Para falar sobre o Brasil, a série ‘Quem é Quem no Mundial’ conversou com Maurício Dulac, atual técnico do Al Riyad, da Arábia Saudita, e ex-integrante das comissões técnicas de profissionais como Tite, Dorival Júnior, Odair Hellmann e Abel Braga, entre outros. Ao lado de Tite, participou da campanha brasileira na Copa do Mundo de 2018, na Rússia.
Para Dulac, a principal dificuldade enfrentada pelo Brasil nos últimos anos esteve justamente na falta de continuidade.
"A seleção ficou buscando uma identidade por algum tempo. As trocas de treinadores causam alguns incômodos dentro do processo, principalmente porque na seleção você não tem tempo de treino", avaliou.
Segundo ele, a sequência de mudanças no comando prejudicou a consolidação de uma maneira de jogar. Ainda assim, Dulac acredita que a chegada de Ancelotti representa um novo começo.
"Agora com a chegada do Ancelotti, eu creio que a gente está buscando uma nova identidade, uma nova maneira de jogar e de se comportar durante os jogos."

A Seleção pode evoluir durante a copa?
Quando se fala em trabalho com seleções, algo inédito na vitoriosa carreira de Ancelotti, fala-se também em pouco tempo para treinamento. Afinal, os jogadores, que mudam de uma data FIFA para outra, se encontram por um período de aproximadamente dez dias, disputam duas partidas nesse intervalo e depois retornam aos seus respectivos clubes.
Com o treinador italiano há apenas um ano no cargo, Dulac vê justamente a disputa do Mundial como uma oportunidade para a Seleção crescer ao longo da competição. Na avaliação do profissional, o nível elevado dos confrontos acelera os processos de adaptação e desenvolvimento, especialmente em equipes com jogadores acostumados ao mais alto nível do futebol europeu.
"Eu acredito que a seleção vai crescer muito durante a Copa. Claro que muito depende desse primeiro jogo. Ele dá confiança, deixa o jogador mais tranquilo e ajuda a equipe a evoluir."

Como deve jogar a Seleção?
Uma das principais incógnitas da Seleção está na formação ideal. Nos amistosos preparatórios contra Panamá e Egito, Ancelotti alternou entre um sistema com quatro atacantes — que também utilizou em amistosos anteriores — e uma estrutura com três meio-campistas, com Paquetá à frente de Casemiro e Bruno Guimarães.
Para Dulac, porém, a discussão vai além dos números no papel.
"Eu acho que o Ancelotti vai trabalhar em cima do adversário. A diferença de sistema para mim não é grande. É muito mais uma diferença de características dos jogadores."

A tendência, segundo ele, é que o treinador monte a equipe de acordo com as necessidades de cada partida, repetindo uma característica que marcou suas passagens pelos principais clubes da Europa.
Com o corte de Wesley Ancelotti optou por chamar o volante Éderson, da Atalanta, ao invés de outro lateral-direito. A escolha aumenta ainda mais as opções para o meio-campo e pode ser um indicativo de que o treinador pretende utilizar uma formação mais equilibrada, próxima de um 4-3-3, reduzindo a utilização de um modelo com quatro atacantes.
E a lateral, como fica?
O corte de Wesley também trouxe à tona uma discussão recorrente no futebol brasileiro: a escassez de laterais com características ofensivas.

Atualmente, as alternativas para o lado direito incluem Danilo e Ibañez, jogadores que atuam predominantemente como zagueiros em seus clubes e podem ser utilizados na função. Para Dulac, a origem do problema está na própria formação dos atletas.
"A gente acabou deixando os laterais muito presos dentro de um sistema. E aí acabou não formando mais laterais como formava antigamente."
Na avaliação dele, o futebol moderno reduziu a liberdade dos jogadores da posição, diminuindo o surgimento de atletas com perfil semelhante ao de gerações anteriores.
Disputa acirrada no ataque

A disputa por vagas no ataque também movimenta o debate entre torcedores e especialistas. Um dos principais assuntos é a situação de Endrick, que chega ao torneio após boas atuações recentes. Para Dulac, entretanto, a experiência ainda pesa na definição dos titulares.
"Eu acho que como titular ainda não. Ele é um cara que pode ajudar muito entrando nas partidas, com juventude e força física."
Na visão do ex-auxiliar, o atacante pode desempenhar um papel importante ao longo dos jogos, mas a concorrência com atletas mais experientes ainda o deixa atrás na corrida por uma vaga entre os onze iniciais.

"Estamos falando de jogadores de altíssimo nível. Para começar uma Copa do Mundo, eu acho que os outros jogadores estão na frente dele."
Quem é a estrela da Seleção? E a surpresa?
Durante a série, perguntamos a todos os entrevistados quem poderia ser o destaque e a surpresa de suas respectivas seleções. Com o Brasil, não foi diferente. Ao falar do principal nome da equipe, Dulac apontou para o jogador que mais mobiliza as expectativas dos brasileiros.
"O cara que a gente mais espera é o Neymar. A gente espera que ele esteja em condições e possa ajudar da melhor forma possível."

Neymar segue tratando uma lesão de grau 2 na panturrilha e, segundo a CBF, tem evoluído bem. Ele não estará em campo contra o Marrocos, mas tem chances de ficar à disposição para o duelo com o Haiti, na sexta-feira (19).
Já ao apontar uma possível surpresa, Dulac escolheu o camisa 8 da Seleção.
"Acredito que o Bruno Guimarães pode ser esse cara, pela confiança que ele tem e pelo nível em que se encontra hoje. Acho que todos estão esperando algo de outra pessoa, mas ele já mostrou uma boa condição nos amistosos. De repente, ele será essa surpresa para todo mundo."
Bruno é um dos homens de confiança de Ancelotti. Esteve presente em cinco das seis convocações do treinador e só ficou de fora da lista de março deste ano por causa de uma lesão. Reserva na Copa do Mundo do Catar, hoje reúne credenciais para ser um dos principais nomes da equipe brasileira.

Como utilizar Neymar?
Caso esteja plenamente recuperado fisicamente, Dulac acredita que o melhor caminho é utilizar Neymar em uma função central, com liberdade para criar.
"Tem que dar liberdade criativa para ele. O Neymar é uma referência técnica."
Segundo ele, o camisa 10 rende mais atuando por dentro, próximo da área adversária e participando diretamente da construção das jogadas.
"Quer seja como o último homem, quer seja por trás desse último homem, ele vai render da melhor forma possível."

O gol da Seleção
A convocação dos goleiros também gerou debate entre torcedores e parte da imprensa. Apesar das críticas, Dulac considera que Ancelotti levou os nomes mais preparados para a competição.
"Eu acho que levou sim. São os caras que estão mais preparados para isso."
Entre eles, Alisson segue como o titular na visão do ex-auxiliar.

"Para mim ele é o goleiro da seleção. O Ederson é um baita goleiro também, mas o Alisson ainda me passa um pouco mais de segurança."
Já Weverton é apontado como uma peça importante pela experiência e liderança dentro do grupo.
Confiança no hexa
Mesmo reconhecendo as dificuldades naturais de uma Copa do Mundo, Dulac demonstra confiança na capacidade da seleção de fazer uma campanha competitiva.
"Eu acredito que a gente vai chegar bem longe."
Para ele, aspectos emocionais e o ambiente criado dentro da delegação podem ser determinantes para o desempenho da equipe ao longo do torneio.
"Se a gente conseguir o título, vai ser uma coisa muito legal para todos nós. Sempre que a seleção brasileira é campeã do mundo, todo o esporte brasileiro ganha."

Agenda do Brasil na Copa do Mundo
13/6 (sábado)
19h - Brasil x Marrocos (MetLife Stadium – East Rutherford, New Jersey) - Globo, SporTV, CazéTV, SBT/N Sports e Flashscore (comentários em áudio)
19/6 (sexta-feira)
21h30h – Brasil x Haiti (Linclon Financial Field - Filadélfia) - Globo, SporTV, CazéTV, SBT/N Sports e Flashscore (comentários em áudio)
24/6 (quarta-feira)
19h – Escócia x Brasil (Hard Rock Stadium – Miami Gardens) - Globo, SporTV, CazéTV, SBT/N Sports e Flashscore (comentários em áudio)
