Entre curvas e vielas, uma viagem maluca entregou imersão cultural na abertura da Copa

Entre curvas e vielas, uma viagem maluca entregou imersão cultural na abertura da Copa
Entre curvas e vielas, uma viagem maluca entregou imersão cultural na abertura da CopaJosias Pereira / Flashscore

Quem cobre Copa do Mundo sabe que o manual da FIFA vira uma peça de ficção científica quando se cruza com a realidade das ruas. Nesta quinta-feira (11), data que marca a abertura do Mundial, o despertador tocou às 5h30 da manhã com a promessa de um shuttle pontual às 6h15 em um dos hotéis credenciados. Promessa que derreteu no asfalto mexicano.

Quando o relógio passou das 7h, a fila já acumulava entre 70 e 100 jornalistas e fotógrafos impacientes. A "grata surpresa" da eficiência europeia deu lugar à tradicional correria latina quando dois ônibus finalmente apontaram no horizonte.

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Alguns gritos de aleluia irromperam na extensa aglomeração. A linguagem mundial do alívio. Mas nem tanto. Embarque feito, jornalistas e fotógrafos espremidos, e começava ali uma jornada que nenhuma cartilha de imprensa conseguiu prever.

Fila da imprensa para os shuttles da FIFA
Fila da imprensa para os shuttles da FIFAJosias Pereira / Flashscore

Sem escolta e nas mãos do piloto

Se em outras edições o comboio da mídia se deslocava sob proteção, a organização local decidiu terceirizar a responsabilidade da nossa segurança — e da nossa pontualidade — integralmente ao motorista. Éramos nós, um ônibus pesado e a astúcia de um condutor enfrentando o temido trânsito da Cidade do México, o pior do mundo, diga-se de passagem. 

O governo local tentou blindar as vias: decretou home office, suspendeu aulas e espalhou um forte contingente policial com um clima quase de contraterrorismo pelas avenidas, por receio de protestos. Deu certo? Em partes. O trânsito fluiu, mas não pela engenharia de tráfego, e sim pela sagacidade do nosso piloto.

Apreensão no trajeto não faltou
Apreensão no trajeto não faltouJosias Pereira / Flashscore

Da janela, a paisagem urbana entregava cenas tipicamente latino-americanas: policiais armados e posicionados na boleia das caminhonetes, sirenes ecoando e uma megaestrutura de segurança isolando os acessos principais ao lendário Estádio Azteca. Mas o nosso caminho seria outro.

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Azteca recebeu cerimônia de abertura e primeiro jogo da Copa
Azteca recebeu cerimônia de abertura e primeiro jogo da CopaJosias Pereira / Flashscore

O "jeitinho" de Santa Úrsula

Para fugir do nó que se formava nas avenidas principais, o motorista jogou o ônibus para dentro das artérias de Santa Úrsula, o bairro periférico que abraça o Azteca, na Alcadia de Coyoacán, zona sul da Cidade do México. A manobra arrancou comentários impressionados até dos repórteres e fotógrafos locais: "Nunca na vida vi um ônibus desse tamanho passar por aqui". Eles nunca viram e nem eu. 

Uma viagem pelas ruas de Santa Úrsula
Uma viagem pelas ruas de Santa ÚrsulaJosias Pereira / Flashscore

A partir dali, a viagem virou um misto de montanha-russa com teste de precisão milimétrica. As ruas de Santa Úrsula são estreitas, labirínticas e familiares demais para qualquer brasileiro. A atmosfera é parecida com os arredores do Engenhão, no Rio, ou da Arena do Grêmio, em Porto Alegre. Uma periferia pulsante. 

Ver um ônibus de turismo manobrar em marcha ré para não raspar nos carros dos moradores virou o entretenimento da manhã. Cada quebra-molas (ou tope, como chamam por aqui) era uma tensão: com o veículo lotado e pesado, o chassi raspava no concreto, gerando aquele barulho seco de metal com asfalto que fazia a imprensa internacional prender a respiração e soltar um "Meu Deus, o que está acontecendo?" coletivo.

A chegada no Azteca
A chegada no AztecaJosias Pereira / Flashscore

No fim das contas, foram duas horas de viagem. Mas o atraso e o improviso nos deram o que a "bolha" da FIFA tenta esconder: imersão cultural pura. Entre uma curva fechada e um solavanco, vimos a Copa real nas casinhas coloridas, nos rostos curiosos das pessoas espiando pelas janelas e no comércio local acordando para o maior espetáculo da Terra.

Nosso intrépido piloto não conseguiu superar o último desafio, romper a Calle de San León e adentrar nas dependências do Estádio Azteca. Ao menos, a promessa era de que a imprensa teria acesso ao palco pulsante da abertura do Mundial. Mas, tudo bem, ele fez o que podia.

Jornalistas a pé próximos ao Azteca
Jornalistas a pé próximos ao AztecaJosias Pereira / Flashscore

Entre "gracias", mochilas e equipamentos nas costas, o jeito foi passar pelos bloqueios policiais a pé, ganhando as calles do bairro histórico e presenciando os populares se entregando ao clima real da Copa. 

Sobrevivemos. O Azteca está logo ali, mas a melhor história do dia aconteceu, sem dúvidas, nas calçadas de Santa Úrsula.

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