A ilha ao sul do Caribe, localizada ao norte da Venezuela, é o menor território a já conquistar uma vaga em uma Copa do Mundo. Para se ter uma ideia, toda a população da ilha é menor do que algumas das maiores torcidas presentes em jogos da competição. E o país pode ser atravessado de ponta a ponta em menos de uma hora de carro. As chances estatísticas de encontrar jogadores de nível mundial por lá eram, teoricamente, quase nulas.
Autônomo desde 2010, após a dissolução da Federação das Antilhas Holandesas, Curaçao ainda pertence à Holanda, mas tem sua própria Constituição, governo, primeiro-ministro e parlamento local. Em relação à economia, está entre as mais modestas do mundo: a Apple gera o equivalente ao PIB nacional em menos de uma semana.

Apenas um jogador nascido no país
Após a dissolução das Antilhas Holandesas em outubro de 2010, o time de Curaçao renasceu em março de 2011. Em 20 de agosto de 2011, Curaçao disputou seu primeiro jogo contra a República Dominicana, uma derrota por 1 a 0 em amistoso. Quinze anos atrás, a seleção simplesmente não existia. Quinze anos depois, está enfrentando a Alemanha na fase de grupos de uma Copa do Mundo com 48 seleções.
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Esse é um dos paradoxos mais fascinantes deste Mundial: todos os jogadores do time nasceram na Holanda, e o time titular no empate conquistado contra a Jamaica (0 a 0), que garantiu Curaçao na Copa do Mundo, era composto 100% por atletas com dupla nacionalidade. Entre os 26 convocados para o torneio, apenas um nasceu na ilha, Tahith Chong. Os outros 25 cresceram na Holanda.
A estratégia é clara e metódica: Dick Advocaat, técnico de Curaçao desde 2024, montou uma rede de recrutamento ativa, convencendo jogadores de origem curaçauense que tinham dificuldade para entrar na seleção holandesa a defender Curaçao. Jogadores com pais ou avós nascidos na ilha, formados nas melhores bases da Holanda, mas que nunca conseguiram se firmar no time europeu. Curaçao identificou e convenceu sistematicamente esses atletas a mudarem de seleção. Uma abordagem que gera debate, mas cuja eficácia já não se discute.
A classificação, aliás, foi especialmente comemorada na Holanda, onde vive uma grande diáspora. Setecentas pessoas se reuniram em uma casa de shows em Roterdã. O rei Willem-Alexander e a rainha Máxima publicaram uma mensagem no X: "É fantástico que dois países do Reino vão disputar o título mundial neste verão. Parabenizamos Curaçao com muito orgulho."

Dick Advocaat, o arquiteto
A seleção é comandada por Dick Advocaat, ex-técnico da Holanda em três oportunidades, de 78 anos, que também já dirigiu a Bélgica, a Coreia do Sul, a Rússia e a Sérvia. Advocaat deixou o cargo em fevereiro para cuidar da filha doente, mas retornou ao comando da seleção em maio, após a breve passagem do compatriota Fred Rutten. Um retorno cheio de simbolismo para quem ficará marcado como o técnico que levou Curaçao à Copa do Mundo.
Sob seu comando, Curaçao fez uma campanha perfeita nas Eliminatórias da Concacaf, permanecendo invicto em 10 jogos (sete vitórias e três empates). A classificação foi confirmada justamente com o empate contra a Jamaica (0 a 0), em novembro passado.

Grupo difícil, mas nada a perder
A missão promete ser especialmente complicada: Curaçao vai enfrentar neste domingo a Alemanha, favorita do grupo, antes de encarar o Equador e a Costa do Marfim. No papel, a tarefa parece impossível. Mas é justamente isso que torna essa história tão especial. Um dos auxiliares de Advocaat, Dean Gorré, ex-jogador do Ajax e do Feyenoord, resume o espírito do grupo: "Tudo começa com um sonho, depois é preciso acreditar nesse sonho. É preciso transformar essa crença em um plano e colocar esse plano em prática. Foi isso que fizemos."
Antes da viagem para os Estados Unidos, cerca de 15 mil torcedores lotaram o estádio Ergilio Hato, em Willemstad, capital de Curaçao, para celebrar a seleção em um amistoso contra a vizinha Aruba, em uma vitória por 4 a 0. Para um país de 160 mil pessoas, é uma mobilização impressionante. Milagre ou sistema bem estruturado? Provavelmente os dois. A Blue Wave vai para a Copa do Mundo embalada por todo um povo, espalhado entre o Caribe e a Holanda, mas mais unido do que nunca.
A Copa do Mundo de 2026 será realizada de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções, 104 jogos e será disputado em 16 estádios.
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