O episódio, ocorrido no retorno do intervalo antes do reiniciar da partida entre Santos e Bahia, expôs não apenas o desconhecimento de atletas em relação aos regulamentos, mas também levantou discussões profundas sobre a autoridade da arbitragem e o escopo das novas diretrizes da FIFA.
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Para entender a aplicação do cartão vermelho e os bastidores do protocolo, as análises dos ex-árbitros Márcio Rezende de Freitas e Sálvio Spínola ao Flashscore traçam um panorama completo da controvérsia: desde o papel da tecnologia até as origens da chamada norma do combate à ocultação de ofensas.
Diálogo no VAR: Imagem e intenção de confronto
A decisão em campo tomou forma a partir da revisão conduzida pela cabine do VAR, sob responsabilidade do árbitro de vídeo Paulo Renato Moreira da Silva Coelho, e executada pelo juiz principal Sávio Pereira Sampaio (DF). O diálogo oficial expõe como a imagem do gesto, associada à atitude ostensiva de confronto, definiu a punição:
- VAR (Paulo Renato Moreira da Silva Coelho): "Sávio, o Neymar coloca a mão na boca. Ofensa, não sei se houve, porque ele coloca a mão na boca."
- VAR: "Eu tenho a imagem dele tapando a boca. É passível, sim, de revisão."
- Sávio Pereira Sampaio: "Foi confusão?"
- Sávio Pereira Sampaio: "Ok. Tapou a boca e foi confrontar o adversário."
- VAR: "São as duas imagens que eu tenho."
- Sávio Pereira Sampaio: "Ok. Decisão: cartão vermelho."
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"Jogador não entende a regra": Incompreensão sobre o protocolo
Tanto Márcio Rezende quanto Sálvio Spínola são categóricos ao ressaltar o equívoco de interpretação por parte dos jogadores e da comissão técnica ao associarem a proibição do gesto exclusivamente a episódios de racismo.
"Infelizmente, o jogador de futebol não entende a regra do jogo", disparou Márcio Rezende. "O Neymar não compreendeu a norma. A regra não trata exclusivamente de atitudes antirracistas, mas sim de proibir a ocultação da boca para proferir ofensas contra um companheiro de profissão. Se a determinação existe e foi baixada, ela precisa ser cumprida", acrescentou o ex-árbitro internacional.
Sálvio Spínola, ex-árbitro e comentarista de arbitragem na TV Record, corrobora e detalha a origem da diretriz, explicando que a intenção da regra é sempre proteger a vítima de insultos velados que geram confusão em campo.
"Por que isso surgiu neste ano, uma alteração na regra a pedido do presidente da FIFA e começou a valer na Copa? Por conta do Vini Jr. Tanto é que é chamado de 'Lei Vini Jr.'. Lá foi ato de racismo: o jogador colocou a mão e ofendeu de forma racista o Vini Jr., e houve dificuldade de punir ou não o jogador, e o Vini ficou revoltado com o que ouviu", explicou Sálvio.
"A regra quer sempre proteger a vítima. Se o Nestor se sentiu ofendido pelo que foi falado, a arbitragem tem que proteger a vítima. O que é importante: colocar a mão na boca não é cartão vermelho só quando é ofensa racista. A regra não é para racismo, a regra é esconder o que está falando e gerar confronto. Pela regra, é cartão vermelho. Se o que o Neymar falou não tivesse a mão na boca, se ele estivesse cara a cara falando com o Nestor, ele não seria expulso", completou Spínola.
Pelo lance, Neymar foi denunciado no STJD. Ele será julgado com base no artigo 191, inciso II, do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, que consiste em "deixar de cumprir determinação da entidade de administração do desporto que estiver vinculado". O item prevê uma multa que pode variar de R$ 100 a R$ 100 mil de acordo com a gravidade da infração.
Bola parada e autoridade no gramado: O cartão antes do apito
Outro ponto contestado pela equipe santista diz respeito ao momento da expulsão, já que o lance ocorreu com o jogo paralisado no retorno para o segundo tempo. Sálvio Spínola rebateu os questionamentos feitos pelo auxiliar técnico Cuquinha e reforçou a abrangência do poder disciplinar do juiz:
"Qual é a reclamação do Cuquinha e dos jogadores? Que o jogo não tinha começado, que a bola estava parada. A questão disciplinar é sempre da competência do árbitro: quando entra em campo, quando a bola está rolando, quando tem o intervalo e quando acaba o jogo. Não tem nada de errado em expulsar quando o jogo ainda não tinha iniciado o segundo tempo. Até dentro do túnel o árbitro pode mostrar cartão vermelho, inclusive com o VAR analisando as imagens. A autoridade do árbitro sobre os jogadores só acaba quando eles entram nos vestiários. É indiscutível: cartão vermelho para o Neymar", enfatizou Sálvio.
Crítica à perda de autonomia da arbitragem
Por outro lado, Márcio Rezende chamou a atenção para o enfraquecimento do protagonismo dos juízes no campo, avaliando que a proliferação de protocolos rígidos reduz o espaço de interpretação do árbitro de apito:
"Eu preferiria um meio-termo, um divisor de águas em relação a essa regra. O árbitro perdeu a autoridade do jogo atualmente; ele não consegue mais controlar a partida", argumentou Márcio Rezende, sinalizando que a arbitragem moderna tornou-se excessivamente dependente das checagens do VAR.
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