Mesmo primeiro nome, mesmo clube, mas um estilo totalmente diferente. Menos espalhafatoso, os analistas encontraram apenas um erro durante toda a temporada, que resultou em gol. Raya não ficou de fora nenhum minuto, mas se beneficiou muito do estilo defensivo do time e da disciplina, características valorizadas por seu compatriota e técnico, Mikel Arteta.
Confira os incríveis números por trás do título inglês do Arsenal
Nesses 37 jogos, o espanhol fez em média por jogo apenas 1,6 defesa, o menor número de toda a Premier League. Por exemplo, na segunda-feira (18) contra o Burnley, não precisou fazer nenhuma. O Arsenal também é o único time que não teve nenhum pênalti marcado contra durante toda a temporada.
Isso lembra muito o Chelsea de Mourinho e Petr Cech (aliás, antecessor de Raya no gol do Arsenal), que ainda detém o recorde histórico da liga em jogos sem sofrer gol em uma temporada (24 em 35 jogos, em 2004/05). Ele também tinha pouco trabalho, o que, segundo o tcheco, tornava ainda mais difícil manter a concentração e aparecer nos momentos decisivos.
"E é justamente esse o ponto forte do Raya. Ele faz uma defesa incrível no momento mais importante, quando o time mais precisa, não quando está ganhando de 3 a 0. É exatamente isso que você espera de um goleiro," elogia o lendário zagueiro dos Gunners, Nigel Winterburn, em entrevista ao Livesport Zprávy.
Winterburn acertou em cheio na análise. Das 25 vitórias dos Gunners, 14 foram por um gol de diferença, oito delas pelo "placar à la Mourinho" de 1 a 0 (nas últimas quatro rodadas, o Arsenal venceu três vezes assim). Raya também se destaca por comandar a defesa. Diferente de muitos compatriotas, ele não tem problema com o inglês.

O futebol raiz na 5ª divisão inglesa
Afinal, o espanhol vive na Inglaterra há quase metade da vida. Pouco antes de completar 17 anos, deixou a cidade natal, Barcelona, e, graças à parceria do seu então clube Cornellá (que, aliás, foi comprado por Lionel Messi há algumas semanas) com o Blackburn, foi para a Inglaterra.
Lá, ele foi emprestado para o Southport, time amador, e na quinta divisão inglesa, Raya teve um contato duro com o futebol adulto.
"Aprendi que nada vem de graça. No Blackburn, como jovem, cuidavam de tudo para mim, mas ali percebi que precisava me virar sozinho. Foi uma grande lição, abriu meus olhos", relembra em entrevista ao site oficial do Arsenal.
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Aliás, ele mesmo pediu para ser emprestado, sentia que jogar na base não era suficiente. "Desde pequeno eu sabia o que queria conquistar e o que queria fazer. Isso foi muito importante", conta.
O goleiro, que não é muito alto (1,84 m), teve um começo ruim. Nos quatro primeiros jogos pelo Southport, sofreu nove gols, mas não se abalou. Nos seis jogos seguintes, terminou quatro sem sofrer gol e ainda ajudou o time a chegar à terceira fase da FA Cup.
"Lá, fomos eliminados pelo Derby County por 1 a 0, com um pênalti no último minuto", relata.
De qualquer forma, o caminho para o gol do Blackburn estava aberto, o clube o chamou de volta antes do fim da temporada e, a partir do ano seguinte, ele já era o titular. E, graças à experiência nas divisões inferiores, aprendeu as particularidades do futebol inglês raiz.
Além das cotoveladas
"Em todo escanteio, toda falta, eu levava cotovelada em todo lugar possível", descreve.
E não só cotovelada. Em um jogo contra o West Bromwich, em 2018, ele levou um chute tão forte no nariz que quebrou todos os ossos. Não conseguia respirar, precisou de máscara de oxigênio ainda no gramado e os médicos, após levá-lo ao hospital, constataram que a lesão era tão grave que um fragmento do osso quase pressionava o crânio. Além de causar um grande inchaço, danificou o rosto.
Raya terminou a temporada usando uma máscara protetora (diferente de Cech, podia tirar a proteção) e, depois, cirurgiões plásticos reconstruíram seu nariz. A cirurgia mudou tanto sua aparência que os torcedores nem o reconhecem em fotos antigas.
Ele demorou para se adaptar aos duelos aéreos, mas a transferência para o Brentford o ajudou muito nesse aspecto, e ele diz que evoluiu bastante. O então treinador de goleiros do clube, Iñaki Cana, foi fundamental na ida de Raya para o Brentford. Ambos catalães de origem, se tornaram amigos e o goleiro depois seguiu o treinador para o Arsenal.
"Mudei muito sob o comando dele. Antes, eu confiava só no meu reflexo e ficava esperando na linha por uma defesa milagrosa. Ele me ensinou a ser proativo e evitar que os chutes acontecessem. Isso inclui sair do gol para interceptar cruzamentos", explica Raya.
Aos 30 anos, ele começou a investir na carreira de treinador. Já tirou a licença B da UEFA e está estudando para a especialização de goleiros. Agora, com o título inglês, consolidou seu status como um dos melhores goleiros do mundo. Só tem azar em uma coisa. Na seleção, o titular absoluto é Unai Simón, e Raya jogou apenas 12 partidas pela Espanha.
Assim, o novo campeão inglês vai acompanhar os jogos da Copa do Mundo apenas do banco de reservas...
