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De "tanque de guerra" a vulcão: meia brasileiro revela como é jogar na Indonésia

Fábio Calonego celebra gol do Persija Jakarta
Fábio Calonego celebra gol do Persija JakartaFabio Calonego/Flashscore

Você sabia que a Indonésia é o 2º maior destino para jogadores brasileiros no mundo, atrás apenas de Portugal? E que nos clássicos por lá os times só chegam ao estádio de camburão?

O meia gaúcho Fábio Calonego, estrela do Persija Jakarta, conta por que a Indonésia virou destino popular para atletas do Brasil e revela os bastidores e desafios do futebol em um país que é composto por 17 mil ilhas.

A entrevista faz parte do "Brasileiros no Mundo", projeto do Flashscore que dá voz a brazucas que estão longe das ligas mais famosas, mas têm boas histórias para contar.

Razões do boom brasileiro

Há 91 brasileiros atuando nas duas principais divisões da indonésia no momento (66 na 1ª divisão e mais 25 na 2ª).

Veja todas as entrevistas da série Brasileiros no Mundo

O tamanho do futebol local, a moeda e a quantidade de estrangeiros permitidos ajudam a explicar por que há tantos brazucas por lá.

“Acho que se deve ao fato de haver bastante vaga para jogadores estrangeiros. Além disso, a moeda deles é desvalorizada e recebemos em dólar. Para mim é algo surreal o que estou ganhando hoje aqui comparado ao que ganhava no Brasil. Meu custo de vida é baixíssimo e meu estilo de vida é muito melhor”, explicou Fábio.

Fábio em ação pelo Persija
Fábio em ação pelo PersijaPersija Jakarta/Fábio Calonego

O regulamento permite até 11 estrangeiros por clube no campeonato.

Além disso, a Indonésia é um dos países mais populosos do mundo e o futebol tem enorme popularidade. Portanto, embora o campeonato não tenha grande reputação internacional, existe uma indústria local suficientemente grande para sustentar vários clubes profissionais e, consequentemente, uma demanda constante por estrangeiros.

Clubes que Fábio passou na carreira
Clubes que Fábio passou na carreiraFlashscore

E como Fábio foi parar na Indonésia? Formado nas categorias de base do Novo Hamburgo, o meio-campista se mudou para Jacarta ano passado, após deixar o Confiança, da Série C do Brasileirão. 

“Recebi a proposta de um agente do Brasil que faz o intercâmbio para a Ásia", contou ele. “Saí do Brasil vindo para o Arema, que é um clube do mesmo dono do Persija. No trajeto de vinda, os empresários daqui fizeram um esquema, uma jogada que até hoje não sei o que foi, e acabei no Persija", esclareceu.

O Persija é o atual 3º colocado da Super League
O Persija é o atual 3º colocado da Super LeagueFlashscore

Camburões, terremotos e vulcões

A vida no país asiático — um gigantesco arquipélago — exige grandes deslocamentos, mas os principais desafios são os desastres naturais e o fanatismo dos torcedores. Nos clássicos diante do maior rival, o trajeto para o estádio lembra uma operação militar.

“Quando vamos jogar em Bandung ou eles vêm para cá, temos que ir no que chamam de 'tanques de guerra', que são veículos blindados. Vamos cinco jogadores em cada blindado até chegar ao estádio, porque de ônibus não dá para passar. O pessoal joga pedra e de tudo; se não for de blindado, não chega ao estádio", revelou o Fábio.

Time do Persija entrando em camburão para ir ao estádio
Fábio Calonego

Os fenômenos naturais também fazem parte da rotina.

“Os terremotos para nós já se tornaram normais quando são pequenos tremores. Recentemente um vulcão entrou em erupção na madrugada após nosso primeiro jogo da liga. A fumaça cobriu tudo, nenhum avião conseguia voar e tivemos que voltar de ônibus numa viagem que demorou dois dias", lembrou.

Apesar de enfrentar voos de até cinco horas para atuar em ilhas distantes, Fábio garante que a rotina das Séries B e C do Brasileirão são mais desgastantes.

“Acho que no Brasil é mais difícil. (Além da distância) lá você joga três vezes por semana, enquanto aqui na Indonésia só jogamos nos fins de semana, o que te dá mais tempo para trabalhar e descansar. Não tenho saudade nenhuma do futebol brasileiro", admitiu.

A culinária local é outro obstáculo superado pelo brasileiro. A intensidade dos temperos regionais obrigou o atleta a buscar refúgio na gastronomia internacional de Jacarta.

“A comida local nós não podemos comer porque é extremamente apimentada. É uma loucura. No ano passado alguns brasileiros tentaram comer em barracas de rua e passaram mal por vários dias", disse o ex-jogador do Ypiranga.

Províncias da Indonésia
Províncias da IndonésiaGoogle Maps/Wikipedia

A cicatriz da maior tragédia do futebol

O futebol da Indonésia ainda tenta se reconstruir após o desastre de Kanjuruhan, que resultou na morte de mais de 130 pessoas. Em outubro de 2022, no confronto entre Arema (ex-time de Fábio) e Persebaya, a torcida invadiu o campo e a polícia respondeu com gás lacrimogêneo – o que por sua vez provocou pânico e pisoteamento em massa.

O impacto da tragédia permanece visível na cultura esportiva local.

“Fala-se demais sobre isso. Quando vamos jogar contra o Arema lá, os jogadores locais inclusive fazem uma oração. Até hoje, quando jogam Arema e Persebaya, eles não podem jogar em Malang; jogam em Bali com portões fechados. O clima continua muito pesado por causa disso", pontuou.

De preconceito a "General"

Fábio enfrentou desconfiança em sua chegada ao Persija, mas acabou nos braços do povo.

“Como eu cheguei da Série C, eles tiveram um pouco de preconceito comigo. Eles mesmos falavam: 'Estão trazendo jogador de Série A, de alto nível da Série B, e estão trazendo o Fabio?'. Mas superei essa desconfiança e até criaram uma música com meu nome", lembrou ele.

O alto rendimento em campo e a facilidade para dar assistências renderam um status de destaque na imprensa esportiva asiática: “Eles me dão uns apelidinhos aqui. General é um, estão me chamando de Maestro também, porque fiz uma temporada dando bastante assistência e passes para gol”, disse o volante.

Siga as partidas da Fabio Calonego no Flashscore

A admiração local pelo futebol brasileiro transparece até mesmo no aquecimento das atividades.

“Quando a gente faz 'altinha' antes do treino, eles ficam citando times brasileiros a cada toque. Eles citam equipes conhecidas do nosso futebol como Coritiba e Athletico Paranaense", afirmou Fábio.

Fábio agradece apoio da massa após jogo do Persija
Fábio agradece apoio da massa após jogo do PersijaPersija Jakarta/Fábio Calonego

Brasil na seleção da Indonésia

Aos 27 anos, Fábio confessa que defender a Seleção Brasileira é algo fora de cogitação atuando tão longe, e revela que pode jogar uma Copa em um futuro próximo por outra nação.

“Os caras estão com proposta de me naturalizar. Preciso jogar mais quatro anos na liga sem me mudar para outro país. Não é minha prioridade agora, mas se for possível, por que não? Estarei com 32 anos, quem sabe não jogo na seleção da Indonésia", concluiu.

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