Quando o relógio passou das 7h, a fila já acumulava entre 70 e 100 jornalistas e fotógrafos impacientes. A "grata surpresa" da eficiência europeia deu lugar à tradicional correria latina quando dois ônibus finalmente apontaram no horizonte.
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Alguns gritos de aleluia irromperam na extensa aglomeração. A linguagem mundial do alívio. Mas nem tanto. Embarque feito, jornalistas e fotógrafos espremidos, e começava ali uma jornada que nenhuma cartilha de imprensa conseguiu prever.

Sem escolta e nas mãos do piloto
Se em outras edições o comboio da mídia se deslocava sob proteção, a organização local decidiu terceirizar a responsabilidade da nossa segurança — e da nossa pontualidade — integralmente ao motorista. Éramos nós, um ônibus pesado e a astúcia de um condutor enfrentando o temido trânsito da Cidade do México, o pior do mundo, diga-se de passagem.
O governo local tentou blindar as vias: decretou home office, suspendeu aulas e espalhou um forte contingente policial com um clima quase de contraterrorismo pelas avenidas, por receio de protestos. Deu certo? Em partes. O trânsito fluiu, mas não pela engenharia de tráfego, e sim pela sagacidade do nosso piloto.

Da janela, a paisagem urbana entregava cenas tipicamente latino-americanas: policiais armados e posicionados na boleia das caminhonetes, sirenes ecoando e uma megaestrutura de segurança isolando os acessos principais ao lendário Estádio Azteca. Mas o nosso caminho seria outro.
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O "jeitinho" de Santa Úrsula
Para fugir do nó que se formava nas avenidas principais, o motorista jogou o ônibus para dentro das artérias de Santa Úrsula, o bairro periférico que abraça o Azteca, na Alcadia de Coyoacán, zona sul da Cidade do México. A manobra arrancou comentários impressionados até dos repórteres e fotógrafos locais: "Nunca na vida vi um ônibus desse tamanho passar por aqui". Eles nunca viram e nem eu.

A partir dali, a viagem virou um misto de montanha-russa com teste de precisão milimétrica. As ruas de Santa Úrsula são estreitas, labirínticas e familiares demais para qualquer brasileiro. A atmosfera é parecida com os arredores do Engenhão, no Rio, ou da Arena do Grêmio, em Porto Alegre. Uma periferia pulsante.
Ver um ônibus de turismo manobrar em marcha ré para não raspar nos carros dos moradores virou o entretenimento da manhã. Cada quebra-molas (ou tope, como chamam por aqui) era uma tensão: com o veículo lotado e pesado, o chassi raspava no concreto, gerando aquele barulho seco de metal com asfalto que fazia a imprensa internacional prender a respiração e soltar um "Meu Deus, o que está acontecendo?" coletivo.

No fim das contas, foram duas horas de viagem. Mas o atraso e o improviso nos deram o que a "bolha" da FIFA tenta esconder: imersão cultural pura. Entre uma curva fechada e um solavanco, vimos a Copa real nas casinhas coloridas, nos rostos curiosos das pessoas espiando pelas janelas e no comércio local acordando para o maior espetáculo da Terra.
Nosso intrépido piloto não conseguiu superar o último desafio, romper a Calle de San León e adentrar nas dependências do Estádio Azteca. Ao menos, a promessa era de que a imprensa teria acesso ao palco pulsante da abertura do Mundial. Mas, tudo bem, ele fez o que podia.

Entre "gracias", mochilas e equipamentos nas costas, o jeito foi passar pelos bloqueios policiais a pé, ganhando as calles do bairro histórico e presenciando os populares se entregando ao clima real da Copa.
Sobrevivemos. O Azteca está logo ali, mas a melhor história do dia aconteceu, sem dúvidas, nas calçadas de Santa Úrsula.
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