“Estava lá quando a seleção se classificou. A campanha deles nas Eliminatórias foi até que tranquila. Conversava bastante com os jogadores da seleção que também estavam no meu time”, afirma Jonatan Luccas, volante multifacetado brasileiro que atuou na liga uzbeque em 2025 pelo Pakhtakor, um dos principais times da capital Tashkent e do país.
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A seleção asiática, que chegou à última rodada das Eliminatórias já classificada, passou a ser dirigida só após a conquista da vaga pelo ex-zagueiro italiano, campeão do mundo com a Azzurra em 2006. O esquema preferido do técnico remete aos bons tempos da Itália, em que uma boa defesa estava na base de tudo.
De acordo com Luccas, que chegou a um dos países icônicos da antiga Rota da Seda por conexões em Portugal, é possível ter certeza de uma coisa em relação ao primeiro time da Ásia Central que estará em uma Copa do Mundo: “O campeonato é muito intenso. Claro que a qualidade técnica é diferente quando comparada com outros países que estarão na Copa, mas gostei muito da intensidade dos jogos. No meu time, os jogadores que também atuavam pela seleção tinham condições de ir para fora. Será uma equipe muito intensa, sem dúvida”, explica o volante brasileiro que, depois de uma temporada do outro lado do mundo e de uma contusão séria, está de volta ao Brasil para jogar a Série C pelo Brusque, de Santa Catarina.
“A minha ida para o Uzbequistão ocorreu porque o Pedro Moreira, treinador português, foi para lá. Eu estava jogando no Aves, na primeira divisão portuguesa, e, como Marco Leite, auxiliar do Moreira, me conhecia, veio o convite. Quando pesquisei, vi que era o principal time do país, que a cidade tinha uma excelente estrutura e ainda havia a chance de jogar a Champions da Ásia. Me mudei com a minha família", conta.

Por jogar ao lado dele no Pakhtakor, Luccas não tem dúvida de quem pode ser uma das surpresas uzbeques na Copa do Mundo. “O Igor Sergeev, que jogava comigo e agora foi vendido para o Irã (ele atua no Persepolis), pode surpreender. Ele poderá ser uma referência no ataque. Ele é muito bom jogador. Foi artilheiro do campeonato no ano passado. Fomos campeões da Copa e vice do campeonato, e ele fez muitos gols (na liga local, foram 20 em 29 jogos). Jogador experiente, tem 32 anos, forte, de pé canhoto, que finaliza bem.”
Outra referência para a apaixonada torcida local, ratifica Luccas, é o zagueiro Khusanov. “Eles gostam muito de futebol. É muito difícil para um jogador da Ásia chegar à Europa. E Khusanov conseguiu ser zagueiro do City. Ele se tornou a grande referência para eles. É o ídolo máximo mesmo. Ele conseguiu quebrar até a barreira do preconceito que existe com jogadores asiáticos, inclusive do Uzbequistão, e chegar a um dos maiores clubes da atualidade. Para mim, não é surpresa nenhuma eles terem chegado a uma Copa. Há vários treinadores estrangeiros, inclusive hoje, ajudando a escola local a melhorar.”
Escola italiana
Na Copa, os três zagueiros, dentro do esquema 3-4-3, devem estar presentes, assim como as transições rápidas rumo ao gol adversário, segundo análise dos amistosos mais recentes da seleção da Ásia Central. Cannavaro, que não viu pessoalmente a festa da conquista da vaga pelas ruas da capital Tashkent, dirigiu o time em apenas oito jogos, todos amistosos, com uma única derrota, para o Uruguai, por 2 a 1 (seis gols sofridos no total).
Em campo, o time combina jogadores experientes e jovens em ascensão. O principal nome é Eldor Shomurodov (do Basaksehir, da Turquia, mas emprestado pela Roma), capitão e referência ofensiva, com trajetória no futebol europeu. É a esperança de gols dos torcedores uzbeques. No meio, Otabek Shukurov (do Bani Yas, dos Emirados Árabes Unidos) vem sendo um titular indiscutível, por sua experiência. É o organizador do time.

Premier League
O fator Abdukodir Khusanov, de 22 anos, é, de fato, um exemplo de consistência tática. Com Cannavaro, nos amistosos de 2025, Shomurodov (30 anos) e Shukurov (29 anos), além do goleiro Nematov, são os jogadores que mais somaram minutos em campo. Titulares absolutos da equipe asiática.

A vaga inédita para 2026 foi construída nas Eliminatórias Asiáticas com uma campanha regular. O Uzbequistão terminou entre os dois primeiros do grupo na fase final e garantiu classificação direta após empate por 0 a 0 com os Emirados Árabes Unidos, fora de casa. Na etapa decisiva, perdeu apenas uma vez em dez partidas e chegou à rodada final dependendo apenas de si.
O ciclo começou sob o comando de Srecko Katanec (iugoslavo/esloveno que, quando jogador, fez parte de uma grande fase da Sampdoria), que assumiu a seleção em 2021 e estruturou a base da equipe. Ao longo de mais de 40 jogos, consolidou um time com baixa taxa de derrotas e desempenho estável. Em 2025, deixou o cargo por questões de saúde, sendo substituído por Timur Kapadze (um dos grandes jogadores do futebol local que deve estar na comissão técnica da Copa), que conduziu a equipe na reta final da classificação.
Depois de bater na trave
A vaga encerra um histórico de eliminações nas fases decisivas das Eliminatórias. Em 2006, o Uzbequistão caiu diante do Bahrein pelo critério de gols fora, após uma partida ter sido repetida por erro de arbitragem. Em 2014, voltou a ser eliminado na última fase, desta vez pela Jordânia, nos pênaltis. Na ocasião, após nove cobranças, com apenas um erro de cada lado, o zagueiro Anzur Ismailov desperdiçou a décima tentativa.
A geração atual rompe esse padrão. Parte do elenco vem de campanhas consistentes nas categorias de base, como as quartas de final dos Mundiais Sub-20 de 2013 e 2015, e títulos continentais recentes. Diferentemente de ciclos anteriores, o país conseguiu manter a evolução desses jogadores até o nível profissional. Outro triunfo bastante comemorado foi a vaga para os Jogos de Paris, do time sub-23.
Historicamente, nomes como Server Djeparov, Odil Ahmedov, Ignatiy Nesterov e Maxim Shatskikh ficaram próximos da classificação, mas não alcançaram o torneio. O próprio Kapadze, ex-jogador da seleção, participou dessas campanhas antes de integrar a comissão técnica que levou o país ao Mundial.

O Uzbequistão, ex-membro da União Soviética, fará sua estreia em um Mundial após décadas de tentativas frustradas e consolida um processo baseado em continuidade e formação. Resta saber, como o próprio Cannavaro vem dizendo, se o ritmo que os jogadores costumam enfrentar no campeonato local será páreo para bons resultados na Copa do Mundo.
A tendência é que a seleção mantenha o perfil apresentado no ciclo classificatório: organização defensiva, jogos de baixa margem no placar e dependência de eficiência no ataque. Cannavaro, inclusive, campeão mundial com uma Itália que se defendia muito bem, é a prova cabal de que, na Copa, a ideia pode ser mesmo mostrar que o melhor ataque poderá ser a defesa, apesar de a quantidade de gols cedidos durante os 14 jogos das eliminatórias asiáticas não ter sido tão baixa assim. A única derrota ocorreu para uma seleção que também estará no Mundial: 2 a 1 para o Catar.

Para um país que acumulou eliminações dolorosas (com destaque para derrotas agonizantes na fase final das eliminatórias continentais para as Copas da Alemanha 2006 e do Brasil 2014), enfim chegou a sua vez. Os adversários da primeira fase vão obrigar o time uzbeque a jogar no limite para que possa continuar fazendo história: Portugal, Colômbia e República Democrática do Congo. As quatro nações formam o Grupo K.
“É muito difícil expressar em palavras o que sentimos. Não apenas nós, jogadores, mas todo o Uzbequistão realmente queria (essa classificação) e, depois, todos ficaram muito felizes com o resultado, porque todos entendemos o que isso significava para o nosso povo e nossos torcedores, e é por isso que é tão importante para nós”, afirmou o líder do time, Shomurodov, à FIFA, em janeiro.
O brasileiro Luccas corrobora: “Vou torcer para eles fazerem um crimizinho lá na fase de grupos e conseguir a classificação. Eles têm condição para isso.”

Agenda do Uzbequistão
17/6 (quarta-feira)
23h - Uzbequistão x Colômbia (Estádio Banorte, Cidade do México, México) - Globo, SporTV, CazéTV e Flashscore (comentários em áudio)
23/6 (terça-feira)
14h - Portugal x Uzbequistão (Estádio NRG, Houston, EUA) - CazéTV e Flashscore (comentários em áudio)
27/6 (sábado)
20h30 - República Democrática do Congo x Uzbequistão (Estádio Mercedes-Benz, Atlanta, EUA) - CazéTV
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