“Foi um período muito difícil para mim. Aconteceram situações familiares muito pesadas e, psicologicamente, não estava preparado. Dentro de campo, as coisas estavam acontecendo bem. Fora de campo, não”, contou.
Mais de um ano depois, as assistências e os bons resultados fazem o brasiliense abrir um sorriso largo. A detenção do passado é vista mais como algo que deixou lições do que como um filme de terror. “Hoje, com a mentalidade que tenho, não faria de novo. Mas é um aprendizado para a vida”, disse.
A entrevista com o lateral brasileiro que joga na Bulgária faz parte do "Brasileiros no Mundo", projeto do Flashscore que dá voz a quem está longe das ligas mais famosas, mas têm boas histórias para contar.
Depois da prisão, o aprendizado
O jogador também faz questão de transformar a própria experiência em um alerta para atletas mais jovens. Chegar ao futebol profissional, explica Pastor, exige abrir mão de uma série de coisas que fazem parte da vida social. “Para você estar no futebol de alto nível, você tem que abdicar de tudo. As pessoas acham que não. Vamos às festas, aos aniversários. Não é assim”, afirmou.
A recuperação contou com o apoio importante do CSKA Sofia. Pastor conta que chegou a imaginar que teria de deixar o clube depois do episódio, mas recebeu respaldo da direção. “O clube me apoiou de uma maneira que, sinceramente, não esperava. Eu já estava até achando que, poxa, iria embora”, relatou.

A resposta dentro de campo ajudou. Em sua primeira temporada pelo CSKA, Pastor foi campeão da Copa da Bulgária, encerrando um longo período sem títulos do clube na competição. Agora, na segunda temporada, participou da campanha que levou a equipe aos playoffs da Liga Europa. E, por pouco, o time não chegou a fase de liga.
Torcida pressiona
A experiência no futebol búlgaro também representa uma mudança significativa em relação aos cinco anos que Pastor passou em Portugal. Segundo o lateral, o futebol da Bulgária, especialmente no Leste Europeu, é muito mais exigente fisicamente e marcado por uma pressão intensa das arquibancadas. Por isso, o cuidado com a forma física é essencial.
“Principalmente aqui no Leste Europeu, nos países balcânicos, os jogadores são muito fortes fisicamente. O jogo é muito intenso. Em termos de divididas, agressividade e intensidade, é outra coisa”, explicou.
Pastor compara os dois estilos. “Estava em Portugal, onde tinha um país mais tático, mais com bola. Aqui já é um país mais intenso, mas sem bola. É um futebol que exige da sua capacidade física máxima.”
A pressão dos torcedores, segundo ele, é outro desafio. O jogador afirma que o ambiente pode mudar completamente de uma partida para outra. “Hoje você é o mestre, amanhã você não é ninguém."

A cobrança chega a ser forte mesmo em uma temporada invicta. “Não é uma pressão que chega para agregar. É uma pressão para te desestabilizar mesmo. Se o cara não estiver com o mental forte aqui, sofre”, afirmou.
Dentro de campo, entretanto, Pastor vive um momento de afirmação. Lateral ofensivo, ele se tornou uma das peças importantes do CSKA pelo lado do campo e vem se destacando também pelas assistências. “Sou um jogador muito agressivo. Gosto muito de atacar o último terço, mas também gosto de defender com muita agressividade para arrancar rápido para frente”, explicou.
O jogador atribui parte dessa evolução a um trabalho de análise tática que faz fora do clube. Com auxílio de profissionais da Tática Pro, empresa especializada em análise de desempenho, passou a observar de maneira mais detalhada os próprios jogos.
“Os pontos cegos a gente não vê. Fazendo essas análises, graças a Deus melhorei bastante”, disse. “São as pessoas que falam para mim o que não quero ouvir. É muito fácil você chegar a um clube e as pessoas dizerem: ‘você jogou bem’. A vitória desfaz muita coisa.”

Um dérbi, e o cartão vermelho
Pastor também já experimentou a rivalidade mais pesada de Sofia. Em seu primeiro clássico contra o Levski Sofia, saiu de campo com a vitória por 1 a 0, mas também com um cartão vermelho. O episódio, segundo ele, foi consequência do excesso de vontade. “Acabei exagerando na agressividade, naquela vontade. Eles exigem demais da gente. Fui expulso, mas ganhamos o jogo”, contou.
A vitória teve um significado especial. Segundo Pastor, havia uma espécie de tradição entre jogadores do CSKA de serem expulsos em seu primeiro clássico contra o rival. “Foi o meu primeiro derby, mas não estava com isso na cabeça."
A estrutura encontrada na Bulgária também surpreendeu o brasileiro. Apesar da percepção de que o país não seria um destino tão desenvolvido para jogadores de futebol, Pastor afirma ter encontrado condições de trabalho de alto nível.
“O clube te dá total estrutura, de primeiro mundo mesmo. Parece que você está numa Premier League, porque as condições que o clube te dá são diferentes”, afirmou.
A presença de jogadores estrangeiros também é grande. O CSKA reúne brasileiros, espanhóis, argentinos e atletas de outras nacionalidades. A comunicação, inicialmente, foi um desafio para Pastor, que chegou ao país sem falar inglês.

“Quando cheguei aqui, não sabia falar nada de inglês. E é tudo inglês”, contou. Aos poucos, porém, o espanhol também virou uma ferramenta de comunicação entre os jogadores latinos, enquanto o próprio treinador búlgaro passou a aprender o idioma.
Fora do futebol, Sofia também passou a fazer parte da vida do jogador. A cidade, uma das mais antigas da Europa, impressionou Pastor pela limpeza, pela história e pela estrutura. Ele vive no país com a esposa e, apesar da rotina pesada, tenta aproveitar os períodos de folga para conhecer a cidade.
Um sonho de criança
Depois de cinco anos em Portugal e da experiência na Bulgária, Pastor não descarta um retorno ao futebol brasileiro, mas afirma que ainda tem um sonho a realizar na Europa: disputar a principal competição continental.
“Tive oportunidade de voltar para o Brasil, tive sondagens do Corinthians, do Botafogo e até do Athletico. Agora também entraram em contato comigo alguns clubes brasileiros. Mas tenho aquele sonho de criança.”
O sonho é jogar a Champions League. “Quando você é criança, olha na televisão e pensa: quero jogar ali. Eu vim para cá, a gente foi campeão e agora estamos nas competições europeias. Para mim, jogando aqui, só almejo mais para cima.”
O próximo passo, segundo ele, pode ser a Inglaterra. “Eu desejo até a Premier League. Imagina um nível maior. Eu sempre falei que tenho o sonho de jogar na Inglaterra, porque lá estão os melhores.”
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