Menos faltas, menos cartões, menos VAR: a nova filosofia da arbitragem na Copa

Pierluigi Colina, chefe de arbitragem da FIFA, para ele, futebol é contato
Pierluigi Colina, chefe de arbitragem da FIFA, para ele, futebol é contatoBuda Mendes/Getty Images via AFP/Profimedia

Primeiro, a frieza dos números. Nas duas primeiras rodadas da fase de grupos do Mundial, a média de intervenções do VAR foi de 0,38 por jogo. Contra 1,6 no Brasileiro de 2025, 0,47 na edição mais recente da Champions League, 0,41 na Copa do Catar e 0,29 na Premier League.

Agora, o contexto. Pierluigi Collina, 66 anos, chefe de arbitragem na FIFA, é de um tempo em que o futebol tinha contato e só ele, dentro de campo, tomava as decisões – ele parou em 2005. Em 2018, quando o VAR foi apresentado ao mundo antes da Copa da Rússia, as explicações eram claras e concisas: trata-se de uma ferramenta para evitar que erros grosseiros ocorram.

No Brasil, VAR entra muito mais em ação do que no resto do mundo
No Brasil, VAR entra muito mais em ação do que no resto do mundoStats Perform/Opta

Com tudo isso na bagagem, é que os árbitros confinados em um hotel em Miami — eles têm briefings detalhados de cada jogo que vão apitar, além de uma série de outras estruturas, como atendimento psicológico e até um campo com jogadores reais que simulam jogadas das seleções que vão atuar — entram em campo na Copa do Mundo.

A obsessão, e agora também entraram em vigor novas regras para combater a perda de tempo, é pelo jogo fluido. Bola rolando e menos acréscimos. Por mais que a tal pausa para os comerciais (ou para a hidratação) quebre um pouco o ritmo da partida e desafie as regras do esporte mais adorado do planeta, como várias pesquisas atestam.

Na Copa, números de cartões amarelos estão em queda
Na Copa, números de cartões amarelos estão em quedaStats Perform/Opta

Nos 24 jogos da primeira rodada da fase de grupos, houve uma média de 59,4% de bola rolando. Contra 56,9% no Catar e 56,3% na Copa da Rússia. Pode parecer pouco, mas é uma tendência que, por enquanto, os números mostram estar em curso. Os acréscimos absurdos da Copa passada também sumiram.

Se futebol tem contato, uma partida, para ter mais bola rolando, precisa ter menos faltas. E também menos cartões amarelos. Até agora, nos 48 jogos das duas primeiras rodadas, as médias de faltas estão menores em relação às outras duas Copas e perto do padrão da Champions e do Campeonato Inglês.

Não tivemos nenhum jogador expulso por acúmulo de dois amarelos. E, dos oito cartões vermelhos diretos, três foram aplicados pelo brasileiro Wilton Pereira Sampaio em um mesmo jogo. Um deles, que pode ser discutível pelo rigor, com auxílio do VAR. Nesta Copa, o número de cartões amarelos, até agora, está baixo.

Didier Deschamps reclama a não marcação de um pênalti para a França, no jogo contra Senegal
Didier Deschamps reclama a não marcação de um pênalti para a França, no jogo contra SenegalDARRIAN TRAYNOR/GETTY IMAGES VIA AFP

Se a Copa do Mundo costuma deixar legados, a obsessão por um VAR menos caçador de faltas em câmera lenta pode ser algo positivo, principalmente para o Campeonato Brasileiro, que volta em menos de um mês. Se o critério for mesmo para todos, lances mais discutíveis, como o pênalti para a França na estreia contra Senegal e o pênalti para Gana contra a Inglaterra — este sem nem o VAR entrar em ação — acabam se diluindo no tempo.

A filosofia humana é algo importante, mas a tecnologia embarcada nesta Copa também vem mostrando sua importância para que o jogo seja mais jogado. O impedimento semiautomático, que conta até com avatares reais de todos os jogadores inscritos, e os avisos sonoros para o árbitro — impedimentos de mais de 10 centímetros são comunicados imediatamente, acabando com a bandeirada em delay — estão se mostrando vitais.

Além disso, foram selecionados 140 árbitros (só 139 estão nos Estados Unidos), considerados os mais preparados para a função. Além de profissionalismo, coordenação técnica também é importante. A ver se o sarrafo para o VAR entrar em ação, e para o jogo ser parado por qualquer contato, continuará alto quando agosto chegar.

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