Quem é quem no Mundial: conheça a seleção da República Democrática do Congo

Jogadores do Congo comemoram a classificação para o Mundial, após vitória sobre a Jamaica
Jogadores do Congo comemoram a classificação para o Mundial, após vitória sobre a JamaicaSTRINGER/ANADOLU/AFP

Do ponto de vista histórico, um hiato de 52 anos. No presente, o impacto de um grave surto de ebola que vai impedir seus torcedores de viajarem para a América do Norte. A República Democrática do Congo, que ainda se chamava Zaire quando jogou a Copa do Mundo de 1974, carrega uma das trajetórias mais singulares do futebol africano.

Depois de bater na trave na classificação para as Copas da Rússia, em 2018, e do Catar, em 2022, os Leopardos finalmente conseguiram, depois de muito suor, uma vaga na Copa do Mundo de 2026. Na repescagem, derrotaram a Jamaica por 1 a 0 na prorrogação graças a um gol de Axel Tuanzebe, após um escanteio.

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Para o treinador francês Sébastien Desabre, que vai conduzir o time no Mundial, esta é apenas a primeira fase do projeto.

Informações da República Democrática do Congo na Copa do Mundo
Informações da República Democrática do Congo na Copa do MundoFlashscore

“Depois da Copa, vamos continuar nos aprimorando. Mas, antes disso, agora meu foco total é mostrar o que de melhor a República Democrático do Congo pode fazer", disse em entrevista, no momento em que anunciou os convocados.

Ainda nas Eliminatórias Africanas, a RDC esteve perto de despachar Senegal e obter a classificação direta. No jogo decisivo, em Kinshasa, abriu 2 a 0. Mas tomou a virada. A vaga na repescagem veio após os playoffs e as vitórias sobre Camarões (1 a 0) e Nigéria, com 4 a 3 nos pênaltis, após um empate em 1 a 1.

Pressão da ditadura

No Mundial jogado há mais de meio século na Alemanha Ocidental, o Zaire entrou para a história por motivos pouco felizes. Foi a primeira seleção da África Subsaariana a disputar uma Copa do Mundo, mas acabou eliminada na fase de grupos após três derrotas — para Escócia, Iugoslávia e Brasil.

Sofreu 14 gols e não marcou nenhum. Era a única representante africana naquele mundial. Hoje, são 10.

A imagem mais lembrada daquela campanha continua sendo a do defensor Mwepu Ilunga correndo a partir da barreira para chutar a bola para longe antes da cobrança de uma falta por Rivellino. Tratado com deboche na época, porque se achava que o jogador africano não conhecia direito as regras do jogo, aquele lance, com o tempo, passou a ser visto sob outro prisma.

O goleiro Muamba Kazadi, do Zaire, disputa a bola com o brasileiro Jairzinho na Copa do Mundo de 1974, na Alemanha. Brasil venceu por 3 a 0
O goleiro Muamba Kazadi, do Zaire, disputa a bola com o brasileiro Jairzinho na Copa do Mundo de 1974, na Alemanha. Brasil venceu por 3 a 0DPA/Picture-Alliance via AFP

Os jogadores estavam desesperados por causa da pressão do ditador Mobutu Sese Seko. O regime havia ameaçado os jogadores a nunca mais voltarem para casa se a seleção perdesse por quatro ou mais gols de diferença.

Como estava 2 a 0, Illunga queria ganhar tempo e forçar uma expulsão. O jogo estava perto do fim. O Brasil ainda fez mais um antes do apito final. E o limite não foi ultrapassado.

A Copa do Mundo de 2026 será realizada de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções, 104 jogos e será disputado em 16 estádios.

 

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Seleção da diáspora

Mobutu havia rebatizado a então República Democrática do Congo como Zaire, dentro de uma política que buscava apagar referências coloniais e promover uma identidade nacional africana, três anos antes daquela Copa. Após a queda de Mobutu, em 1997, o país retomou o antigo nome.

A atual RDC é herdeira direta daquele Zaire de 1974, mas a seleção que desembarca em Estados Unidos, Canadá e México em 2026 é muito diferente daquela que representou o país há cinco décadas. Grande parte do atual elenco foi formada fora do território congolês, reflexo da extensa diáspora criada ao longo das décadas.

Seleção da RD do Congo, em 2017, em partida pelas Eliminatórias Africanas contra a Tunísia
Seleção da RD do Congo, em 2017, em partida pelas Eliminatórias Africanas contra a TunísiaFETHI BELAID/AFP

A antiga colônia belga mantém fortes vínculos com a Bélgica até hoje. Milhares de congoleses migraram para o país europeu após a independência, criando comunidades importantes principalmente em Bruxelas e outras cidades. O resultado aparece claramente no futebol.

Diversos jogadores da seleção nasceram na Bélgica ou passaram pelas categorias de base do país europeu. Nomes como Joris Kayembe, Noah Sadiki, Théo Bongonda, Rocky Bushiri, Matthieu Epolo e Ngal'ayel Mukau são exemplos dessa conexão. Outros atletas importantes nasceram em países como França e Inglaterra, mas optaram por defender a terra de seus pais ou avós.

Essa característica faz da RDC uma das seleções mais representativas do fenômeno das "seleções da diáspora", em que atletas desenvolvidos em centros europeus escolhem representar suas origens familiares em competições internacionais. Em alguns jogos, uma parcela significativa dos titulares nasceu fora do continente africano.

Prévia de Mbemba na Copa do Mundo
Flashscore

Ebola barra torcedores africanos

O retorno à Copa, entretanto, acontece em meio a um contexto delicado. O país enfrenta um surto de ebola que gerou preocupações internacionais às vésperas do torneio. Embora a crise sanitária não tenha afetado diretamente a formação da equipe — já que a maioria dos atletas vive e atua na Europa —, ela provocou consequências importantes para a torcida.

Restrições de viagem impostas pelos Estados Unidos dificultaram ou impediram a entrada de muitos torcedores que vivem na República Democrática do Congo ou que estiveram recentemente no país. A situação levou a Federação Congolesa a pedir à FIFA soluções para os fãs que haviam adquirido ingressos e agora enfrentam obstáculos para acompanhar a equipe presencialmente.

Por causa do surto de ebola, torcedores que vivem no próprio país terão dificuldades de entrar nos Estados Unidos
Por causa do surto de ebola, torcedores que vivem no próprio país terão dificuldades de entrar nos Estados UnidosSTRINGER/ANADOLU VIA AFP

O resultado é uma situação incomum: a seleção consegue disputar a Copa praticamente sem impactos esportivos significativos do surto, mas uma parcela de seus torcedores encontra barreiras para estar nas arquibancadas. Por isso, o apoio à RDC nos estádios tende a vir majoritariamente da diáspora espalhada por Bélgica, França, Reino Unido, Canadá e Estados Unidos.

Yoane Wissa + 10

Pelo menos no papel, Yoane Wissa é o grande destaque da RD Congo. Após uma transação milionária do Brentford para o Newcastle no início da última temporada, o jogador nascido na França sofreu com uma séria contusão no joelho. E, agora, terá a missão de liderar o time democrático-congolês. 

O futebol coletivo demonstrado pela seleção africana nas eliminatórias e na Copa Africana de Nações é a principal assinatura do treinador Sébastien Desabre, considerado um dos técnicos mais experientes do futebol africano. Aos 49 anos, construiu praticamente toda a carreira no continente, passando por clubes e seleções de diversos países antes de assumir a RDC em 2022.

O francês Sébastien Desabre vai dirigir a RD Congo na Copa do Mundo
O francês Sébastien Desabre vai dirigir a RD Congo na Copa do MundoSIA KAMBOU/AFP

Desabre começou sua trajetória na França, mas ganhou destaque ao treinar equipes africanas como Espérance de Tunis e Wydad Casablanca. Seu primeiro grande trabalho em seleções foi com Uganda. Sob seu comando, a equipe alcançou as oitavas de final da Copa Africana de Nações de 2019, um resultado considerado expressivo para o país.

Na RD Congo, Desabre assumiu a missão de reconstruir uma seleção tradicional do continente que vivia um período de instabilidade. Seu estilo é baseado em organização tática, disciplina defensiva e transições rápidas para o ataque.

O treinador costuma priorizar o coletivo acima das individualidades. Desde sua chegada, os Leopardos recuperaram competitividade e fizeram uma campanha invicta nas eliminatórias da Copa Africana de Nações de 2025. 

A surpresa

Nascido na Bélgica, mas meio-campista do Lille, da França, o jovem de 21 anos Ngal'ayel Mukau pode ser uma das surpresas da República Democrática do Congo, principalmente por ser um dos motorzinhos do meio-campo. 

Consolidado no ataque dos Leopardos, Cédric Bakambu, do Betis, vem sendo um dos artilheiros do time dirigido por Desabre. Experiente aos 35 anos, marcou quatro vezes nas eliminatórias e deu duas assistências. 

Números do atacante Bakambu em LaLiga 2025/26
Números do atacante Bakambu em LaLiga 2025/26Flashscore

Jogos da RD Congo na Copa do Mundo 

17/6 (quarta-feira)

14h - Portugal x RD Congo (Estádio NRG, Houston, EUA) - CazéTV e Flashscore (comentários em áudio)

23/6 (terça-feira)

23h - Colômbia x RD Congo (Estádio Akron, Zapopan, México) - Globo, SporTV, CazéTV e Flashscore (comentários em áudio)

27/6 (sábado)

20h30 - RD Congo x Uzbequistão (Estádio Mercedes-Benz, Atlanta, EUA) - CazéTV

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