A bola é a muralha: números explicam por que ninguém conseguiu furar a defesa da Espanha

Espanha é a única seleção que não tomou gols na Copa
Espanha é a única seleção que não tomou gols na CopaPAUL ELLIS/AFP

Pode parecer chato, moroso e até previsível. Na prática, porém, a muralha da Espanha nesta Copa do Mundo nunca esteve tão sólida. Nenhum gol sofrido. Sem grandes sustos diante de Áustria e Portugal, a equipe de Luis de la Fuente se arma com Rodri, Pedri e companhia muito antes de a bola chegar aos zagueiros. Primeiro, ela se defende com a posse. Depois, pensa em atacar.

Tudo começa pelo próprio estilo de jogo da atual campeã da Eurocopa. Os espanhóis, que buscam o segundo título mundial, transformaram o controle da bola em sua principal arma defensiva. Os números espanhóis mostram que a baliza zerada é consequência de um modelo de jogo que reduz ao mínimo o tempo de ataque dos adversários e a qualidade das oportunidades criadas.

Confira a tabela da Copa

A Espanha mantém a posse por 14,6 segundos, em média, a cada sequência. Conte até 14 sempre que os espanhóis recuperarem a bola. É muito tempo no futebol moderno. Cada posse faz a bola avançar 17,08 metros em direção ao gol adversário, enquanto a velocidade média dessa progressão é de apenas 1,7 metro por segundo. 

Mesmo como atacante, Yamal está sempre pronto para recuperar a posse de bola
Mesmo como atacante, Yamal está sempre pronto para recuperar a posse de bolaStats Perform/Opta

Em outras palavras, os espanhóis avançam sem pressa, priorizando a circulação da bola até encontrar espaços. Quanto mais tempo a equipe controla a posse, menos tempo o adversário passa atacando. Mas, quando encontra a brecha, principalmente pelo lado direito com Lamine Yamal, a aceleração aparece.

A construção paciente termina em explosão. Muitas vezes para que um protagonista improvável, como Oyarzabal, apareça apenas para empurrar a bola para a rede.

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A capacidade de manter o controle do jogo (e os belgas, adversários das quartas de final, também gostam disso) aparece em outro indicador da Opta.

Foram 79 sequências desenvolvidas sob pressão, métrica que contabiliza as posses em que o time consegue construir a jogada mesmo cercado pelo adversário. Em vez de rifar a bola, a Espanha mantém sua estrutura, escapa da marcação com o toque de pé em pé e reinicia o ataque. É como se Rodri e companhia simplesmente escondessem a bola. Esse comportamento ajuda a explicar por que a equipe consegue sustentar longos períodos de domínio territorial durante as partidas.

Na fase de 32 avos, a Áustria não ameaçou a meta espanhola
Na fase de 32 avos, a Áustria não ameaçou a meta espanholaStats Perform/Opta

Perde e rouba

Quando perde a posse, a recuperação também tende a acontecer rapidamente. A seleção soma 50 recuperações no terço ofensivo, média de 10 por jogo, indicador que mede quantas vezes a equipe retoma a bola já perto da área rival. 

Essa pressão logo após a perda impede que os adversários iniciem contra-ataques e reduz o número de chegadas ao campo defensivo espanhol. Em vez de defender perto do próprio gol, a Espanha prefere recuperar a bola ainda no campo de ataque.

Os reflexos aparecem nos números ofensivos dos adversários. Em cinco partidas, a Espanha permitiu apenas 29 finalizações, média de 5,8 por jogo.

Em competições de alto nível, uma equipe costuma sofrer entre 10 e 15 chutes por partida. Ou seja, os espanhóis cedem praticamente metade do volume considerado normal. Dessas 29 tentativas, apenas seis acertaram o alvo, pouco mais de uma por confronto.

A qualidade dessas oportunidades também foi baixa. O xG contra acumulado é de 1,48, o equivalente a apenas 0,30 gol esperado por partida. Em torneios internacionais, equipes que conseguem manter o xGA abaixo de 0,5 por jogo normalmente aparecem entre as defesas mais eficientes da competição. A Espanha está bem abaixo desse patamar. Nada a ver com outras seleções. O Brasil, por exemplo, chamou a Noruega para o seu campo ao entregar a posse ao adversário e não conseguir controlar as jogadas pelos lados.

Quando a bola chega, Unai se mostra seguro
Quando a bola chega, Unai se mostra seguroStats Perform/Opta

Construção desde o goleiro

A participação de Unai Simón, goleiro do Athletic Bilbao, também ajuda a explicar a campanha impecável. Embora tenha passado boa parte da Copa como espectador, o espanhol respondeu quando precisou.

Foram seis defesas, todas bem-sucedidas, preservando a baliza invicta da equipe. Além disso, em quatro oportunidades, deixou a área para interceptar bolas enfiadas em profundidade antes que elas chegassem aos atacantes. Em um time que joga com a linha defensiva adiantada e comprime o campo, esse tipo de intervenção reduz ainda mais o espaço para os rivais. Portugal que o diga.

A "Muralha Espanhola" não nasceu apenas da linha defensiva nem das mãos de Unai Simón. Ela começa nos pés de Rodri, passa pela inteligência de Pedri, ganha desequilíbrio com Lamine Yamal e termina na pressão para recuperar rapidamente a bola quando ela é perdida. Posse, paciência, saída da pressão e intensidade para retomar o controle do jogo. A receita da Espanha é uma das mais cristalizadas desta Copa do Mundo. E, até agora, ninguém conseguiu encontrar uma forma de derrubá-la.

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