A decisão de Wimbledon 2026 coloca frente a frente Linda Nosková e Karolina Muchová, e coroará uma campeã inédita de Grand Slam.
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"Gostaria de ir lá secretamente espiar qual o segredo deles", disse a bem-humorada Aryna Sabalenka ao Flashscore, após sofrer para bater a jovem tcheca no WTA 500 de Berlim, mês passado.
Qual o segredo da República Tcheca para produzir tantas tenistas de elite?
Desafio ao bloco socialista
A resposta começa na Guerra Fria. Enquanto a maioria dos países do Bloco Soviético via o tênis como um esporte burguês e elitista, a liderança esportiva da antiga Tchecoslováquia decidiu bater o pé. O lendário campeão Jan Kodeš afirmou que houve um momento geopolítico que garantiu o futuro do esporte no ex-país comunista.
“Lembro-me de um ponto de virada fundamental que aconteceu em uma reunião de países socialistas em Berlim Oriental. A maioria dos estados socialistas concordou em não apoiar o tênis. Mas o presidente da nossa união esportiva, Antonín Himl, levantou-se e disse: ‘A Tchecoslováquia é um caso especial. Nós temos uma tradição no tênis e continuaremos a apoiá-lo’”, disse Kodeš à rádio Prague International.

Essa ousadia administrativa permitiu a manutenção de infraestrutura do esporte e o surgimento de joias raras, como Martina Navrátilová.
Embora lendária tenista tenha chocado o regime ao desertar para os Estados Unidos durante o US Open de 1975, sua base técnica foi moldada pela pioneira escola tcheca. Ela viria a se tornar a maior Rainha de Wimbledon, conquistando o torneio 9 vezes sob a bandeira americana — um recorde que permanece intacto.
Sistema de clubes e esporte do povo
Em grande parte do mundo, o tênis ainda carrega o estigma de ser caro e restrito a country clubs privados. Na República Tcheca, a realidade é o oposto, desde os temos do comunismo: o esporte é costurado no tecido da vida municipal cotidiana.
O alicerce do domínio tcheco reside em seu sistema descentralizado de clubes. Existem milhares de pequenos clubes de tênis de baixo custo espalhados por cidades e vilarejos de todo o país. Uma criança não precisa de pais ricos para começar a jogar; ela precisa apenas caminhar até as quadras públicas locais. Essa democratização cria uma base de talentos gigantesca e incrivelmente diversa.

Fábrica de talentos na grama
Essa formação democrática gera um estilo de jogo muito característico, marcado pela versatilidade. A tenista Linda Noskova explica como essa identidade cultural funciona bem em Wimbledon:
"Eu diria que todos nós somos criados meio que da mesma maneira na República Tcheca, em nossos estilos de jogo, no nosso tênis. Nós somos muito criativos, então a grama nos permite usar qualquer lado do tênis — seja o saque e voleio nos velhos tempos, ou slices e voleios nesta nova era. Temos todas essas facetas que podemos usar."
Além da versatilidade tática, há um forte componente cultural na escolha das modalidades no país. Enquanto os homens tchecos têm o futebol e o hóquei no gelo como seus esportes primários e mais populares, o tênis é o esporte número um para as mulheres. Isso ajuda a explicar perfeitamente por que a representação tcheca é muito mais densa no top 50 da WTA (feminino) do que no da ATP (masculino).
O clima tcheco também desempenha um papel técnico fundamental na formação das atletas. Tomas Berdych, vice-campeão de Wimbledon em 2010, defende que as mudanças sazonais e as condições específicas de jogo que elas criam estão no cerne do sucesso do país.
Na República Tcheca, o jogo em quadras de saibro ao ar livre geralmente só é possível de abril a outubro. Nos outros meses do ano, as temperaturas de inverno e a neve forçam as jogadoras a migrarem para as quadras cobertas (indoor). Essa transição drástica de condições ao longo do ano força as atletas a desenvolverem um jogo completo.
Elas aprendem a paciência e a construção de pontos no saibro lento e, de repente, precisam se adaptar às condições ultra-rápidas do piso coberto no inverno, afirmou Berdych ao podcast Sit-Down. Essas quadras indoor rápidas acabam sendo a preparação perfeita para que elas dominem, mais tarde, os gramados velozes e escorregadios do circuito profissional.
Preferência feminina
Outro aspecto que chama a atenção no circuito é a maior quantidade de tchecas na elite do tênis do que tchecos.
A finalista de Wimbledon Linda Nosková arriscou uma explicação para tal fenômeno em papo exclusivo com o Flashscore. Noskova concorda que, enquanto o tênis é o esporte número 1 para as mulheres do país, para os homens ele é apenas a 3ª opção – atrás do futebol e do hóquei no gelo.
Para as esportistas, há mais exposição, mais referências de sucesso e maiores possibilidades de ganho no tênis profissional do que nas ligas femininas de hóquei e futebol. Karolina Muchová confirmou em coletiva em Londres que a história do tênis na República Tcheca foi uma motivação para ela.
Todos os campeões tchecos de Wimbledon na Era Aberta
• CHAVE MASCULINA
Jan Kodeš (1973): O pioneiro da Era Aberta. Ele fez história ao conquistar o título de simples masculino sob a bandeira da Tchecoslováquia.
Nos anos 80, o gigante Ivan Lendl também alcançou as finais de 1986 e 1987, mas bateu na trave.
• CHAVE FEMININA
Jana Novotná (1998): Após vices dolorosos, a carismática tenista encantou o mundo ao conquistar sua única taça de simples na grama sagrada.
Petra Kvitová (2011 e 2014): Com seu jogo canhoto avassalador, Kvitová dominou o sudoeste de Londres em duas ocasiões na década passada.
Markéta Vondroušová (2023): Fez história recentemente ao se tornar a primeira jogadora não-cabeça de chave a vencer o torneio na Era Aberta.
Barbora Krejčíková (2024): Assim como Vondrousova, conquistou seu único Slam da carreira em Londres.
Linda Nosková ou Karolina Muchová (2026): A mais nova campeã tcheca em Wimbledon será definida neste sábado.
Martina Navrátilová: Nascida em Praga, conquistou seus 9 títulos (1978, 1979, 1982, 1983, 1984, 1985, 1986, 1987 e 1990) como cidadã norte-americana.
