Quando Fabi Guedes assumiu o comando do Atlético-MG, em meio à disputa da Série A2 do Campeonato Brasileiro de 2025, o desafio era organizar a equipe e tentar conquistar o acesso.
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O que veio depois foi além do planejamento inicial: as Vingadoras voltaram à elite nacional, permaneceram na primeira divisão em 2026 e alcançaram as quartas de final da Copa do Brasil pela primeira vez. Uma trajetória que teve trabalho diário, mudanças internas e um grupo disposto a acreditar em um projeto de médio e longo prazo.
Em entrevista ao Flashscore, Fabi detalhou como conduziu essa transformação, falou sobre as limitações orçamentárias, a construção de um elenco competitivo e a responsabilidade de ocupar um espaço ainda pouco preenchido por mulheres no futebol. A técnica também deixou uma mensagem direta sobre o futuro da modalidade: “O futebol feminino não é uma causa. Se você não gosta da causa, não acredita na causa, dá espaço para quem quer.”
Primeiro passo foi organizar a casa
A mudança de patamar do Atlético começou antes mesmo da temporada de 2026. Fabi chegou ao clube durante a Série A2 de 2025 e encontrou uma série de processos que precisavam ser ajustados. O acesso, conquistado após a classificação diante do Vitória, antecipou uma etapa importante do planejamento e obrigou o departamento a acelerar a preparação para a elite.
“Eu cheguei na sexta para jogar na segunda, sem poder errar”, relembrou a treinadora, ao descrever o início do trabalho. Desde os primeiros dias, a mensagem para a comissão técnica foi clara: seria necessário trabalhar intensamente para resolver problemas enquanto a equipe continuava competindo.
A organização do departamento veio acompanhada da construção de uma identidade de jogo. Segundo Fabi, o Atlético passou a buscar um futebol agressivo, com iniciativa ofensiva e disposição para assumir riscos. A proposta também chamou a atenção da comissão técnica da Seleção Brasileira, que reconheceu o trabalho desenvolvido em Belo Horizonte.
A temporada de 2026 representou outro tipo de desafio. Com um elenco formado em boa parte por atletas jovens e recursos limitados para o mercado, o clube precisava se adaptar rapidamente ao nível de exigência da Série A1.
O resultado foi uma campanha de consolidação. O Atlético encerrou o Brasileirão na 13ª posição, com 16 pontos, sem terminar a competição na zona de rebaixamento. A permanência na elite, principal objetivo traçado para o ano, foi alcançada.

Quartas inéditas e uma equipe que aprendeu a competir
A campanha na Copa do Brasil acrescentou um capítulo importante à temporada das Vingadoras. Em julho, o Atlético venceu o Atlético-PI por 2 a 1, na Arena MRV, e garantiu uma vaga inédita nas quartas de final. Laura Maria e Pimenta marcaram os gols da classificação.
O avanço reforçou a percepção de que o time poderia competir além da missão inicial de permanecer na primeira divisão. Para Fabi, porém, a evolução não pode ser dissociada das condições de trabalho e da capacidade de desenvolver as atletas disponíveis.
A treinadora destaca que o elenco ainda está em formação. Há jogadoras que tiveram experiências diferentes na base, e essa diferença de percurso aparece durante uma competição longa. Oscilações fazem parte do processo, mas o objetivo é reduzir essas variações com treinamento, organização e continuidade.
A atacante Pimenta foi um dos principais destaques individuais da equipe no ano. Ela terminou a competição como artilheira do Atlético, com nove gols. O desempenho ofensivo ajudou a dar ao time uma referência em uma temporada de adaptação à elite.

Planejamento para 2027 começa pelo investimento
Se 2026 serviu para consolidar o Atlético na Série A1, o próximo passo é tornar a equipe mais competitiva. Fabi explicou que o planejamento para 2027 esbarra em uma questão central: a perspectiva de manutenção do orçamento, apesar do aumento da exigência esportiva.
A treinadora ressaltou que a próxima edição do Brasileirão terá quatro rebaixamentos, o que aumenta a importância de reforçar o elenco e evitar que a equipe volte a conviver com o risco de queda. Por isso, o clube busca alternativas para ampliar os recursos destinados ao futebol feminino, incluindo a possibilidade de um patrocínio específico para a modalidade.
A montagem do grupo também exige atenção. Parte das atletas que tiveram bom desempenho em 2026 estava emprestada pelo Flamengo e deverá retornar ao clube carioca. Ao mesmo tempo, o Atlético trabalha para manter jogadoras e buscar reforços que permitam dar um passo à frente sem comprometer o planejamento financeiro.
“Eu tenho que entrar no mercado bem assertivo, considerando a estrutura que tenho”, explicou Fabi, ao falar sobre a necessidade de fazer escolhas compatíveis com os recursos disponíveis.
A ideia é manter a base do projeto e elevar gradualmente o nível do elenco. Para a treinadora, a consolidação não acontece de uma temporada para outra, mas também não permite acomodação: o clube precisa evoluir continuamente para não perder o espaço conquistado.

Ex-atleta, treinadora e defensora de mais mulheres no futebol
A trajetória de Fabi ajuda a explicar a maneira como ela conduz o grupo. Antes de assumir o comando do Atlético, a ex-atacante passou por diferentes experiências como auxiliar técnica, período em que desenvolveu uma relação próxima com as jogadoras e aprendeu a lidar com questões que vão além do campo.
Ela considera essa vivência importante para a gestão do elenco, especialmente na construção de um ambiente de confiança. Ao mesmo tempo, reconhece que ser a treinadora principal traz uma responsabilidade diferente: as decisões finais passam por ela, inclusive quando é necessário deixar de fora atletas que vêm treinando bem.

A experiência como jogadora também influencia sua visão sobre o desenvolvimento profissional. Fabi defende que ex-atletas podem contribuir muito nas comissões técnicas, desde que tenham acesso à formação e encontrem oportunidades para iniciar e desenvolver a carreira.
“Quanto mais a gente precisa provar, mais a gente tem que buscar conhecimento”, afirmou, ao falar sobre a responsabilidade enfrentada pelas mulheres que ocupam esses cargos.
Para ela, a presença feminina precisa deixar de ser uma exceção. Isso passa pela persistência das profissionais, mas também pela disposição dos clubes em investir em planejamento, estrutura e comissões qualificadas.
A mensagem dialoga com o próprio trabalho realizado no Atlético. Em um período relativamente curto, o clube passou da luta pelo acesso à necessidade de se firmar entre as principais equipes do país. A campanha de 2026 não encerra a reconstrução das Vingadoras, mas estabelece uma base para o próximo desafio: transformar a permanência na elite em competitividade cada vez maior.
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