Heinze transforma defesa do Arsenal e vira peça-chave de Arteta na luta pelo topo da Europa

Gabriel Heinze, o auxiliar de Arteta no Arsenal campeão inglês
Gabriel Heinze, o auxiliar de Arteta no Arsenal campeão inglêsJULIAN FINNEY / GETTY IMAGES EUROPE / GETTY IMAGES VIA AFP

O Arsenal voltou a conquistar o Campeonato Inglês e garantiu vaga na final da Champions League, e parte do mérito passa pelo auxiliar técnico Gabriel Heinze. Indicado ao clube londrino pelo técnico Mikel Arteta, o ex-zagueiro argentino rapidamente deixou sua marca no Emirates Stadium, assumindo um papel que vai muito além de suas funções na comissão técnica.

Para chegar ao topo, não é preciso ser um gigante. Os 1,77 m de altura que compõem a figura sólida de Gabriel Heinze não fazem dele um colosso à primeira vista. Mas sua determinação e força de vontade acima da média permitiram que ele conquistasse seu espaço no futebol. Nascido na dura província argentina de Entre Ríos, o "Gringo" conquistou vários países com sua garra de defensor versátil.

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E logo em sua primeira experiência como auxiliar técnico, ele está fazendo história. Chamado pelo amigo Mikel Arteta para dar à defesa do Arsenal aquele algo a mais para finalmente romper as barreiras, o argentino respondeu do seu jeito. Ou seja, transmitindo aos jogadores a confiança necessária para deixar as dúvidas de lado e vencer.

Arteta e Heinze comemoram o gol de Saka contra o Atlético
Arteta e Heinze comemoram o gol de Saka contra o AtléticoReuters/Paul Childs

Seu trabalho psicológico foi fundamental tanto com o próprio treinador dos Gunners quanto com os jogadores após a derrota por 2 a 1 no dia 19 de abril, no Etihad Stadium, casa do Manchester City, onde uma faixa estampava a frase "Panic on the streets of London", citando uma famosa música dos Smiths que caiu como uma luva para o momento.

Irmão mais velho

Quem conhece muito bem o ex-zagueiro argentino é Fernando Signorini. Preparador físico da seleção albiceleste na Copa do Mundo de 2010, ele trabalhou diretamente com Heinze no período em que auxiliava Diego Maradona. Para Signorini, o principal diferencial do ex-defensor vai muito além das quatro linhas: é o seu lado humano.

"Vem de uma família muito unida e é um homem de uma nobreza de espírito realmente admirável, daqueles que falam o que pensam, que são sinceros, mas também respeitosos", destacou. 

Para o preparador físico argentino, Heinze foi uma figura crucial na conquista da Premier League pelo Arsenal. "Sua presença e sua voz no vestiário foram muito bem recebidas pelos jogadores, assim como suas palavras de incentivo e também sua maneira de enxergar o futebol". Um dos que mais se beneficiaram foi, sem dúvida, o zagueiro brasileiro Gabriel Magalhães, seu xará e canhoto como ele, com quem criou uma sintonia que vai muito além da clássica rivalidade entre as duas escolas de futebol.

No ano passado, por exemplo, o Arsenal acumulou 70 cartões amarelos e nada menos que seis vermelhos em todo o campeonato, enquanto nesta temporada não houve nem sinal de expulsões e as advertências foram apenas 50. Coincidência? Provavelmente não, porque o argentino é um verdadeiro martelo que entra na cabeça dos jogadores e faz com que superem obstáculos aparentemente impossíveis.

Dentro do jogo

Vindo de um ambiente difícil como o de Rosario, cidade argentina conhecida pela paixão dos torcedores do Newell's Old Boys e dos rivais do Rosario Central – além do triste cenário atual dominado pelo narcotráfico – Heinze levou para o futebol sua raiva, mas também sua objetividade. Zagueiro duro, mas eficiente, como treinador mostrou uma atenção quase obsessiva aos detalhes, assim como seus mentores Alex Ferguson e Marcelo Bielsa.

Quem confirma sua extrema preparação teórica e tática é Javier Vilamitjana, preparador físico e científico do futebol que trabalhou com Heinze no Godoy Cruz, Argentinos Juniors, Velez, Atlanta United e Newell's Old Boys. "Gabi é um treinador extremamente metódico, não deixa nada ao acaso em suas análises. Ter se formado como jogador em altíssimo nível forjou ainda mais seu caráter, que já era determinado desde o nascimento", afirma Vilamitjana, que lembra que na campanha da Copa de 2010, o então técnico da Argentina, Diego Armando Maradona, escolheu Heinze como segundo capitão, atrás de Javier Mascherano, com quem dividia o quarto e as conversas.

Poliglota e sem filtros

O lado humano de Heinze anda junto com o técnico. Como destaca o próprio Vilamitjana: "Gabi fala inglês, francês e espanhol, e com cada jogador tem uma atenção especial e única. Arteta, que o conheceu ainda jovem no PSG e depois passou muito tempo com ele quando jogava no Everton e Heinze estava no United, o escolheu por sua vontade insaciável de competir e vencer, e isso ficou claro já na sua primeira temporada no Arsenal".

A melhor qualidade que seu ex-assistente destaca do auxiliar do Arsenal é a sinceridade, misturada com humildade: "Ele e Arteta são grandes amigos, mas quando precisa falar algo, Gabi não se prende a protocolos, fala com franqueza. Se o clima esquenta, ele espera esfriar e depois de um tempo bate na porta do escritório do Mikel para retomar a conversa".

Protagonista nos bastidores da grande temporada de um Arsenal que vai buscar um doblete histórico neste sábado em Budapeste, Heinze é obcecado pelo trabalho minucioso. Vilamitjana lembra: "Assim que acabava um jogo, já no ônibus de volta ele começava a pedir aos assistentes os dados do próximo adversário, que até então ele nem tinha considerado. Ele nunca tirava folga, mesmo quando vencíamos e estávamos felizes. Sua força está na determinação absoluta que vem de dentro dele".

Único argentino presente na grande final da Puskas Arena, o jogador de 48 anos de Entre Ríos vai em busca de sua primeira Champions League. Um troféu que nunca levantou como jogador. E, por aquelas ironias do destino, terá que fazer isso contra Luis Enrique, que foi seu treinador na época da Roma, com quem vai se cumprimentar antes do início, com um abraço. Depois, vai deixar o protocolo de lado e lutar para vencer. Como sempre.