Da cidade de Abidjan a Roma, passando pela França e pela Premier League, a carreira do atacante marfinense foi uma montanha-russa de emoções, cheia de arrancadas com a bola nos pés e gols inesquecíveis.
Gervais Lombe Yao Kouassi, o Gervinho, folheou o álbum de memórias com nossa equipe do Flashscore com a serenidade de quem sabe que deixou sua marca no futebol dos anos 2010:
Costa do Marfim na Copa e vida na 3ª divisão
"A Costa do Marfim tem um belo time, com jovens muito talentosos. Também há veteranos que servem de guia para esses garotos. Se a Costa do Marfim jogar seu melhor futebol, sem complexos, pode surpreender muita gente nesta Copa do Mundo," disse ele sobre a atual seleção de seu país.
"Vejo que o futebol africano está evoluindo na mesma velocidade do futebol europeu. As seleções africanas hoje conseguem bons resultados contra as principais potências do futebol mundial. Além disso, vemos muitos jogadores do continente africano nas grandes ligas europeias. Embora, em comparação com um passado recente, hoje existam menos grandes estrelas," acrescentou.

A carreira dentro de campo do ponta marfinense da faixa chegou ao fim em 2023, após passagens finais pela China, retorno à Itália com o Parma, Turquia e Grécia.
Mas sua relação com o futebol segue mais forte do que nunca: "Sou dono de um clube da Terceira Divisão da Costa do Marfim e trabalho com a seleção sub-17 do país. Também criei uma estrutura de gestão de jogadores para dar minha contribuição e ajudar os mais jovens."
Confira a tabela de Costa do Marfim no Mundial 2026
Geração de Ouro e o triunfo africano
Durante anos, a Costa do Marfim foi vista como a grande decepção do futebol africano. Uma Geração de Ouro repleta de talento, de Drogba aos irmãos Yaya e Kolo Touré, que frequentemente tropeçava na reta final: quartas de final da CAN em 2010, final perdida nos pênaltis para Zâmbia em 2012, quartas de final em 2013... No meio disso, uma sangrenta guerra civil, em que o futebol teve papel fundamental de união para o país.
Até a noite mágica em Bata, em 2015, na Guiné Equatorial. Uma final de tirar o fôlego contra Gana, decidida em uma disputa interminável de pênaltis que terminou 9 a 8, com a cobrança decisiva convertida de forma incrível pelo goleiro marfinense Boubacar “Copa” Barry.

Gervinho, um dos protagonistas daquele torneio com dois gols, lembra daquele momento com muita emoção até hoje:
"Vencer a Copa Africana de Nações em 2015 foi um momento crucial na minha carreira, sem dúvida o maior de todos. Ganhar um título tão importante pelo seu país é algo que não tem preço. Você não consegue nem imaginar a alegria e o orgulho imenso que sentimos naqueles dias. É um momento inesquecível na minha memória. E também foi um marco fundamental, uma verdadeira libertação, porque estávamos perseguindo esse troféu há anos," recordou.
"Tínhamos uma seleção incrível, o melhor elenco da África no papel, mas sempre acabávamos tropeçando na hora decisiva da Copa. Conquistar foi a realização de um sonho."
A ligação com Rudi Garcia
No futebol moderno, marcado por trocas constantes de camisa e rodízio de treinadores, é raro encontrar uma parceria técnica e humana tão duradoura quanto a de Gervinho e Rudi Garcia. O treinador francês foi muito mais do que um mentor para o marfinense: foi um ponto de referência, levando-o em várias aventuras pela Europa.

"Rudi me comandou em três clubes diferentes:Le Mans, Lille e Roma. Nem preciso dizer que essa trajetória em comum criou um vínculo muito forte, quase especial, entre nós. Ele sempre soube como lidar comigo; foi o treinador que, mais do que qualquer outro, conseguiu tirar o melhor de mim," diz Gervinho.
"Pensando bem, joguei meu melhor futebol sob o comando dele. Não é só uma questão tática; é uma relação de confiança. Até hoje, seguimos muito conectados."
Milagre do Lille e o trio de ataque dos sonhos
O Lille da temporada 2010-2011 é considerado um dos times mais espetaculares da história recente da Ligue 1. Aquele grupo, capaz de conquistar a dobradinha de Liga e Copa da França, encantava no gramado com um ritmo alucinante.
Grande parte do mérito era do trio de ataque, onde as arrancadas de Gervinho e a precisão de Moussa Sow eram potencializadas pelo talento puro de um jovem belga destinado a brilhar nos maiores palcos do futebol europeu: Eden Hazard.

"Me diverti muito jogando com o Eden. E tenho certeza de que ele também se divertiu jogando ao meu lado, até porque naquela época eu estava jogando em altíssimo nível," lembra Gervinho.
"Com Moussa Sow, formamos um trio de ataque de altíssima qualidade; a gente se entendia muito bem, jogava de memória. Fizemos muito estrago na França naquele ano com a dobradinha de Copa e Liga. Estávamos imparáveis," recorda com carinho.
Saudades de Totti e da Roma
Depois da França e de dois anos na Inglaterra, ele chegou à Serie A. Gervinho precisou de pouco tempo para virar ídolo da Curva Sud.
Suas arrancadas com a bola, atuando como ponta-esquerda no 4-3-3 que Garcia parecia ter desenhado para ele, desmontavam as defesas italianas fechadas, trazendo um sopro de anarquia criativa.

Mas jogar pela Roma naqueles anos significava, acima de tudo, dividir o vestiário com o homem que, mais do que qualquer outro, chegou perto do papel de verdadeiro Oitavo Rei de Roma. Tanto que, ao ser perguntado sobre o maior companheiro com quem já jogou, o marfinense não hesita.
"Totti, o capitão, era simplesmente um jogador formidável, fora de série. Adorava jogar com ele na Roma; nosso entrosamento em campo era natural. Mas além do craque dentro de campo, quero dizer que o Francesco também é uma pessoa fantástica," diz Gervinho.
E ao ser pedido para contar uma história específica, Gervinho sorri, como se a memória estivesse cheia de momentos leves e marcantes demais para escolher só um.
"São tantas lembranças boas que é difícil escolher só uma. O certo é que vivi momentos maravilhosos com ele, dentro e fora de campo. Juntos, nos divertimos e fizemos a torcida da Roma vibrar, dando show."
A relação com Wenger e a Premier League
Chegando ao Arsenal em 2011, muito desejado por Arsène Wenger para dar mais imprevisibilidade ao ataque dos Gunners, seu impacto na Premier League foi cheia de altos e baixos.
"Foram poucos os defensores que conseguiram me parar quando eu estava inspirado, quando era o meu dia. Como eu quase nunca fazia partidas ruins, não me lembro de nenhum defensor que tenha me causado problemas. Eu passava por eles quando queria", afirmou o marfinense.

Muitos na Inglaterra falavam de uma relação complicada com o treinador do Arsenal por conta das diferenças de postura. Mas Gervinho, hoje, anos depois, coloca panos quentes e analisa a situação com muita clareza.
"Na verdade, nunca houve nenhum problema real entre mim e o treinador. Arsène Wenger é um grande profissional. É verdade que aquela faísca e conexão especial que tive com o Rudi Garcia não aconteceu, mas tivemos uma relação completamente normal, baseada em respeito profissional e na dinâmica clássica entre técnico e jogador," recorda.
E neste ano, como torcedor, Gervinho comemorou o título do Arsenal na Premier League. "Uma alegria imensa porque o time vinha perseguindo esse título há vários anos. Nas últimas temporadas, parecia até uma maldição. O time sempre liderava a disputa e acabava tropeçando no final. Mas tudo isso ficou para trás agora," ele diz. "Esse título encerra uma longa espera e anos de frustração. A torcida tem todo direito de estar feliz. Eles mereciam esse título há muito tempo. A paciência deles finalmente foi recompensada."
