Brasileiro campeão com Iraque recorda título na guerra: "Me deram pistola em vez de apito"

Jorvan Vieira foi campeão da Copa da Ásia com o Iraque em 2007
Jorvan Vieira foi campeão da Copa da Ásia com o Iraque em 2007ALI AL-SAADI / AFP

A vitória na repescagem devolveu o Iraque à Copa do Mundo após 40 anos. A participação em 2026 é o grande momento da seleção desde a Copa da Ásia de 2007, quando a seleção buscou o título inédito em meio à guerra contra os Estados Unidos. O treinador era o brasileiro Jorvan Vieira.

"Eu ficava dentro de Bagdá com um colete à prova de balas e uma .765 na cintura. É verdade, não é exagero. Quando cheguei lá, a primeira coisa que me perguntaram foi: ‘Você sabe atirar?’", recorda Vieira em entrevista exclusiva ao Flashscore.

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"Eu falei: ‘Sim, sei, fui oficial do Exército’. E me deram uma pistola para me proteger. Não me deram um apito, não me deram chuteiras, nem nada. Me deram uma pistola, porque era realmente uma situação muito complicada", acrescenta.

Jorvan Vieira recorda chegada à seleção do Iraque
Flashscore

A história da Guerra do Iraque se confunde com os traumas da geração que alcançou a vaga na Copa do Mundo, apenas a segunda na história do país. A participação começa nesta terça-feira (16), às 19h (horário de Brasília), contra a Noruega, em Boston — por ironia do destino, nos Estados Unidos.

Vários dos convocados mais jovens do Iraque nasceram em países europeus, pois suas famílias fugiram do conflito. A invasão dos EUA ocorreu em 2003 e se estendeu até 2011.

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"A maioria dos jogadores atua em países europeus, em campeonatos secundários, mas já possuem uma experiência considerável. Na minha época, tínhamos poucos jogadores atuando no estrangeiro, e eram em países árabes, como o Catar", afirma Jorvan Vieira.

"Os jogadores da minha geração nasceram no Iraque, enquanto os de agora nasceram na Europa. Isso significa que eles têm uma cultura completamente diferente, não apenas em relação ao futebol, mas também em termos de educação e formação", analisa.

Jorvan Vieira com a seleção do Iraque em 2007
Jorvan Vieira com a seleção do Iraque em 2007RUNGROJ YONGRIT / EPA / Profimedia

O impacto dos conflitos no Iraque não se limita à nova geração. A referência da seleção é o atacante Aymen Hussein, de 30 anos, que perdeu o pai em um ataque do Al-Qaeda, em 2008. Já o irmão de Hussein foi sequestrado pelo Estado Islâmico em 2014 e segue desaparecido.

"Do grupo de 23 selecionados em 2007, todos já tinham perdido entes queridos durante a guerra. Seja por confrontos, seja por brutalidades. Tenho histórias que não dá para imaginar. Inclusive, escrevi um livro sobre isso", diz Vieira.

O livro mencionado é "Dedico o gol a Bush", publicado em italiano em 2021 e traduzido para árabe, com prefácio de Zico. Ainda não há edição em português.

Prévia de Aymen Hussein na Copa do Mundo
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Entre sunitas, xiitas e curdos

Jorvan Vieira conta que a geração atual da seleção convive melhor com as diferenças étnico-religiosas do Iraque, sobretudo entre sunitas, xiitas e curdos. Unir grupos distintos em torno do mesmo objetivo foi o grande desafio do técnico na saga de 2007.

"Também existe isso nesta seleção atual, só que de forma mais amenizada, porque a mentalidade já evoluiu. Na minha época não era assim, pois vivíamos um período de guerra, e em tempos de guerra existem hostilidades e rancor. Uns dizem que os xiitas atacam, outros que os sunitas atacaram, e por aí vai", explica Vieira.

"Os sunitas e os xiitas brigavam para eu ir na mesquita de cada um no Iraque. Eu falei para me darem um papel e uma caneta. Escrevi 'sunita' e 'xiita', coloquei dentro de um copo e disse: 'O primeiro que sair é onde vou'. E saiu sunita. Lá fui eu visitar a mesquita dos sunitas, e depois a dos xiitas. Foi uma confusão terrível", lembra o treinador.

Uma das situações que evoluiu, segundo Jorvan Vieira, é a das refeições conjuntas na concentração. O técnico relata que sunitas e xiitas evitavam ao máximo se cruzar.

"Depois de cinco dias vendo isso, fechei o restaurante e disse: 'Vocês não vão comer nem almoço nem jantar, e também não vão comprar comida na rua. Ou sentam todos juntos, ou não há hipótese'. Foi aí que caíram na realidade. 'Esse cara é duro, não vamos conseguir dobrá-lo'. Porque eles dobravam os outros treinadores, especialmente os locais, que puxavam a sardinha para o lado deles, mas procurei a igualdade", declara.

"Quando fazia a lista dos quartos, um jogador vinha: 'Ô, mister, não quero ficar naquele quarto, com ele não fico'. Um era xiita, outro sunita. Eu fazia questão de mesclar, então falava: 'Não tem problema, pega a mala'. Chamava o auxiliar e dizia: 'Pega ele, vê um táxi e leva de volta para Bagdá'."

"Aí o jogador recuava: 'Não, não, eu fico'. Assim fui criando uma rede entre eles, para que se interligassem, a ponto de depois se beijarem, se abraçarem e passarem a bola um para o outro. Mas foi muito duro. O futebol tem esse poder de juntar coisas que parecem inimagináveis na sociedade em geral", conclui Vieira.

Dados do Iraque na Copa do Mundo
Dados do Iraque na Copa do MundoFlashscore

Nascido em Duque de Caxias-RJ e luso-brasileiro, Jorvan Vieira construiu a carreira de técnico no Oriente Médio. Ele teve duas passagens pela seleção do Iraque (2007 e 2008/2009) e treinou um clube do país em 2024/25, o Newroz. Recentemente assumiu o comando do Al-Ahli, do Bahrein.

A Copa do Mundo de 2026 será realizada de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções, 104 jogos e será disputado em 16 estádios.

 

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