É nas arquibancadas de cimento e na atmosfera comunitária do Hinchliffe Stadium, em Paterson, Nova Jersey, que o mítico New York Cosmos ensaia o seu mais novo e desafiador capítulo.
Confira a tabela da Copa do Mundo no Flashscore
O Cosmos, que ficou décadas desativado após o colapso da liga original nos anos 80, chegou a ensaiar retornos anteriores, mas foi no ano passado que o clube de fato estruturou seu retorno oficial ao futebol profissional, integrando agora os gramados da USL (equivalente à terceira divisão americana). No último domingo (28), a reportagem do Flashscore acompanhou de perto um marco dessa nova era: o primeiro amistoso internacional do clube em Nova Jersey desde a sua reativação.
Assista abaixo à reportagem do Flashscore:
O adversário era o tradicional Santos Laguna, do México. O placar final de 2 a 1 para os mexicanos acabou ficando em segundo plano diante do peso simbólico do encontro. Foi a primeira vez que o Cosmos enfrentou uma equipe mexicana desde 1973, quando mediu forças com o Veracruz, ainda nos tempos em que o Pelé dominava a América do Norte.
Entre o sonho e a realidade: Menos de 3 mil no estádio
Se no auge da década de 1970, o Cosmos arrastava multidões de 70 a 80 mil pessoas, transformando o futebol em um espetáculo pop na terra do Tio Sam, a realidade atual exige pés no chão. Esperava-se uma presença massiva de público no Hinchliffe Stadium — um local com capacidade para pouco mais de 10 mil espectadores —, especialmente pela força e apelo do futebol mexicano na região. No entanto, menos de 3 mil torcedores compareceram.

Ainda assim, o que faltou em quantidade, sobrou em orgulho. A tímida torcida presente carregava consigo a memória afetiva de um clube que, no fundo, plantou a semente de tudo o que o futebol no país colhe hoje com o sucesso da MLS. Se os Estados Unidos respiram futebol, é porque nomes como Pelé, Franz Beckenbauer, Giorgio Chinaglia e o português António Simões vestiram essa camisa e provaram que o soccer tinha espaço no coração dos americanos. É exatamente nesse histórico de lendas que o novo Cosmos se pendura para buscar sua relevância no mapa atual.
Dentro de campo, o teste contra um time da elite mexicana mostrou que o projeto tem brio. Mesmo sendo um time de terceira divisão em reconstrução, o Cosmos bateu de frente com o Santos Laguna e conseguiu balançar as redes, um gol muito comemorado que valida o esforço técnico de um elenco que tenta queimar etapas.
"Nunca imaginei enfrentar o Cosmos": O peso do Escudo
O impacto de ver o uniforme do New York Cosmos novamente em campo mexe até com quem está no banco de reservas adversário. O técnico do Santos Laguna, o português Renato Paiva, não escondeu a sensação de nostalgia e o respeito institucional ao pisar no gramado de Nova Jersey.
"Esse Cosmos faz parte da minha infância. Lembro-me perfeitamente de quando esse projeto começou nos Estados Unidos para trazer as estrelas para cá, com o objetivo de implementar e desenvolver o futebol. Depois o Cosmos acabou desaparecendo, foi uma tentativa de certa forma fracassada na época, mas que agora está ganhando força novamente com a MLS e com o investimento que está sendo feito", disse Paiva ao Flashscore.
"É um clube histórico. Se você me perguntasse antes se eu pensava em jogar um dia contra o Cosmos, eu diria que não, porque de fato é um clube da minha infância que marcou muito por essa questão do Pelé, do Beckenbauer e do próprio Simões (ex-jogador do Benfica). Mas pronto, é um clube que está tentando se reorganizar, nota-se isso, e me parece que está dando passos interessantes para poder chegar à MLS no futuro", acrescentou o técnico português.
A reativação do New York Cosmos no ano passado não é apenas a volta de um CNPJ ou de uma marca de grife; é a tentativa de provar que a tradição pode florescer mesmo partindo do degrau mais baixo da pirâmide do futebol americano.
Reconstrução e o sonho de um amistoso com um time brasileiro
O New York Cosmos sonha em reviver sua histórica conexão com o futebol brasileiro. Responsável pela reconstrução do clube, o head scout José Angulo revelou ao Flashscore que pretende trazer uma equipe do Brasil para um amistoso em Nova Jersey no futuro.
"Este é um clube que existe há muitos anos, mas este projeto começou há apenas seis meses, então ainda estamos construindo tudo. Sabemos que temos muitos torcedores ao redor do mundo, especialmente no Brasil, por causa do Pelé e de toda a história do Cosmos. Temos consciência dessa conexão e queremos nos aproximar cada vez mais da comunidade brasileira. Quem sabe, no futuro, possamos trazer um clube brasileiro para jogar aqui. Seria muito divertido. Com toda a nossa ligação com o Pelé e a história do Cosmos, acho que seria algo muito bonito", disse.
Ex-jogador do Fort Lauderdale Strikers, equipe que teve Ronaldo Fenômeno como proprietário, Angulo conhece bem a influência brasileira no futebol norte-americano. Durante a carreira, atuou ao lado de Léo Moura e Kléberson e agora quer fortalecer esse vínculo também no Cosmos.
DNA brasileiro e o chamado do Rei
A ligação histórica entre o New York Cosmos e o Brasil é umbilical, eternizada pelos pés de Pelé na década de 1970. Décadas depois, esse mesmo DNA verde e amarelo volta a pulsar no elenco por meio de Nick Mendonça.
Filho de pais brasileiros, o jovem meio-campista nasceu nos Estados Unidos, mas traz na bagagem uma formação moldada no coração do futebol sul-americano. Ele fez boa parte das categorias de base no Rio de Janeiro, acumulando passagens por grandes clubes cariocas, com destaque para o Flamengo.
"Nasci na Flórida e vivi lá até os 14 anos. Joguei nas categorias de base nos Estados Unidos e, depois, decidi me mudar para o Brasil. Fiz um teste no Flamengo, passei e fiquei dois anos no clube. Depois fui para o Vasco e, já no Sub-20, disputei o Campeonato Goiano pelo Trindade. Fiz grande parte da minha formação no Brasil e, após seis ou sete anos no país, resolvi voltar para os Estados Unidos, onde dei sequência à minha carreira como profissional", contou à reportagem.
Quando recebeu o convite para integrar o projeto de retomada do Cosmos, o peso da história falou mais alto. Criado em um ambiente familiar que sempre reverenciou o futebol brasileiro, Nick não pensou duas vezes antes de aceitar o desafio de vestir a mítica camisa nova-iorquina.
"A primeira coisa que vem à mente quando se fala no Cosmos é o Pelé. No ano passado, quando eu estava procurando um novo clube, o Cosmos fez uma proposta. Meu empresário me ligou, conversamos sobre o projeto e eu nem pensei duas vezes. Falei: 'Pô, vai ser o Cosmos no ano que vem. Vai ser uma honra'. E está sendo muito bom jogar aqui nesta temporada e representar essa camisa", exaltou.

Para o jovem, defender as cores do clube onde o maior de todos os tempos encerrou a carreira é mais do que um passo profissional — é uma forma de homenagear o maior ídolo da história do futebol.
"O Pelé é o Rei do Futebol. É uma honra representar o Cosmos neste ano, depois de tanto tempo fora da liga. Ver o clube voltando à ativa e poder competir novamente é muito especial. É uma honra vestir essa camisa. Estamos dando o nosso melhor para colocar o Cosmos de volta ao topo", salientou o jogador de 25 anos.
Do apelo global ao orgulho da comunidade local
Se dentro das quatro linhas o New York Cosmos encara a realidade da terceira divisão, fora delas a marca continua sendo uma das mais icônicas do futebol mundial. No Hinchliffe Stadium, essa tradição se reflete na movimentada loja oficial, ponto de encontro de torcedores e turistas que buscam levar para casa um pedaço da história eternizada por Pelé.
Responsável pela operação do espaço, Jamie Ponce afirma que o retorno do Cosmos vai muito além do merchandising. Para ele, o clube voltou a exercer um papel importante na comunidade de Paterson.
"O Cosmos é muito importante para a comunidade. Somos apenas o segundo clube profissional a jogar no Hinchliffe Stadium, um estádio que existe desde 1932. É muito especial reunir as pessoas novamente por meio do futebol. Esse é um dos principais objetivos do projeto que estamos construindo aqui, em Paterson, Nova Jersey", explicou o administrador.
Segundo Ponce, a ligação histórica com Pelé continua sendo um dos principais ativos da marca e desperta o interesse até de turistas que visitam os Estados Unidos durante a Copa do Mundo.

"A associação com o Pelé gera um reconhecimento imediato. Isso nos aproxima da comunidade e também dos novos torcedores. Muita gente que está nos Estados Unidos por causa da Copa do Mundo vem conhecer o Cosmos e entender a história do clube. É muito bonito ver que ainda existe tanto carinho pelo legado que o Pelé deixou aqui", relatou.
Apesar do peso da camisa, o clube optou por recomeçar sua trajetória esportiva a partir da terceira divisão da USL. A estratégia, segundo Ponce, é reconstruir a instituição de forma sustentável antes de voltar às principais competições do país.
"Hoje disputamos a USL League One, mas tomamos a decisão de começar na divisão mais baixa e construir nosso caminho de volta. Sabemos da força da marca, mas primeiro precisamos reconquistar a comunidade, ampliar nossa base de torcedores e atrair patrocinadores. O objetivo é crescer passo a passo e, nos próximos anos, disputar novamente as divisões superiores".

Na loja oficial, as camisas oficiais do Cosmos são vendidas por US$ 95 (cerca de R$ 535), enquanto o modelo de torcedor custa US$ 75 (aproximadamente R$ 422). A loja também oferece bonés, moletons, chaveiros, adesivos e outros produtos licenciados.
Entre todos os itens, porém, nenhum desperta mais interesse do que a camisa 10 de Pelé. Ao lado da histórica camisa 9 de Giorgio Chinaglia, ela integra o seleto grupo de números aposentados pelo Cosmos e permanece como o produto mais procurado pelos visitantes da loja oficial.

Legado que passa de pai para filho
Se a estrutura física e comercial do clube tenta se readequar aos novos tempos, a paixão de quem está na arquibancada permanece intacta, movida por laços hereditários de afeto. Para além dos números modestos de público na USL, são histórias como as de Edwin Torres que justificam a existência do novo Cosmos.
"Essa paixão é uma herança pura. O meu pai torcia fanaticamente para o Cosmos nos anos 70 e eu cresci ouvindo as histórias dele. Ele falava do Pelé como se fosse um super-herói, descrevia os gols, a atmosfera mágica dos estádios lotados", relembra Edwin à reportagem do Flashscore.

"Poder estar aqui hoje, vestindo essa camisa e trazendo essa paixão que era do meu pai, é algo incrivelmente bonito e significativo", acrescentou.
Esse orgulho ganha ritmo e força através de uma pequena, mas incansável banda que ecoa pelas arquibancadas de cimento durante os 90 minutos de jogo. Com bumbos, caixas e instrumentos de sopro, os torcedores ditam o compasso do jogo em um estilo que remete diretamente às tradicionais hinchadas sul-americanas.

O repertório é embalado por cânticos de apoio incondicional, com destaque para o grito que ecoa em looping pelo estádio: "Come on, Boys in Green! Come on, Boys in Green!" (Vamos, Garotos de Verde!), uma alusão direta à tradicional cor do uniforme do clube. Entre batucadas e rimas que decretam que "Nova York é verde", a bandinha garante que o Cosmos nunca jogue em silêncio, transformando o ambiente modesto em um caldeirão de pura nostalgia e resistência.

Renascimento no histórico Hinchliffe Stadium
Para além das quatro linhas e do peso das camisas aposentadas, o cenário escolhido para abrigar essa nova era do New York Cosmos carrega um simbolismo profundo para o esporte e para a cultura dos Estados Unidos. O Hinchliffe Stadium não é apenas um campo de futebol de concreto fincado às margens do Rio Passaic, em Paterson; ele é um monumento histórico nacional que, assim como o próprio clube, sabe exatamente o que significa ressurgir das cinzas.

O visual ao redor do estádio é emoldurado por um cenário natural impressionante: as imponentes quedas d'água do rio, conhecidas na região como as Great Falls do Rio Passaic. O som das cachoeiras e o clima fresco do parque ecológico que circunda o complexo criam uma atmosfera única e quase poética para quem caminha em direção às arquibancadas, oferecendo um contraste de beleza natural e paz bem ao lado do concreto do estádio.
Inaugurado na década de 1930, o estádio foi um dos grandes palcos da lendária Negro League de beisebol — a liga profissional estruturada por e para atletas negros americanos em um período em que a segregação racial os impedia de atuar nas ligas principais (Major Leagues). Por aquele gramado passaram mitos do esporte que desafiaram o preconceito e moldaram a história americana. Com o fim da segregação e as mudanças urbanas, o Hinchliffe Stadium acabou caindo em um doloroso ostracismo, ficando completamente abandonado e em ruínas durante décadas.
Mas o espaço ganhou nova vida com a chegada do Cosmos e obras fundamentais que fizeram a arena ganhar uma nova chance de sobrevivência. Nas paredes e nos arredores do estádio, marcas e memoriais da Negro League ainda estão gravados, servindo de lembrança constante da resiliência humana e esportiva. Para quem caminha por ali, a atmosfera exala o passado.
Ao apito final do amistoso contra o Santos Laguna, fica a certeza de que a jornada do New York Cosmos na USL está longe de ser apenas uma busca por títulos ou acessos de divisão. Entre os acordes da bandinha que canta pelos "Boys in Green", o suor de jovens com raízes brasileiras como Nick Mendonça e o garimpo técnico de profissionais como José Angulo, o Cosmos prova que o futebol não é feito apenas de arenas de bilhões de dólares e recordes de bilheteria na Copa do Mundo. Às vezes, a verdadeira alma do jogo repousa no orgulho de uma torcida de 3 mil pessoas que, em um templo sagrado de Nova Jersey, ao som das cataratas, se recusa a deixar o manto de Pelé virar apenas uma lembrança em um livro de história.
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