Com uma avassaladora Espanha como adversária, a Turquia terminou as Eliminatórias Europeias na 2ª posição do Grupo E, com 13 pontos, 3 atrás de La Roja.
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Os turcos precisaram atravessar a tensa repescagem para cravar sua vaga na Copa do Mundo. Dois resultados apertados de 1 a 0 — sobre Romênia e Kosovo (fora) — foram suficientes para que o time comandado pelo técnico Vincenzo Montella carimbasse o passaporte para o Mundial.
O herói da classificação foi Kerem Aktürkoglu. O atacante mostrou oportunismo para encerrar a fila histórica e quebrar a sina de uma seleção turca sempre muito técnica e perigosa, mas que vinha falhando em se impor nas Eliminatórias. Pode não ter sido o jogo mais vistoso, mas todas as decepções que cercavam a Turquia ficaram para trás com aquele único gol.
O apito final foi a confirmação de um novo tempo, liderado pela experiência de Hakan Çalhanoglu e pelo talento de jovens como Kenan Yildiz e Arda Güler. Aliado à paixão imensurável de sua torcida, a Turquia é uma seleção que merece toda atenção na América do Norte.

Além disso, pode ser um bom presságio para a Seleção Brasileira. Afinal, na última e surpreendente aparição turca em Copas, o pentacampeonato foi celebrado. A Turquia cruzou o caminho verde-amarelo em duas oportunidades no Mundial de 2002, incluindo uma apertada semifinal decidida com um gol de bico de Ronaldo, logo no início do segundo tempo.
Para conhecer mais sobre a seleção da Turquia e a experiência de atuar no futebol local, o Flashscore conversou com o ex-zagueiro Edu Dracena, que defendeu as cores do Fenerbahçe de 2006 a 2009. Foram exatos 100 jogos pelo clube turco, com cinco gols marcados e dois títulos conquistados: a Süper Lig de 2006/07 e a Supercopa da Turquia em 2007.
Como joga a seleção da Turquia?
A Turquia chega em plena forma, após disputar jogos decisivos entre as Eliminatórias e a repescagem europeia desde setembro de 2025. Neste intervalo, as Estrelas Crescentes entraram em campo oito vezes e sofreram apenas uma derrota.
Embora esse revés tenha sido doloroso — um 6 a 0 da Espanha —, a equipe mostrou resiliência ao embalar uma sequência de seis jogos de invencibilidade, com cinco vitórias e um empate. No caminho, os turcos ainda golearam a Bulgária por 6 a 1, dando uma resposta imediata logo após o tropeço frente a La Roja.
Antes, a seleção turca chegou às quartas de final da Euro 2024, sendo eliminada pela Holanda, e garantiu o retorno à primeira divisão da Liga das Nações ao derrotar a Hungria pelo placar agregado de 6 a 1.
Sob o comando de Vincenzo Montella, a equipe consolidou um estilo de jogo que equilibra a tradicional combatividade do futebol turco e uma transição agressiva. A Turquia é um time que se sente confortável em ceder a posse de bola para atrair o adversário e feri-lo nos contragolpes. É uma equipe que não apenas compete, mas que aprendeu a reagir às adversidades.

Quem conhece bem os alicerces desse estilo é o ex-zagueiro Edu Dracena, que viveu o auge do futebol local no Fenerbahçe. Para ele, a volta da seleção ao cenário mundial resgata a essência competitiva do país.
"O futebol turco é muito competitivo e baseado na força física. Após a campanha de 2002, quando terminaram entre os quatro melhores, criou-se uma expectativa enorme no país. Infelizmente, as coisas não aconteceram como imaginaram e faltou sequência em Mundiais", analisa.
"Estar de volta acrescenta demais à visibilidade da liga local, provando que o campeonato turco é difícil. Agora, a seleção não chega à Copa como favorita, mas acredito que pode surpreender seleções importantes com um futebol convincente e jovens de potencial. Copa do Mundo é 'tiro curto'; as equipes se preparam muito bem, todos se estudam e conhecem as deficiências e pontos fortes uns dos outros. Acredito que a Turquia possa chegar o mais longe possível", acrescenta o ex-zagueiro e hoje comentarista.
Com essa mescla de vigor físico, jovens talentos e uma estratégia de jogo clara, os turcos deixam de ser apenas figurantes para se tornarem um adversário indigesto.
Quem é a principal estrela da seleção da Turquia?
É impossível falar da atual ascensão turca sem citar o talento de Arda Güler. Aos 21 anos, o meia vive sua temporada de afirmação definitiva no Real Madrid, acumulando 50 jogos — 40 deles como titular —, com seis gols e 14 assistências.
Esse desempenho de elite se reflete diretamente nas Estrelas Crescentes: durante as Eliminatórias, Güler foi o regente do setor ofensivo em sete partidas, contribuindo com um gol e quatro assistências fundamentais para a classificação.

Para Edu Dracena, o sucesso de Güler em um dos maiores clubes do mundo é o que baliza a confiança no desempenho da seleção.
"A gente sabe que esses jogadores, quando chegam em grandes times europeus, chegam porque têm qualidade. Você vê o talento do Arda, um atleta jovem, de meio-campo, que finaliza muito bem e, com certeza, é o rosto desta Turquia", destaca.
Segundo Dracena, a presença de talentos que atuam nos grandes centros da Europa é o diferencial que eleva o teto competitivo da equipe de Vincenzo Montella.
Taticamente, Güler é o elo que transforma a "força física" e a "combatividade" citadas por Dracena em perigo real de gol. Em uma seleção que aposta em transições agressivas e contra-ataques, o jovem madridista funciona como a mente criativa capaz de dar o passe final sob pressão.
Como define o ex-zagueiro: "É uma seleção jovem, de atletas que chamam a atenção, e isso vai refletir bastante no desempenho".

Quem pode surpreender?
Outro jovem talento que chega com potencial para estourar na Copa é Kenan Yildiz. Aos 21 anos, o camisa 10 da Juventus vive uma fase de afirmação estatística rara: vem de duas temporadas consecutivas com duplos dígitos em gols (12 e 11, respectivamente) e demonstrou uma evolução notável no papel de garçom, elevando sua marca de sete para nove assistências no último ano.
Esse faro ofensivo foi transportado para as Eliminatórias, onde ele se consolidou como o principal artilheiro da Turquia, com três gols. Para Edu Dracena, o sucesso de nomes como Yildiz e Güler em gigantes europeus é o sintoma de uma mudança de patamar competitivo.
"São jogadores jovens, mas que ao mesmo tempo acumulam experiência por atuarem em grandes ligas. Jogadores que jogam Champions League e estão sempre enfrentando os melhores. Isso é uma evolução do futebol turco", observa o ex-zagueiro.

No entanto, Dracena ressalta que o brilho do camisa 10 da Juventus só atinge seu ápice porque encontra respaldo em um sistema organizado.
"Eu vejo o conjunto da seleção turca como mais forte que o individual. É claro que o individual acaba sobressaindo, mas se você não tiver um conjunto, esse talento acaba não influenciando", pontua Dracena.
Sob essa ótica, o sucesso de Yildiz é o reflexo de um grupo que parece ter deixado o ego de lado em prol do objetivo comum.
"Vejo que o coletivo está bem consistente. No futebol tudo pode acontecer; se a seleção se une, sem vaidade, as coisas fluem dentro de campo", conclui o ex-jogador.

Hakan Çalhanoglu: a liderança turca
Se de um lado brilha a juventude de Güler, do outro impõe-se a experiência de Hakan Çalhanoglu. O meia da Inter de Milão é a grande referência técnica e a voz do vestiário da seleção turca, somando 104 jogos e 22 gols pelas Estrelas Crescentes.
No futebol italiano desde a temporada 2017/18, quando chegou ao Milan, o jogador protagonizou uma das transferências mais marcantes do país ao "pular o muro" em 2021/22 para defender a Inter.

Pelos nerazzurri, Çalhanoğlu atingiu o ápice de sua maturidade, acumulando mais de 200 jogos, 50 gols e 38 assistências. Sob o comando de Simone Inzaghi, ele se reinventou como um volante de construção e se tornou o pilar de uma equipe que empilhou sete troféus, incluindo o recente e dominante título da Serie A italiana.
Sua importância para a Turquia em 2026 vai além dos números. Enquanto os jovens talentos garantem a verticalidade, Çalhanoglu é quem dita o ritmo, organiza a saída de bola e oferece a precisão cirúrgica em bolas paradas — uma arma letal em torneios de tiro curto, como destacou Edu Dracena.
Além disso, ele oferece o controle mental necessário em partidas tão tensas, como as de uma Copa do Mundo.

Como é vivido o futebol na Turquia?
Dentre os companheiros de time, Dracena teve o privilégio de atuar ao lado de ícones geracionais como Roberto Carlos, Alex, Diego Lugano, Maldonado e Deivid. Além deles, contou com Rüstü Reçber — goleiro que defendeu a Turquia na Copa de 2002 — e o brasileiro naturalizado Mehmet Aurélio, que adotou este nome ao obter a cidadania e vestiu a camisa da seleção turca em 37 oportunidades.

Na temporada 2007/08, o Fenerbahçe alcançou as quartas de final da Champions League, sendo eliminado pelo Chelsea — esta é até hoje a melhor campanha da equipe na história do torneio continental.
Dracena formava a dupla de zaga titular ao lado de Lugano, sob o comando de ninguém menos que Zico — o maior ídolo da história do Flamengo e uma das maiores lendas do futebol mundial.
Essa era de ouro serviu para o ex-zagueiro mensurar a temperatura do futebol no país.
"Foi um privilégio muito grande. Quando eu cheguei, fui recebido com o carinho da torcida já no aeroporto. Ali já deu para sentir o tamanho que é jogar em grandes clubes turcos", recorda Dracena.
"É uma experiência única, só quem viveu sabe como é jogar nos estádios de lá, principalmente na grandeza de clássicos contra Galatasaray, Besiktas e Trabzonspor. O torcedor turco é fanático pelo futebol e pelos brasileiros. É um povo totalmente carinhoso e receptivo."

No entanto, se a paixão nas arquibancadas nunca esfriou, o planejamento em campo enfrentou obstáculos que explicam os 24 anos de ausência em Mundiais. Para Dracena, o excesso de contratações estrangeiras em detrimento da formação de atletas criou um vácuo de talentos.
"Acho que faltou o trabalho de base. Muitos clubes contratam fora e acabam não dando oportunidade para os jovens. Teve esse gap de 2002 para cá em que a Turquia patinou, não revelando jogadores para sustentar o time principal", analisa.
O cenário para 2026, contudo, é de retomada. A seleção que desembarca na América do Norte é o fruto de uma correção de rota: a aposta em jovens que, mesmo formados em outros centros europeus, trazem o frescor técnico que a base local negligenciou.
"Agora eles estão retomando, com jogadores que são destaques em outros centros", conclui o ex-defensor.
Se o fanatismo das arquibancadas de Istambul encontrar eco no talento de sua nova geração, a Turquia tem tudo para, enfim, reencontrar o protagonismo que o mundo conheceu em 2002.

Agenda da Turquia na Copa do Mundo
14/6 (domingo)
1h - Austrália x Turquia (BC Place - Vancouver) - Globo (TV aberta), Sportv (TV fechada), CazéTV (YouTube) e Globoplay (streaming)
20/6 (sábado)
1h - Turquia x Paraguai (Levi's Stadium - Santa Clara) - Globo (TV aberta), Sportv (TV fechada), CazéTV (YouTube) e Globoplay (streaming)
25/6 (quinta-feira)
23h - Turquia x Estados Unidos (SoFi Stadium - Los Angeles) - CazéTV (YouTube)
