"Aílton tem espaço garantido no hall da fama da Bundesliga e, claro, do Werder Bremen: ele é o 5º maior artilheiro estrangeiro da história do campeonato alemão e conquistou o título da temporada 2003/04.
O ex-jogador tem experiência para falar do domínio absoluto do Bayern de Munique e conhece bem a posição para palpitar sobre as chances de Neymar estar na lista de Carlo Ancelotti para a Copa de 2026. Confira a entrevista na íntegra:

Poder do Bayern e desequilíbrio na Bundesliga
• Com todo seu conhecimento sobre a Bundesliga, o que acha do bicampeonato do Bayern de Munique?
Falar do Bayern é fácil; é o melhor time, tem os melhores jogadores e a temporada que está fazendo ofensivamente é muito boa. Tem jogadores com muito potencial para decidir e é normal, na Alemanha, o Bayern estar vivendo um bom momento.
• Como ponta, você acha que o Luis Díaz está entre os cinco melhores do mundo?
Sim, o jogador evoluiu muito e se encaixou muito bem no sistema. Para um latino, quando muda de país é um pouco difícil; pelo idioma, mentalidade, por toda a estrutura e cultura alemã, mas como ele já estava no Liverpool isso ajudou bastante para se adaptar bem na Europa. Está jogando muito bem, para mim é um dos melhores da Europa no ataque e se entendeu muito bem com o Harry Kane. Por isso o Bayern tem um grande poder ofensivo e por isso é favorito na Champions.
Siga a Bundesliga em tempo real >>
• Se compararmos a época em que você jogava e o presente: quanto a Bundesliga evoluiu?
Mudou muito. Acho que na minha época havia jogadores com mais qualidade, mais peso para jogar futebol. Em 2004, quando fui campeão, a diferença de pontos para o Bayern foi só de seis. Muito pouco e atrás vinham Dortmund, Leverkusen, Schalke, Stuttgart… Todos tinham jogadores muito bons e o nível era muito alto. Hoje vejo a Bundesliga com um nível bem mais baixo. Se tirarmos o Bayern e o Dortmund, todos os outros estão abaixo. Por isso a Bundesliga caiu muito de nível. A gente tinha times para brigar por Europa League, Champions League, mas hoje esses times estão lutando para não cair. Então, tudo mudou. O Bayern domina há mais de uma década.
• Por que esse cenário mudou?
O futebol, no geral, mudou demais. Os jogadores hoje são mais caros e estão pedindo muito dinheiro para jogar. Então, os times que não têm poder financeiro não conseguem contratar.
Falando da Alemanha, times como o Werder Bremen, ou outros que poderiam brigar na parte de cima, contrataram jogadores que precisariam de uma análise melhor. Tem jogador que foi contratado e ficou no banco, outros nem jogaram. Não estou falando só do Bremen, mas de muitos times. E quando um time tem poder financeiro forte, como o Bayern, se um jogador não vai bem, logo tem outro pronto para entrar. Na minha visão, faltou contratar jogadores de qualidade para brigar lá em cima.
Neymar no Brasil e os favoritos ao título
• Quais seleções são suas favoritas ao título do Mundial de 2026?
Eu diria que França, Argentina e Inglaterra têm times muito bons. Alemanha e Brasil também, pelo peso da camisa e pela tradição, mas a Espanha está muito forte. Acho que em Copa tudo pode acontecer.
Alemanha hoje está bem, mas ninguém sabe como vai jogar amanhã; o Brasil está muito inseguro, são jogadores que ainda não têm confiança. Tem um técnico renomado (Carlo Ancelotti), mas quem joga são os jogadores e não vejo confiança para chegar numa Copa e dizer 'Eu sou o Brasil'. Agora não estão mostrando um grande futebol. Mas, como latino, vou colocar Argentina e Brasil; e na Europa, França, Espanha e talvez Alemanha.
• Ancelotti deveria convocar o Neymar?
Para disputar uma Copa, você precisa estar em um nível físico e mental muito alto porque é muito difícil. Eu nunca joguei uma Copa, mas vejo que é uma competição muito complicada. Neymar tem uma qualidade indiscutível, mas ele precisa mudar o jeito de jogar porque já não é mais aquele Neymar de antes; fisicamente já não é igual. Mas é um jogador que pode decidir uma partida em uma jogada. Se eu fosse o técnico, convocaria ele e ele estaria na minha lista para a Copa.
• Individualmente, quais jogadores você acha que vão chegar em grande fase na Copa?
A França tem jogadores que podem fazer a diferença na Copa. Tem o Mbappé e o Olise, do Bayern. Os dois são impressionantes.

O troféu de artilheiro "roubado"
• Sabemos que você recuperou seu troféu de artilheiro da Bundesliga 2003/04: como foi isso?
Um empresário pegou meu troféu e queria que eu pagasse um valor muito alto. Eu disse que não, que ele não era meu empresário naquele momento e que eu não tinha que pagar comissão nenhuma. Então ele ficou com minhas coisas quando eu estava no México, isso foi em 2006, quando joguei no Hamburgo. Pedi minhas coisas para tirar do meu apartamento em Hamburgo e levar para Bremen. Ele levou algumas coisas para Bremen e meus troféus levou para a casa dele em Colônia. Depois que fui para a Turquia, fui para a Sérvia com um empresário alemão e aí começou a briga.
No fim, tive que pagar um valor pelo processo, mas também disse: 'olha, vou te dar um extra para a gente chegar num acordo. Se for esperar pela justiça, eu vou ganhar. Não quero vender e não concordo que você venda porque não te devo absolutamente nada'.
Mas isso acontece com muitos jogadores, que acabam encontrando pessoas ruins. Isso acontece muito. Naquela época eu só pensava em jogar e confiava nas pessoas.

• Como está sua vida hoje?
Moro na Alemanha, levo uma vida tranquila. Sou embaixador do clube (Werder Bremen). Preciso estar nos eventos, agora à tarde tenho dois compromissos. Estou tranquilo e quero dar para meus filhos um pouco da cultura europeia, e depois acho que volto para o Brasil, para minha cidade, com meus cavalos… porque gosto de fazenda. Já vou fazer 53 anos e em dois ou três anos quero voltar.
• Chega um momento na vida em que é hora de aproveitar?
Vou falar como pai: tenho cinco filhos. E família é uma preocupação enorme, é uma responsabilidade muito grande, e o pai sempre fica com aquela sensação de que os filhos nunca vão crescer e sempre vão precisar do pai. Tenho o Aílton e a Estela, que têm 18 anos, e os outros são mais velhos, já trabalham. O compromisso com a família faz a gente mudar o plano, o caminho. Então, em dois ou três anos quero voltar para o Brasil. Meus filhos já vão estar encaminhados, com os estudos concluídos. Aí quero aproveitar o resto da vida, descansar.
