Embalado por uma onda de confiança, trabalho em equipe e muita crença, Curaçao contrariou as expectativas e surpreendeu o mundo do futebol em novembro ao garantir uma vaga na Copa do Mundo de 2026, tornando-se o menor país em população (cerca de 185 mil pessoas) a conquistar um lugar no principal torneio do futebol.
Confira o calendário da Copa do Mundo
O feito histórico gerou cenas de muita festa na ilha caribenha, com a maioria dos curaçauenses tomando as ruas da capital Willemstad para celebrar, e a Onda Azul sendo recebida como heroína.
O sonho distante de chegar à Copa do Mundo sempre esteve presente na mente do país, e um dos pioneiros da seleção e atual capitão, Bacuna, lembra com carinho do companheiro Jarzinho Pieter, que fez com que ele acreditasse que esse sonho de uma vida inteira um dia se tornaria realidade.
Infelizmente, o goleiro perdeu a vida de forma trágica antes de uma partida da Liga das Nações da Concacaf em 2019, mas a Onda Azul nunca o esqueceu, assim como seu amigo Leandro, que fez uma tatuagem em homenagem a Puru.
"A gente tinha um sonho, e eu lembro de um goleiro que tivemos em Curaçao, o nome dele era Jarzinho Pieter. Ele me disse no primeiro dia em que cheguei (em 2016) que a gente conseguiria chegar à Copa do Mundo. Fico muito triste que ele não teve a chance de viver todas as coisas lindas que passamos e conquistamos. Mas ele tem nos protegido e guiado em todo o sucesso que tivemos e vai estar olhando por nós na Copa do Mundo," diz Bacuna.
Uma trajetória de altos e baixos
Com Curaçao se preparando para fazer história na Copa do Mundo de 2026, os meses que antecederam o torneio foram turbulentos.
Dick Advocaat deixou o cargo de treinador em fevereiro por conta da saúde da filha, e Fred Rutten assumiu. No entanto, a condição da filha de Advocaat melhorou, e Rutten pediu demissão em 11 de maio para permitir o retorno do veterano. O holandês de 78 anos será o técnico mais velho da história das Copas do Mundo.
Apesar do período difícil, o DJ do vestiário, Bacuna, está mantendo o clima lá em cima entre os jogadores e o foco total no momento que pode mudar a vida do país. O experiente jogador vai liderar Curaçao como o atleta com mais jogos pela seleção (70 partidas), ao lado de Eloy Room.
"Estou muito feliz e venho me preparando mais do que nunca para a Copa do Mundo. Para mim, é uma grande honra ser capitão, e quero fazer o melhor possível para liderar meus companheiros e passar a experiência que tenho em alto nível", disse.
"No lado pessoal, tenho 34 anos, então já estou quase no fim da carreira; é como a cereja do bolo para mim. Sempre trabalhei muito para provar minha qualidade, e acho que eu como jogador e o país merecemos estar na Copa do Mundo porque acreditamos em um sonho e nosso sonho se realizou", contou.

Curaçao chegou à Copa do Mundo de 2026 encerrando uma campanha invicta nas Eliminatórias com um empate sem gols contra Jamaica em Kingston, sendo o time com mais gols marcados (13 gols) e a melhor defesa (3 gols sofridos) do Grupo B.
Depois disso, o capitão da Onda Azul está confiante na qualidade do elenco para competir com os adversários (Alemanha, Costa do Marfim, Equador) no Grupo E.
"A gente acreditou que poderia chegar à Copa do Mundo, e não foi sorte; ficamos invictos e estamos mantendo a mesma energia positiva de sempre. A gente não vai para a Copa do Mundo para perder, vamos mostrar nosso valor e fazer o melhor possível. Não temos medo de ninguém, claro que vai ser muito difícil, mas não temos medo de desafio", afirmou.
Inspirando jogadores do país
Antes de defender Curaçao, o meio-campista nascido em Groningen fez algumas partidas pelas seleções de base da Holanda, mas acabou optando por jogar pela Onda Azul no time principal.
Foi uma decisão que mudou sua trajetória e influenciou muitos outros jogadores de origem curaçauana a seguirem o mesmo caminho, incluindo seu irmão mais novo Juninho e o ex-ponta do Manchester United, Tahith Chong.
"Nasci e cresci em Groningen, e claro que joguei pela Holanda, mas no fim nunca cheguei ao time principal e então escolhi jogar por Curaçao, uma das melhores escolhas que já fiz, porque tudo é muito bom," diz Bacuna.

"Depois que entrei, muitos jogadores vieram juntos no começo, e eu nem sabia qual seria nosso papel como jogadores. Mas depois que começamos a ter bons resultados, nos classificando para grandes torneios, tudo ficou mais interessante para os outros jogadores", explicou.
"Eles puderam ver que tudo que estávamos fazendo estava começando a deixar o país orgulhoso, e aos poucos fomos conquistando coisas boas. Então, sim, tivemos um papel importante e continuamos assim para o futuro, e meu conselho é: você tem que sentir no coração para se juntar (a nós)", completou.
A Copa do Mundo de 2026 será uma oportunidade única para o mundo conhecer Curaçao, e o capitão espera ver muitos curaçauanos presentes nas arquibancadas, apoiando o time em Houston, Kansas City e Filadélfia.
As águas cristalinas do Caribe e as casas coloridas são os cartões-postais de Curaçao, mas Leandro está mais animado com o mundo conhecendo o calor humano do seu povo.
"Espero que quem tiver a chance de estar lá, com certeza vai estar. A gente ama futebol em Curaçao, e agora que nos classificamos, o pessoal vai vir de todo lugar para nos apoiar. Além disso, as pessoas vão ver e descobrir como o povo de Curaçao é legal e o quanto acreditamos em Deus, e que Ele vai nos guiar para conquistar grandes coisas", garantiu.
Se apaixonando pelo futebol inglês
Sem dúvida, Leandro Bacuna é o jogador de maior destaque do elenco. O atleta de 34 anos atualmente defende o Igdir FK, da Turquia, mas o meio-campista nascido em Groningen começou a carreira profissional no clube de sua cidade natal em 2009, antes de passar a maior parte da carreira na Premier League e Championship por Aston Villa, Reading, Cardiff e Watford.
"Sou sempre grato por todas as oportunidades que o Groningen me deu; eles fizeram o Leandro Bacuna. Claro que passei por muitos outros clubes, mas foi lá que tudo começou para mim, e eles acreditaram em mim," relembra Bacuna.
O versátil Bacuna, que pode atuar tanto na defesa quanto no meio-campo, ficou quatro anos na Eredivisie com os Verde-Brancos e chamou a atenção do Aston Villa de Paul Lambert no verão de 2013. Com apenas 21 anos, ele recebeu imediatamente a camisa 7 em Villa Park, e ao ser perguntado sobre a diferença de intensidade ao chegar na Premier League, Bacuna relembra em tom de brincadeira.
"Tudo que lembro do meu primeiro treino quando cheguei lá foi de um cara que deu um carrinho absurdo em mim. Fiquei em choque, pensei: 'O que está acontecendo, é só treino, calma!', mas não, esse foi meu cartão de visita", lembrou.
"Naquele dia, percebi que precisava elevar meu nível, e eu adoro um desafio. Então, encarei e fiquei 10 anos na Inglaterra, amando cada momento. É uma liga difícil, mas muito bonita, e a paixão, o desejo que o povo tem lá, é algo impressionante."
Ele ficou quatro temporadas completas em Villa Park, sendo três delas na Premier League, e fez 116 jogos. O lendário Jaap Stam ligou em 2017, quando comandava o Reading na Championship, e Bacuna passou o ano e meio seguinte no Madejski Stadium.
"É muito louco ter um técnico holandês na Inglaterra porque o jeito dele jogar era diferente, e dava para perceber logo de cara que era outro estilo, e tivemos sucesso com isso. Ele também era um grande treinador, junto com o auxiliar Said Bakkati na época," acrescenta Bacuna.
No último dia da janela de transferências de inverno de 2019, Bacuna foi para o Cardiff com o objetivo de ajudar o clube galês a se manter na Premier League. Infelizmente, os Bluebirds comandados por Neil Warnock não conseguiram evitar o rebaixamento, mas Cardiff sempre terá um lugar especial no coração de Leandro.
"Cheguei ao Cardiff quando ainda estavam na Premier League, mas fomos rebaixados, e depois significou muito para o Cardiff tentar voltar à Premier League. Fizemos uma boa campanha nos play-offs, mas perdemos para o Fulham, que subiu no ano seguinte," lembra Bacuna.
"Tive ótimos momentos lá. O povo do País de Gales é muito gente boa, um dos meus filhos nasceu em Cardiff, e é um lugar que nunca vou esquecer."
De volta à Holanda
Depois, fez uma última temporada na Championship pelo Watford em 2022/23 antes de retornar para uma segunda passagem pelo clube de sua cidade natal, Groningen, ajudando os Verde-Brancos a conquistarem o acesso da Eerste Divisie para a Eredivisie em 2024/25.
Com o capitão de Curaçao já nos momentos finais da carreira, ainda resta um sonho não realizado, mas ele tem esperança de concretizá-lo antes de pendurar as chuteiras.
"Ainda tenho um grande sonho na minha carreira, que é jogar no mesmo time de futebol que meu irmão mais novo (Juninho), mas estou muito feliz onde estou agora. Esse é um dos meus sonhos antes de me aposentar, mas no momento estou bem fisicamente e sigo firme, então vamos ver o que o futuro reserva," conclui.
