quem começou a cantoria?

A adoção de símbolos para representar um país — bandeiras, hinos, cores, lemas, moedas, constituições — começou com os movimentos nacionalistas do século XIX na Europa Central e na América do Sul.

Lembremos que, até o final do século XIX, o mundo não trabalhava nem com passaportes. Os Estados nacionais eram novidades e aos poucos assumiram o protagonismo que já foi de clãs, tribos, reinos e feudos – muitos deles com seus próprios ícones.

Tais símbolos oficiais explodiram só depois da Primeira Guerra Mundial, e com as novas nações criadas durante a era pós-colonial.

O italiano Carlo Ancelotti aprendeu o hino da Seleção Brasileira
O italiano Carlo Ancelotti aprendeu o hino da Seleção BrasileiraREUTERS/Annegret Hilse

O Kimigayo, o hino do Japão, possui a letra mais antiga do mundo entre os hinos em uso. A letra foi escrita originalmente como um poema anônimo no período Heian (794-1185), mas a sua versão musical foi adotada muito tempo depois, em 1880.

Segundo o Guinness Book, o título de hino mais antigo do mundo pertence aos Países Baixos. O canto patriótico holandês "Wilhelmus" teve sua melodia escrita por volta de 1568, e foi oficializado como música nacional em 1932.

O primeiro país a ter hino nacional oficial, no entanto, é a França. Em 1795, a Primeira República Francesa adotou a “Marseillaise” como hino por decreto.

Já o hino mais jovem do mundo é o da Nigéria, estabelecido em 2024.

Para que servem os hinos?

Símbolos são usados pelas nações para "se diferenciarem umas das outras e reafirmarem os limites de sua 'identidade'", escreveu a pesquisadora Karen Cerulo no livro “Análise Empírica de Hinos Nacionais”.

Devido ao poder emocional da música, os hinos são considerados ferramentas poderosas para moldar comportamentos em diversas áreas, incluindo religião, política e guerra – pense num festival de metal, num jingle de um candidato a presidente, nos cantos evangélicos e nas marchas militares.

Quem não curte uma Marselhesa
Quem não curte uma MarselhesaREUTERS/Dylan Martinez

A música pode transmitir a identidade nacional de duas maneiras: a partir de uma perspectiva interna (sentimento de pertencimento e integração) e a partir de uma perspectiva externa (reconhecimento por parte de não membros). Por isso, eles caem tão bem em um jogo de Copa do Mundo.

Via de regra, os hinos foram escolhidos por uma elite ou líderes políticos e impostos na sociedade através de, entre outras práticas, cerimônias oficiais e do currículo escolar.

Curiosidades dos hinos da Copa

O ecossistema dos hinos da Copa de 2026 pode ser dividido em alguns grupos psicológicos:

1) Drama Latino

Os hinos de Brasil, Argentina, Uruguai, Colômbia e Equador partilham do mesmo DNA: a ópera italiana do século XIX. Quase todos foram compostos por músicos europeus ou locais fortemente influenciados pelo estilo teatral e grandioso de compositores como Rossini e Verdi.

São hinos longos, cheios de introduções instrumentais dramáticas, metais triunfantes e letras poéticas que narram a libertação das amarras da coroa espanhola (ou portuguesa, no caso brasileiro). O México segue a mesma cartilha marcial, alertando bem na linha do Brasil que "um soldado em cada filho te deu".

2) Europa contra Europa

É verdade que os países europeus que foram ex-metrópoles coloniais têm hinos marcadamente bélicos?

Em muitos casos, sim. Mas com uma ironia: a violência explícita dessas letras quase nunca foi escrita pensando em suas colônias ultramarinas, mas sim em seus próprios vizinhos europeus ou em revoluções internas.

O exemplo mais famoso é a Marseillaise, o hino da França. A letra é de uma agressividade assustadora para os padrões modernos, falando em "degolar filhos" e "regar os sulcos da terra com sangue impuro". No entanto, a música nasceu em 1792 como um canto revolucionário de guerra contra a Áustria e a Prússia, que tentavam invadir a França para sufocar a Revolução Francesa.

O mesmo vale para Portugal. "A Portuguesa" ruge em seu refrão: "Contra os canhões marchar, marchar!". Essa marcha militar não foi feita para subjugar colônias na África ou na América; ela nasceu em 1890 como um protesto nacionalista furioso contra um ultimato da Inglaterra (sua aliada de séculos), que exigia que Portugal retirasse suas tropas das terras entre Angola e Moçambique.

Já o hino holandês não é bélico, mas descreve a luta do Rei Guilherme em se desvencilhar da monarquia espanhola.

3) "Parabéns a Você" pós-Nazismo

A "Canção dos Alemães" tem uma polêmica à parte. Hino da Alemanha desde 1922, a peça foi composta em 1797 para o aniversário do imperador Francis II (sim, era basicamente um "Parabéns a Você"). A letra foi incluída em 1841 e virou hino apenas em 1922, após a queda da monarquia.

O problema foi que Hitler adotou de forma literal a parte que dizia "Alemanha sobre todo mundo". Por conta da propaganda nazista, em 1991 o hino foi editado, e apenas a tranquila 3ª estrofe permanece: "Unidade, justiça e liberadade para a pátria", pede a canção.

4) Desapego bucólico

Enquanto os latinos e os franceses cantam sobre sangue, glória e liberdade, os países do norte e centro da Europa preferem cantar para... a natureza.

O hino da Suécia (Du gamla, du fria) é uma ode poética aos vales, montanhas e ao sol do norte. A maior curiosidade? A letra nunca menciona a palavra "Suécia". É um hino ao território escandinavo. Na mesma linha, o hino da República Checa intitula-se literalmente “Onde é a minha pátria?” e passa o tempo todo descrevendo águas cristalinas e florestas floridas.

5) Hinos silenciosos

Dois países do Mundial possuem hinos 100% instrumentais:

España (Marcha Real): Uma marcha militar tão antiga que atravessou séculos sem que nenhuma letra ganhasse consenso político. Tentativas recentes (inclusive uma em 2008) falharam porque a população e os partidos não entram em acordo sobre quais palavras representam o país.

Bósnia e Herzegovina (Intermeco): Adotado em 1999 após a sangrenta guerra que dividiu a região. Para garantir que o hino não privilegiasse nenhuma das etnias do país (bósnios, sérvios e croatas), o governo decidiu abolir a letra. É a paz selada pelo silêncio.

6) A música mais sangrenta

O hino de Argélia (Kassaman) ganha o troféu de contexto mais extremo. Ele foi escrito em 1955 pelo poeta Moufdi Zakaria enquanto ele estava trancado em uma prisão colonial francesa. Sem papel ou caneta, ele raspou o próprio sangue na parede da cela para registrar os versos. É também o único hino do mundo que cita e ameaça diretamente outro país nominalmente: "Oh, França! O dia da prestação de contas chegou".

7) Minimalismo Japonês

No oposto das longas óperas sul-americanas, a letra do hino do Japão tem apenas quatro linhas e 32 caracteres. É uma oração minimalista para que o reinado do imperador dure até que "as pequenas pedras se tornem imensas rochas cobertas de musgo".

O que os hinos evocam nos atletas?

O impacto de um hino varia de acordo com suas estruturas acústicas, diz um estudo publicado ano passado pela Universidade de Jyväskylä, da Finlândia.

Os pesquisadores analisaram mais de 170 hinos nacionais, e dividiram os sentimentos que cada música provoca:

1) Orgulho e Felicidade

A grande maioria dos hinos mundiais está concentrada em um quadrante musical de força positiva e despertar de energia. Isso significa que a principal resposta que eles buscam é a felicidade e o entusiasmo – sentimentos que ajudam a estabelecer vínculos de pertencimento e união.

2) Urgência e Alerta nas Américas

Os hinos americanos utilizam muitas mudanças harmônicas, menor clareza tonal e instrumentações pesadas de metais e percussão. Essa combinação provoca nas pessoas uma sensação de urgência, combate, tensão e medo, que vem do passado marcado por guerras de independência.

3) Calma, Otimismo e Espiritualidade

Muitos hinos da Oceania funcionam essencialmente como hinos religiosos ou canções edificantes. Por utilizarem predominantemente o modo musical maior, eles provocam respostas de tranquilidade, contentamento e leveza. Da mesma forma, países do sul da África e sul da Ásia apresentam hinos com menor tensão acústica, gerando um tom emocional visivelmente mais calmo.

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