Socceroos: retrato de uma Austrália multicultural nos Estados Unidos de Trump

Austrália conta com diversas origens em sua seleção
Austrália conta com diversas origens em sua seleçãoREUTERS

Nascidos em campos de refugiados ou filhos de imigrantes, os jogadores australianos exaltam com orgulho suas origens em um vídeo que viralizou na véspera da Copa do Mundo de 2026. Uma mensagem forte dos Socceroos, que enfrentam os Estados Unidos nesta sexta-feira (19).

Antes mesmo de entrarem em campo para a primeira partida desta Copa do Mundo, os Socceroos já tinham publicado um vídeo coletivo em que 20 dos 26 jogadores do grupo contam suas origens. O momento foi escolhido a dedo: a Copa de 2026 acontece principalmente nos Estados Unidos, em um contexto marcado por grandes operações da polícia de imigração ICE e por uma retórica anti-imigração promovida nos mais altos níveis pelo governo Trump.

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A mensagem do time australiano é direta. Cada jogador fala em primeira pessoa. Awer Mabil abre o vídeo lembrando que nasceu no campo de refugiados de Kakuma, no Quênia, filho de pais sul-sudaneses. Mohamed Touré fala sobre a Guiné, onde nasceu de pais refugiados liberianos antes de crescer em Adelaide. Milos Degenek, por sua vez, fugiu da Croácia com 18 meses, viveu em um campo de refugiados na Sérvia e depois chegou a Sydney aos seis anos.

O zagueiro Lucas Herrington, de origem zimbabuense, "nasceu em Brisbane, na Austrália". O lateral Aziz Behich acrescenta: "Minha família emigrou do Chipre." Jason Geria, que tem raízes em Uganda, faz questão de dizer que nasceu na Austrália. Resumindo, o grupo australiano reúne pelo menos 15 origens culturais e étnicas diferentes, em um país onde quase um em cada três habitantes nasceu no exterior.

Jackson Irvine, o arquiteto da mensagem

O vídeo surgiu a partir de encontros organizados pelo sindicato dos jogadores profissionais australianos (Professional Footballers Australia), liderados em grande parte por Jackson Irvine. O meio-campista de 33 anos, capitão do Sankt Pauli na Bundesliga, também é uma das vozes mais ativas do futebol australiano no campo político.

Em abril, ele declarou que a decisão da FIFA de conceder um prêmio pela paz a Donald Trump "ridicularizava" as ambições da entidade em relação aos direitos humanos. Ele chegou a pedir publicamente para Trump garantir a segurança das minorias durante o torneio.

No vídeo, é ele quem expressa o lema do grupo: "Os Socceroos não são apenas um time, somos o reflexo da Austrália moderna." Antes da Copa de 2022 no Catar, ele já fazia parte dos jogadores que pediram a descriminalização das relações homossexuais no país-sede.

Trajetórias que dão peso às palavras

Dois dos principais nomes da seleção representam de forma concreta essa história. Nestory Irankunda (20 anos, Watford) e Mohamed Touré (22 anos, Norwich City) nasceram em campos de refugiados e cresceram em Adelaide depois de serem acolhidos na Austrália. Touré resume o que significa para ele vestir a camisa australiana: "Teria um significado enorme para mim e para minha família. É o país que nos deu a chance de viver, acho que é a melhor forma de retribuir fazendo o que amo no mais alto nível."

Awer Mabil, ponta do Castellón e terceiro jogador do grupo nascido em campo de refugiados, completa o quadro: "Por trás dessa camisa existem muitas trajetórias diferentes. Ser um Socceroo tem significados diferentes para cada um de nós, mas com um único objetivo: deixar o país orgulhoso." Irankunda também destacou o que representa a presença de seis jogadores de origem africana no elenco: "É incrível estarmos todos aqui juntos com origens africanas. É algo positivo para nós e para a comunidade africana."

Um eco contraditório na Austrália

A iniciativa dos Socceroos surge em um contexto interno tenso. O partido One Nation, fundado com uma plataforma anti-imigração, conquistou pela primeira vez em sua história uma cadeira na Câmara dos Representantes e vem crescendo nas pesquisas federais. O diretor-geral do sindicato dos jogadores, Beau Busch, destacou o paradoxo de forma direta: "Em um momento em que alguns tentam nos dividir e questionar quem pertence a este país, os Socceroos lembram com força quem realmente somos como nação."

Os Socceroos não fazem política partidária. Não citam nenhum governo, não mencionam nenhum partido. Mostram rostos e deixam que as histórias falem por si, em um torneio coorganizado por um país onde a questão da identidade nunca foi tão debatida.

A Copa do Mundo de 2026 será realizada de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México. O torneio conta com 48 seleções, 104 jogos e será disputado em 16 estádios.

 

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