Uma outra façanha, em 2007, teve um brasileiro como protagonista. O técnico Jorvan Vieira levou a seleção iraquiana ao título inédito da Copa da Ásia — até hoje o único — em meio às ruínas da guerra causada pela invasão dos Estados Unidos.
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Ídolo nacional no Iraque, Vieira conversou com o Flashscore para contar o que mudou entre sua geração e a atual, explicar os impactos da guerra na formação do elenco e analisar como a seleção chega à Copa do Mundo de 2026.
"Eles estão em um grupo muito difícil, já pegam uma candidata ao título. A glória é a participação. Não acredito que o Iraque vá surpreender como a Arábia Saudita, que ganhou da Argentina no Catar. Para eles, essa classificação é como se tivessem ganhado o Mundial, principalmente devido ao tempo longo fora", afirma Jorvan Vieira.
O Iraque está no Grupo I, ao lado de França, Senegal e Noruega. Se a vaga no mata-mata parece distante, a seleção sonha ao menos com o primeiro ponto em Copas, já que perdeu todos os três jogos em 1986.
"O futebol é decidido dentro do campo. Tudo é possível. São 11 contra 11. A gente fala aqui da boca para fora e depois queima a língua", pondera Vieira.

Estilo de jogo do Iraque
O Iraque se classificou para a Copa do Mundo no 4-4-2, mas Jorvan Vieira acredita em uma mudança para o torneio. A seleção árabe deve se adaptar aos adversários e apostar em uma formação conservadora para se defender.
"É uma equipe que joga num 4-4-2, mas tenho certeza que vai jogar num 4-5-1 quando chegar no Mundial. Vai ser completamente diferente, porque vão se resguardar. Podem até jogar num 5-4-1", prevê o treinador campeão em 2007.

"Às vezes nem é pelo nível técnico ou tático. Há um receio que já vem naturalmente do atleta. Por mais que o treinador diga 'vamos para o 4-3-3', eles se reúnem lá: 'Vamos fazer um 4-3-3 mandrake, vamos nos fechar atrás, porque quanto menos gols levarmos, é melhor para a gente'", acrescenta.
O técnico do Iraque é o australiano Graham Arnold, no comando há um ano. Curiosamente, Arnold esteve no caminho de Jorvan Vieira na Copa da Ásia de 2007. Ele treinava a Austrália que levou 3 a 1 dos iraquianos na fase de grupos, quando o título ainda era um sonho distante.

Filhos da guerra
Dos 23 jogadores que garantiram a vaga do Iraque na Copa, só oito atuam no país. O resto se divide entre ligas árabes mais fortes e polos alternativos da Europa, como Polônia, República Tcheca, Chipre e até terceira divisão da Inglaterra.
"São campeonatos secundários, mas são jogadores úteis para a seleção, porque já têm uma experiência completamente diferente de jogar o Campeonato Iraquiano. São muitos jogadores que nasceram nesses países porque os pais emigraram do Iraque", conta Jorvan Vieira.
"Muitos deles não falam nem árabe. Ou é o inglês, ou é a língua alemã, da Dinamarca, do Chipre, e por aí vai. É uma seleção mista, vamos dizer assim."

A "seleção mista" citada por Vieira é um reflexo claro da Guerra do Iraque, pois o número de atletas nascidos em outros países é bem maior entre os mais jovens. Um dos talentos é Zidane Iqbal, que começou a vida em Manchester, na Inglaterra, e hoje atua no Utrecht, da Holanda.
A situação era bem diferente na época de Jorvan: todos os campeões de 2007 nasceram no Iraque. E quando não atuavam no campeonato local, o raio se limitava a países árabes.
A estrela
A referência do Iraque é o atacante Ayman Hussein. Foi dele o gol que garantiu a vaga na Copa do Mundo, contra a Bolívia. É um dos capitães da seleção e atua no futebol local, pelo Al-Karma, mas já passou por Marrocos, Catar e Tunísia.
Apesar de ter 30 anos e ser um dos mais experientes do grupo, Hussein também carrega os traumas da guerra. O pai dele foi morto em um ataque do Al-Qaeda, em 2008; o irmão, sequestrado pelo Estado Islâmico em 2014 — e segue desaparecido.

"É um jogador voluntarioso, um leão. Teve uma série de dificuldades para poder jogar futebol, lutou muito para chegar aonde chegou. Além de tudo é um dos capitães, um líder nato, e todo mundo segue a linha dele", relata Jorvan Vieira.
"É um jogador que vai aparecer no Mundial mesmo num grupo forte. Eu sei que ele vai dar trabalho", aposta.

Torcida fanática
A vaga na Copa do Mundo já foi motivo de grande comemoração para os iraquianos, com direito a desfile da seleção em carro aberto. E a festa deve ser ainda maior no torneio, independentemente dos resultados.
"O povo iraquiano é louco pelo futebol. Eles vivem o futebol. Respiram, bebem, comem o futebol. Em 2007, a cada jogo que ganhávamos, morriam menos pessoas nas ruas. Eles saíam para comemorar com as armas, davam tiros para o alto, corriam com a bandeira", garante Jorvan Vieira.
"A comemoração é muito grande e emotiva porque é o único balão de oxigênio que eles têm devido aos conflitos e aos problemas no país. É uma forma de extravasar aquela alegria que não podem extravasar em nenhum outro momento. Tenho certeza que vai ser uma euforia. Mesmo que percam o jogo, vão comemorar", afirma.
Jogos do Iraque na Copa do Mundo
• 16 de junho (terça)
19h - Iraque x Noruega (Gillette Stadium, Boston, EUA) - CazéTV e Flashscore (comentários em áudio)
• 22 de junho (segunda)
18h - França x Iraque (Lincoln Financial Field, Filadélfia, EUA) - CazéTV e Flashscore (comentários em áudio)
• 26 de junho (sexta)
16h - Senegal x Iraque (BMO Field, Toronto, Canadá) - CazéTV e Flashscore (comentários em áudio)
