Desta vez, a maior possibilidade parece estar na referência ofensiva da equipe, ao contrário do que ocorreu em Copas anteriores, como em 2002.
Veja a convocação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo
Na campanha do penta, Ronaldinho Gaúcho, que tinha apenas três jogos como titular nas Eliminatórias daquele ciclo, assumiu a vaga na reta final e começou cinco partidas da Copa do Mundo entre os titulares. Marcou, inclusive, um gol de falta antológico contra a Inglaterra, pelas quartas de final, antes de ser expulso no segundo tempo.

Agora, mirando 2026, Igor Thiago é outro nome sem tradição com a camisa amarela que pode surpreender com uma eventual titularidade no Mundial.
Convocado para os amistosos contra França e Croácia, o atacante do Brentford marcou um gol diante dos algozes do Brasil na última Copa, mas nunca atuou pela Seleção em jogos por competições oficiais.
Há outros nomes, como Endrick, que ainda não balançou a rede em partidas oficiais pela Seleção, apesar dos gols nos amistosos contra Inglaterra, Espanha e México. Dinâmico, ele pode até deixar de atuar aberto pela direita para ser utilizado mais centralizado.

As “surpresas” da Seleção desde 2002
À medida que o relógio avança rumo a mais uma Copa — e o Brasil segue sem levantar a taça desde 2002 —, uma sombra paira sobre a Granja Comary: a falta de um “paraquedista” capaz de mudar o destino da seleção.
Desde o penta, o Brasil parece ter perdido a capacidade — ou a ousadia — de apostar em um talento disruptivo que, mesmo sem protagonismo durante todo o ciclo eliminatório, chega ao Mundial para reivindicar espaço entre os titulares.
O último grande exemplo dessa metamorfose ocorreu há mais de duas décadas. Em 2002, o Brasil viveu um ciclo turbulento, marcado por trocas de técnicos e uma classificação sofrida. Foi nesse cenário que Ronaldinho Gaúcho atropelou a hierarquia.

Embora já fosse observado de perto, o então jovem jogador, que havia saído de forma conturbada do Grêmio para o PSG em 2001, não era o protagonista absoluto da constelação de Luiz Felipe Scolari.
Sua explosão técnica nos meses anteriores ao torneio, porém, tornou inevitável sua ascensão. Ronaldinho não apenas garantiu vaga, como desbancou Juninho Paulista, então camisa 10 e homem de confiança do treinador, para formar o lendário “Trio R”.
O resultado foi o pentacampeonato, coroado pela atuação histórica contra a Inglaterra.
De Mineiro a Vini Jr.: os paraquedistas que não decolaram
Desde então, a história das convocações brasileiras passou a ser marcada por “paraquedistas” que, na prática, mal abriram seus paraquedas.
Em 2006, Mineiro foi chamado às pressas para substituir Edmílson, mas não saiu do banco. Em 2010, Dunga surpreendeu o país ao convocar Grafite, deixando de fora nomes como Adriano Imperador. O atacante do Wolfsburg, no entanto, jogou apenas seis minutos na África do Sul.
A principal surpresa daquele ciclo acabou sendo Michel Bastos. Sem ter disputado partidas oficiais pela seleção nas Eliminatórias, o lateral-esquerdo foi titular nos cinco jogos do Brasil na Copa.

Em 2014, Henrique foi o escolhido de Felipão para compor a reserva da zaga, entrando em campo apenas para “queimar tempo” em uma substituição tática.
Quatro anos depois, na Rússia, a surpresa apareceu novamente no setor defensivo. Thiago Silva virou titular na reta final das Eliminatórias — com apenas dois jogos iniciando entre os 11 — e, na Copa, tomou a posição de Marquinhos até a eliminação para a Bélgica.
Mais recentemente, em 2022, Gabriel Martinelli e Pedro surgiram como novidades no fim do ciclo, mas permaneceram como opções de segundo tempo. O verdadeiro “coelho na cartola” de Tite acabou sendo Vinícius Júnior.
O atacante havia disputado apenas seis partidas das Eliminatórias, sendo três como titular, mas assumiu a vaga no Mundial após a mudança tática feita às vésperas da competição. Fred saiu do meio-campo, Lucas Paquetá recuou, e Vini Jr. ganhou espaço para atuar mais avançado.

Ancelotti terá coragem de repetir 2002?
A diferença fundamental entre Ronaldinho e seus sucessores como surpresas está no impacto. Enquanto ele entrou para ser a engrenagem criativa que faltava ao time, os nomes posteriores foram convocados para preencher lacunas ou recompensar boas fases em seus clubes, sem ameaçar de fato a espinha dorsal da equipe titular.
O Brasil passou a priorizar a “família” e o entrosamento de longo prazo, muitas vezes em detrimento de talentos emergentes de última hora.

Agora, sob o comando de Carlo Ancelotti, o dilema se repete. O treinador italiano, conhecido pela gestão de elenco e pelo olhar clínico para talentos, enfrenta um ciclo com nomes promissores ainda em busca de espaço nas convocações oficiais.
A pergunta que ecoa é se Ancelotti terá coragem de romper com o conservadorismo das últimas décadas. Rodrygo e Estêvão, machucados, ficaram pelo caminho. Enquanto Neymar parece não ter mais estofo para ser o protagonista.
