Em 2026, Yohan retomou a sua carreira em grande estilo, conquistando dois acessos: um pela Série A3 do Campeonato Paulista com a Portuguesa Santista e outro pela Série D do Brasileirão com o ASA-AL. No estadual, o jogador ainda levou o troféu de craque da competição e foi eleito o melhor meio-campista do certame — evidenciando que, com força de vontade e o suporte correto, é possível superar a depressão.
"Eu glorifico o nome de Deus, porque sem Ele isso não seria possível. O futebol é intenso, e parar por três anos parece o fim da carreira. Retornar, conquistar o acesso na Série A3 como campeão e, em seguida, jogar a Série D e subir para a Série C é, com certeza, fruto da mão de Deus, de muito trabalho e do apoio familiar — além da resiliência, já que vivemos em um mundo muito complicado", disse o atleta.
Como tudo começou
Natural de Praia Grande, Yohan iniciou sua trajetória na base do São Paulo e chegou a atuar ao lado de Antony, hoje no Real Betis, da Espanha. Em 2019, o meio-campista embarcou para Portugal para defender o Trofense. Na Europa desde os 18 anos, o atleta conta que enfrentou muitas dificuldades de adaptação ao mudar de país tão cedo:
“Eu morei sete anos em Cotia e vivi o sonho que todo garoto tem: atuar na base do São Paulo. Depois, passei cinco temporadas em Portugal e adquiri muita bagagem, já que a cultura e o futebol são muito diferentes. Até o sotaque e o vocabulário eram difíceis de entender no início, apesar de o idioma ser o mesmo”, afirmou o jogador.

Yohan saiu de casa aos 14 anos e, pouco tempo depois, embarcou para a Europa para encarar uma nova rotina. Além da adaptação, o meio-campista precisou lidar muito cedo com a pressão e o excesso de responsabilidades profissionais — fatores que, segundo ele, viraram uma "bola de neve" em sua mente.
“Quando completei 23 anos, não sabia o que estava acontecendo, porque não me sentia mais feliz. Não queria mais treinar, jogar... Só queria ficar no meu quarto. Foi um momento muito complicado e, mesmo tendo contrato em Portugal, decidi retornar ao Brasil e parar. O tempo foi passando, perdi totalmente a forma física e, quando percebi, já tinham se passado três anos”, completou o meia.
Além do enfrentamento da depressão, Yohan precisou lidar com um momento delicado na família, envolvendo sua mãe. Com tantas adversidades acontecendo ao mesmo tempo, o atleta destaca que a fé em Deus e a união familiar foram fundamentais em sua recuperação. Casado e pai de duas filhas, o meio-campista ressalta que também contou com o suporte essencial dos pais e dos irmãos.
“Eu até me emociono falando porque voltar a jogar e estar feliz, fazendo o que eu mais amo fazer… foi muito difícil, mas graças a Deus, passei por isso e hoje vejo que foi preciso atravessar esse momento para ser a pessoa que sou agora. Hoje estou feliz, motivado e querendo sempre mais”, completou Yohan.
A volta por cima
Para se recuperar do quadro de depressão, Yohan decidiu fazer um curso de saúde mental, no qual conheceu um profissional que o auxiliou na retomada das atividades e o apresentou a um pastor — figura que também se tornou fundamental no processo de superação.
“Muitas coisas a gente guarda e não quer falar. Principalmente na base, quando vivemos dificuldades e decidimos não conversar com nossos pais. Acredito que a parte mental é a mais importante no futebol, porque vamos nos saturando e precisamos buscar ajuda, já que sozinhos não conseguimos”, disse o atleta.

O retorno aos gramados exigiu um trabalho árduo, pois o período afastado fez o atleta chegar aos 96 quilos. Com o acompanhamento de um nutricionista e de um preparador físico, o meia perdeu 15 quilos em apenas três meses, fruto de intensa disciplina e de uma rotina severa de treinamentos. Questionado sobre o período, Yohan confirmou que enfrentou a doença, mas ressaltou que o momento difícil ficou no passado.
“Eu nunca falei isso abertamente, é a primeira vez. Ninguém quer falar sobre o assunto, preferem esconder, mas sim, foi depressão. Faz parte. Quando nos sentimos sem vontade de sair de casa e ficamos muito para baixo, precisamos procurar ajuda. Foi o meu caso e, graças a Deus, minha família me ajudou muito a não desistir”, completou o jogador.
2026: o ano das vitórias
Relembrar os momentos difíceis tem sido o principal combustível de Yohan Marcellus dentro das quatro linhas. Na Portuguesa Santista, o atleta marcou oito gols e distribuiu quatro assistências em 19 partidas. A campanha vitoriosa culminou no título e no acesso para a Série A2 do Paulistão.

O desempenho do jogador despertou o interesse do ASA de Alagoas. Pela equipe de Arapiraca, o meia somou 13 jogos em 2026, com três participações diretas em gols — um tento e duas assistências. O time alagoano também garantiu o acesso com Yohan, que se consolidou como um verdadeiro "pé-quente" nas divisões de acesso nesta temporada.
“Minha volta para a Portuguesa Santista aconteceu em um momento muito delicado, e o clube me abraçou. Eu estava há três anos sem jogar, parado, e eles me abriram as portas. Nem nos meus melhores sonhos imaginei que voltaria conquistando dois acessos e um título no mesmo ano. Foram momentos marcantes que levarei para toda a vida. Subimos com o ASA e agora a responsabilidade só aumenta, mas vamos nos preparar bem”, projetou o atleta.
Os sonhos do futuro
Mirando o futuro, o meio-campista não esconde o desejo de alcançar voos ainda maiores na carreira, mas reforça o compromisso e o foco total na equipe alagoana para o próximo ciclo.
“Eu acredito que tenho capacidade para atuar em níveis mais desafiadores do futebol, e sei que isso vai acontecer. Mas, agora, o meu sonho é ser feliz no ASA, principalmente nesta nova temporada, que torço para que seja maravilhosa. A pré-temporada já começa em dezembro e espero que 2027 seja de muitas conquistas. Vamos trabalhar e continuar firmes, porque grandes coisas estão por vir”, projetou Yohan.
Ao fim da conversa, Yohan ressaltou que jamais havia falado de forma tão aberta sobre o momento difícil que atravessou, mas enfatizou o desejo de que sua história sirva de inspiração para que outras pessoas superem a depressão. Retornar aos gramados foi um ato de enorme coragem do meia, mas aceitar ajuda e não desistir foi a verdadeira bravura — um exemplo que, certamente, continuará impactando muitas vidas.
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