Histórias da Copa: o roubo da taça Jules Rimet e o cachorro que virou herói

O lendário Pelé com a réplica da taça Jules Rimet
O lendário Pelé com a réplica da taça Jules RimetPacificCoastNews / Pacific coast news / Profimedia

O símbolo da Copa do Mundo de futebol é, sem dúvida, o troféu entregue ao campeão. Embora hoje em dia a torcida admire a famosa estatueta de ouro de 18 quilates a cada quatro anos, sua antecessora conquistou um status lendário ao longo do tempo. Talvez também porque, desde 1983, ninguém mais a viu...

O ano de 1966 foi especial para a Inglaterra. O país teve a chance de organizar o mundial mais prestigiado e o objetivo dos torcedores era claro: conquistar o tão sonhado título de campeão mundial pela primeira vez.

Confira o calendário da Copa do Mundo

A Federação Inglesa (FA) recebeu a taça em janeiro de 1966. Fora alguns eventos promocionais, ela ficava guardada na sede da entidade em Lancaster Gate. Em fevereiro, a empresa de correios Stanley Gibbons recebeu permissão para exibir o troféu em sua exposição Stampex de março, sob a condição de que fosse vigiado o tempo todo.

O troféu também foi segurado por 30 mil libras (R$ 211,1 mil na cotação atual), embora seu valor oficial fosse apenas 3 mil libras (R$ 21,1 mil).

Falando sobre essa relíquia, é importante lembrar o contexto histórico. Originalmente, o troféu se chamava "Vitória", mas em 1946 foi rebatizado em homenagem ao presidente da FIFA Jules Rimet, que em 1929 foi responsável pela criação do fenômeno que hoje conhecemos como Copa do Mundo.

Voltando à história, a exposição aconteceu no Westminster Central Hall e foi aberta em 19 de março de 1966. A principal atração era justamente a taça Jules Rimet. Dois policiais uniformizados faziam a vigilância constante e, durante o dia, outros dois à paisana se juntavam. Durante o horário de funcionamento, havia mais seguranças ao lado da vitrine, mas ninguém vigiava o troféu 24 horas por dia.

Roubo à inglesa

No domingo, 20 de março, os seguranças começaram a ronda do meio-dia. Por volta das 12h10, perceberam que alguém tinha arrombado a porta dos fundos do prédio e roubado o troféu. O bastão de madeira que mantinha a porta fechada estava no chão – os ladrões removeram os parafusos e pinos que o prendiam do outro lado da porta.

Eles tiraram o cadeado da parte de trás da vitrine, pegaram o troféu e foram embora. Nenhum dos seguranças viu ou ouviu algo suspeito, embora um deles tenha relatado ter visto um homem estranho perto de um telefone público quando foi ao banheiro no primeiro andar.

O país ficou em choque. O símbolo do futebol mundial desapareceu poucos meses antes do início do grande evento esportivo. Como o mundo iria encarar isso? A investigação começou imediatamente e o então presidente da FA, Joe Mears, chegou a receber uma ligação anônima (o homem se identificou como Jackson) e um pacote com pedido de resgate.

O pacote continha o revestimento removível da parte superior do troféu e uma carta exigindo 150 mil libras (R$ 1,05 milhão) em notas. A carta também dizia que a associação de futebol deveria publicar um anúncio codificado no jornal The Evening News. Se seguissem as instruções, o troféu seria devolvido até sexta-feira daquela semana; caso contrário, ou se a associação informasse a polícia ou a imprensa, os ladrões iriam derreter o troféu.

O misterioso "Jackson" acabou sendo capturado e a polícia descobriu que era Edward Betchley, um pequeno ladrão e vendedor de carros usados, condenado por roubo e receptação de bens roubados. Betchley negou ter roubado a taça, mas afirmou que poderia devolvê-la se recebesse fiança, o que foi negado.

Estrela canina

Em 27 de março, David Corbett e seu cachorro Pickles estavam passeando pelo bairro Beulah Hill, no sudeste de Londres, quando Pickles começou a farejar um pacote que estava debaixo da cerca viva da casa de Corbett. O pacote estava embrulhado em jornais velhos e amarrado com barbante.

Ao abrir o pacote, Corbett reconheceu o troféu ao ver os nomes dos campeões na base. Ele entregou o pacote à polícia. Por um tempo, as autoridades suspeitaram do dono do cachorro, mas logo ficou claro que ele tinha um álibi sólido. A notícia do achado logo saiu nos jornais e Pickles virou uma celebridade local. Apareceu em vários programas de TV e até em filmes.

Corbett também participou de um jantar com os jogadores após a final vitoriosa e recebeu uma recompensa total de 6 mil libras (R$ 42,2 mil).

O cachorro morreu em 1967 – se enforcou com a coleira, que ficou presa em um galho de árvore enquanto perseguia um gato perto de sua nova casa em Surrey. Foi enterrado no jardim dos fundos da casa do dono e sua coleira está exposta no Museu Nacional do Futebol em Manchester. O legado de Pickles ainda aparece hoje em dia. O videogame Reverse: 1999 traz a história de Pickles com uma versão do roubo da taça Jules Rimet, e ele é até um personagem jogável.

Corbett e Pickles no local onde a taça foi encontrada.
Corbett e Pickles no local onde a taça foi encontrada.STAFF / AFP / AFP / Profimedia

Desaparecimento definitivo

A taça passou a ser propriedade dos brasileiros em 1970, quando conquistaram a Copa do Mundo pela terceira vez. Isso porque a regra original da FIFA dizia que o troféu se tornaria propriedade da federação que vencesse o Mundial três vezes. A Seleção foi a primeira a conseguir esse feito e exibiu a taça na sede da CBD no Rio, mas em 1983 ela desapareceu para sempre.

Dessa vez, não houve pedido de resgate. Durante anos, circulou a história de que provavelmente foi derretida e vendida como barras de ouro, mas especialistas apontam que não havia ouro suficiente para isso. É possível que ela tenha ido parar no mercado negro e, enquanto você lê este artigo, alguém esteja olhando para ela na sala de casa...

Da taça Jules Rimet, só restou uma peça: a base original, que a FIFA guardou no porão da sede em Zurique até 2015.

Futebol