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"Não tem saída": UEFA, CONCACAF e AFC tentam derrubar Infantino da presidência da FIFA

Gianni Infantino está na mira de membros da FIFA
Gianni Infantino está na mira de membros da FIFAREUTERS / Luisa Gonzalez

Três confederações do futebol mundial estão estudando convocar uma moção de censura contra o presidente da FIFA Gianni Infantino, após o cartola tê-los irritado com uma proposta de vender uma participação na Copa do Mundo a investidores privados.

A UEFA, da Europa, a AFC, da Ásia, e a CONCACAF, que representa América do Norte, América Central e Caribe, não querem mais Infantino no comando da FIFA.

"Não tem saída," disse uma das fontes ouvidas pela Reuters, sob condição de anonimato devido à sensibilidade das discussões. "Ou ele sai de forma pacífica e decide não concorrer em março, ou sai pelo caminho mais difícil."

Nos 122 anos de história da FIFA, nenhum presidente em exercício da entidade jamais teve de enfrentar um voto de desconfiança de seu Conselho.

Como funciona o voto de censura na FIFA

Pelo estatuto da FIFA, o Conselho pode convocar um Congresso Extraordinário a qualquer momento. Se pelo menos um quinto das 211 associações membros da FIFA envie um pedido por escrito especificando os itens que querem na pauta, a convocação se torna obrigatória.

O Congresso Extraordinário deve então ser realizado em até três meses, com cada associação presente tendo direito a um voto. Os estatutos da FIFA não trazem nenhuma regra específica sobre voto de censura contra seu presidente.

Escritória da FIFA em Rabat, onde Infantino convocou reunião de emergência
Escritória da FIFA em Rabat, onde Infantino convocou reunião de emergênciaREUTERS/Stringer

Oficialmente, a UEFA afirma que a revisão da liderança e da governança da FIFA deve ser "profunda e fundamental" e que "nenhuma opção deve ser descartada".

A CONCACAF também não comentou à matéria da Reuters, mas acusou a liderança da FIFA de uma quebra fundamental de confiança. A AFC ainda não respondeu imediatamente aos pedidos de comentário.

Descontentamento e divisão

Infantino já declarou que pretende buscar a reeleição. O pleito está marcado para março de 2027 e mantém apoio significativo entre as associações membros da FIFA, incluindo a confederação africana CAF.

A CONMEBOL se mostrou no muro, mas tende a manter seu apoio ao status quo.

A FIFA pediu desculpas às suas associações membros por erros na condução da proposta e, na semana passada, seis associações árabes de futebol, incluindo Catar e a coanfitriã da Copa do Mundo de 2030, Marrocos, manifestaram apoio público a Infantino.

Israel, no entando, retirou seu apoio a Infantino nesta semana.

Uma fonte de alto escalão próxima ao assunto disse à Reuters que, embora o voto de censura seja preferido pelas três confederações, há receio de que uma tentativa fracassada fortaleça Infantino.

Gianni Infantino vem sofrendo forte pressão desde o fracasso da proposta de vender uma participação minoritária em uma nova entidade comercial da FIFA para investidores privados. Essa entidade controlaria os direitos comerciais da Copa do Mundo, principal evento do futebol.

Três das seis confederações continentais da FIFA – UEFA, AFC e CONCACAF – se opuseram à proposta e, desde então, criticaram duramente a condução de Infantino, citando falhas de transparência, consulta e governança.

A crise se agravou nesta semana com a saída do diretor de operações da FIFA, Kevin Lamour, que havia criticado a proposta de investimento e disse que os funcionários foram “enganados” sobre o que descreveu como um projeto de uma só pessoa. A FIFA não informou o motivo da saída dele.

O vice-presidente da FIFA, Sandor Csanyi, retirou seu apoio a Infantino nesta semana, dizendo que a saída de Lamour foi “a gota d’água”.

África apoia Infantino

Os opositores de Infantino, porém, enfrentam obstáculos consideráveis.

Nenhum desafiante se apresentou publicamente antes do prazo final de indicação, em 18 de novembro, e Infantino mantém apoio de parte dos membros da FIFA.

O presidente da CAF, Patrice Motsepe, disse na semana passada que Infantino continua tendo o apoio da África e que seu futuro deve ser decidido pelos membros da FIFA na eleição.

Pela proposta de investimento abandonada, as associações poderiam acessar até US$ 20 milhões em capital único para infraestrutura, treinadores, seleções nacionais, competições, futebol de base e futebol feminino.

“Quem estiver pronto para enfrentar Infantino nas urnas deve se apresentar,” disse à Reuters na semana passada o presidente da Associação de Futebol do Malawi, Fleetwood Haiya.

“Eles devem dizer o que vão trazer. Como representante do Malawi, preciso entender o que vão trazer para o Malawi.”

Pressão dos clubes

A pressão também vai além dos que têm direito a voto na FIFA.

O European Football Clubs (EFC), presidido por Paris St Germain Nasser Al-Khelaifi e representando mais de 800 clubes, está alinhado com a UEFA e outros que buscam mudanças na FIFA, segundo uma fonte próxima às discussões.

O EFC já alertou a FIFA que seus membros podem se recusar a participar das futuras edições do Mundial de Clubes masculino e feminino caso as preocupações sobre governança e a relação dos clubes com a FIFA não sejam atendidas.

Os clubes não têm voto na FIFA, mas exercem grande influência esportiva e comercial.

Michael Payne, ex-chefe de marketing do Comitê Olímpico Internacional, disse que mesmo uma vitória eleitoral de Infantino não resolveria necessariamente as divisões.

“Não adianta vencer com 51% dos votos, com várias nações pequenas, mas com todas as potências do futebol contra você. Como administrar a organização?” disse Payne à Reuters.

Nenhum patrocinador da FIFA criticou publicamente Infantino durante a crise.

“Os patrocinadores estão levantando as sobrancelhas e dizendo: ‘Como é possível organizar uma Copa do Mundo tão bem-sucedida e depois dar um tiro no próprio pé?’” disse Payne.

Para a fonte de alto escalão envolvida nas discussões sobre o voto de desconfiança, o dano já é irreversível: “Não tem como colocar o ketchup de volta na garrafa.”